Arquivo mensal: junho 2014

Corpos de consumo

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Minha querida amiga Rose Marie Muraro foi para a luz divina há uma semana. Escrevemos juntas o artigo “Corpos de consumo”, publicado na Folha de São Paulo em 07 de março de 2008, que reproduzo no blog para manifestar minha gratidão por essa amizade tão rica de ideias e de afeto, que continuará viva dentro de mim.

O modelo ideal de homem e mulher, em vez de elevar a autoestima, só faz com que esta diminua e seja substituída por mal-estar.

Desde que começamos a trabalhar com mulheres, a pergunta básica que nunca deixou de ser a mesma é sobre o tratamento da mídia a respeito do corpo feminino. Agora, contudo, devido ao avanço da tecnologia, a coisa está se tornando mais grave. O consumo não é mais sobre a forma física da mulher, que é sempre jovem, magra e bela, mas sobre seus laços mais profundos.

Sites americanos e brasileiros apresentam o “pacote de cirurgia pós-parto”: lipoaspiração para retirada das gordurinhas extras, correção da vulva e dos seios, tudo para consertar o “estrago” que a gravidez faz no corpo da mulher. Médicos mais sensatos recomendam alguns meses de espera para que a própria fisiologia se encarregue de fazer boa parte do trabalho, mas outros vendem a ideia de “aproveitar a oportunidade do parto” e cuidar de recuperar rapidamente a autoestima supostamente perdida com a “deformação” provocada pelo feto.

O vínculo amoroso imprescindível com o bebê, a intimidade da amamentação, a importância dos primeiros dias e semanas após o parto para incluir o bebê na família deixaram de ser a prioridade?

Sim. Para a sociedade de consumo, nem o corpo da mulher nem o da criança nem o do homem são prioridades. A prioridade única e exclusiva é o lucro. O lucro vale mais do que a vida humana. No depoimento de algumas mulheres motivadas a comprar o “pacote”, os argumentos giravam em torno de garantir a permanência do desejo do marido, preservar a boa imagem no ambiente de trabalho, destacar a importância do corpo perfeito. E agora perguntamos: vale a pena ficar com um companheiro que só nos quer se estivermos “com tudo em cima”? O consumo também engole os valores mais profundos do amor.

Em conversa com uma moça na faixa dos 20 anos, vimos a insegurança de ir para a cama com o namorado sem estar perfeitamente depilada. Este, por sua vez, também depila os pêlos do peito: não é à toa que cresce o nicho das clínicas de depilação. Será que o desejo ficou tão vulnerável à estética, tão volátil, que desaparece sem os devidos cremes, as horas nas academias e os tratamentos de beleza para corrigir as imperfeições?

É isso que se faz com a juventude.

Ao invés de aumentar a autoestima, o “modelo perfeito” de homens e mulheres só faz com que esta diminua e seja substituída por um mal-estar subjacente que, desde a adolescência, persegue homens e mulheres a respeito de sua imagem até o fim da vida. Porque é impossível para o ser humano médio competir com os padrões de beleza que vê nas revistas, nos filmes e nas novelas de televisão. O fato se agrava cada vez mais à medida que a mulher vai amadurecendo.

Na maioria dos países desenvolvidos, os anos de vida útil aumentam cada vez mais, e cada vez mais se faz uma publicidade para a beleza amadurecida. No Brasil, as companhias de cosméticos não conseguem furar a barreira do preconceito da eterna juventude, a fim de criar uma “juventude” interna que não se desgasta com o correr dos anos.

Em meio a intensas dores e desconforto de uma plástica de abdome para tirar a barriguinha que ficou mal na foto, uma mulher de meia-idade pensa na calça jeans e nos vestidos de malha que conseguirá usar depois de atravessar a via-crúcis do pós-cirúrgico e das várias limitações à sua mobilidade nas primeiras semanas.

Qual o verdadeiro sentido desse sofrimento auto-imposto?

O amor, o desejo, a ternura e a cumplicidade podem existir entre pessoas com corpos imperfeitos. Ao contrário do que a mídia apregoa, quanto mais maduros homens e mulheres, mais profundas se tornam suas relações, mais independentes de estereótipos e mais prazerosas, de um prazer inabalável, se não fosse o bombardeio midiático de que a velhice é uma doença, e não uma plenitude.

Para onde nos leva o capital/dinheiro? São inaceitáveis as marcas (e os marcos) do tempo no corpo? É imoral envelhecer?

O pior é que não é só o corpo que o capital/dinheiro destrói. Ele destrói também a capacidade de homens e mulheres de aprofundarem a sua relação com a realidade. Destruir o corpo real e substituí-lo por um corpo de consumo é também substituir a “realidade real” por uma “realidade de consumo”, que tende a destruir a própria espécie humana (a partir do desequilíbrio climático pelo excesso de consumo).

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Atacar os problemas sem atacar as pessoas

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– A que você associa a palavra “conflito”?

Costumo abrir as Oficinas sobre Estratégias na Solução de Conflitos com essa pergunta. A grande maioria dos participantes associa conflito a problema, desentendimento, briga, disputa, bate-boca, desgaste emocional. Poucos consideram o conflito como oportunidade, e até mesmo como evolução do relacionamento.

As divergências de opiniões, necessidades, visões do mundo e contextos culturais formam as raízes de conflitos e geram conversas difíceis nas relações familiares, sociais e profissionais. O recurso mais importante para a resolução de conflitos é a escuta atenta e respeitosa do ponto de vista do outro e a habilidade de expressar com clareza nosso próprio ponto de vista. Com isso, torna-se possível captar o que os outros sentem, tratando de descobrir os pontos em comum, mesmo quando há profundas divergências. É nesse terreno que poderemos construir “acordos de bom convívio”.

Para isso, é preciso acreditar que não há uma verdade absoluta. Melhor do que ganhar a discussão é ver o que podemos ganhar com ela, criando uma terceira história que não é exatamente a nossa nem a do outro, mas a que conseguimos elaborar a partir do entendimento recíproco.

No caleidoscópio, com as mesmas peças, vemos imagens diferentes sempre que o giramos de um lado para o outro. Não há imagens certas nem erradas, apenas diferentes. Assim acontece com as diversas visões do mesmo fato ou da mesma situação.

Podemos contar com um poderoso instrumento de transformação: a flexibilidade de nos examinarmos para descobrir como contribuímos para o problema e o que podemos fazer para solucioná-lo. Quando deixamos de colocar a culpa nos outros e paramos de reclamar por não ganhar o que queremos, conseguiremos transformar conversas difíceis em diálogos eficazes.

Essa flexibilidade não significa abrir mão de nossos valores e de crenças fundamentais. Podemos dizer “Não” com habilidade, abrindo a porta para dizer “Sim” à preservação do relacionamento, respeitando as diferenças e buscando soluções que não haviam sido pensadas anteriormente, em clima de colaboração. Os adversários passam a ser “sócios” do problema: aprendemos a atacar o problema sem atacar as pessoas. Todos ganham com isso.

“Meu filho pede pra apanhar!”

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Quem bate argumenta que está “atendendo pedidos”. Na verdade, o cérebro imaturo da criança faz com que a autorregulação do desejo e da raiva vinda da frustração dos desejos seja um processo demorado. “Eu quero agora!” – a lei do desejo – cede, pouco a pouco, o lugar para construir a ponte que conduz à lei da realidade: “Nem sempre tenho tudo que quero, na hora ou do jeito que eu desejaria”. O “pedido” não é por palmadas, mas por limites claros, coerentes e consistentes que ajudam a criança a construir o freio interno que é a autodisciplina e a capacidade de cuidar bem de si mesma.

A Lei da Palmada, renomeada como “Lei Menino Bernardo” (PLC 58/2014) aguarda sanção presidencial, após ser aprovada pelo Senado, com o objetivo de proteger crianças e adolescentes de castigos físicos e humilhantes. Se a criança não atende, o que fazer em vez de dar palmadas? – é a pergunta de muitos pais. Se babás e professoras precisam desenvolver habilidades de comunicação para que as crianças façam o que precisa ser feito sem recorrer a castigos físicos, por que há pais que ainda acreditam em “palmadas educativas”?

Palmadas, gritos e tratamento humilhante revelam falta de recursos mais eficientes e menos danosos para a formação da criança. As escolas de pais e os inúmeros blogs que agregam milhares de mães e pais para trocar ideias e experiências sobre os desafios de lidar com as crianças no dia a dia contribuem para compreender melhor as fases do desenvolvimento e aprimorar recursos de manejo.

Atitudes de provocação e desafio das crianças enraivecem muitos adultos, mas entrar no circuito de gritos e palmadas para se fazer obedecer pode resultar em escalada de agressividade que prejudica a boa qualidade do convívio. Em casos extremos, resulta em relacionamentos familiares violentos, em que as crianças passam a ser vítimas de maus tratos.

Conversar com a criança, dando a ela a possibilidade de dizer o que pensa e sente; fazer “combinados” com as respectivas consequências quando não forem cumpridos; estimular a criança a descobrir alternativas viáveis para aceitar o “não” que frustra um desejo seu; desenvolver a combinação de firmeza com serenidade ao colocar os limites devidos, olhando nos olhos da criança; lembrar que fazer ameaças que não serão cumpridas acabam com a credibilidade da palavra. Esses são apenas alguns dos muitos recursos para educar e favorecer o desenvolvimento da autonomia com responsabilidade, em clima de amor e de respeito.

Futebol em família

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– Meu filho, futebol é para você jogar, torcer pelo time que você quiser e se divertir. Não é para se meter em brigas com os colegas que torcem por times diferentes! – diz Jaime para seu filho de 9 anos.

– Eu queria torcer pelo Vasco, que é o time do meu avô, mas meu pai me obriga a torcer pelo Botafogo, aí eu finjo que sou Botafogo só para ele não brigar comigo… – lamenta Antônio, 10 anos.

– Meu marido fez questão que nosso filho entrasse para a escolinha de futebol, mas ele vai contrariado. Acaba não entrando no jogo pra valer, aí os outros meninos ficam zoando e o chamam de perna de pau. Ficou chateado por não ter sido convidado para a festa de aniversário de um colega porque era só para meninos bons de bola. Acho que a gente não deveria insistir, ele é menino mas não gosta de futebol, e daí? – Adriana estava preocupada.

– Na minha família, alguns torcem pelo Flamengo, outros pelo Fluminense. Em dia de jogo, a gente se odeia, um implica com o outro, depois fica tudo bem – comenta Isaura.

Futebol inspira paixões. Bebês já vestem a camisa do time do papai torcedor. Muitos pais pensam que ser bom de bola faz parte da formação do macho. Mas tentam desencorajar a filha que gostaria de entrar em campo. Por que? Por ser menina só pode fazer balé ou ginástica olímpica?

Em algumas famílias, a liberdade de escolha é cerceada quando a paixão por um time toma conta dos adultos da casa. O que torce por outro acaba submetido a críticas severas ou a cenas de humilhação quando o time que ousou escolher perde. Conviver com pessoas que torcem por times diferentes pode gerar guerras insanas em famílias, no pátio do recreio de escolas e em estádios de futebol.

Ganhar e perder faz parte do jogo da vida. Conviver em paz com escolhas diferentes contribui para consolidar o respeito pela diversidade. Perder uma partida ou até mesmo um campeonato pode ser uma boa oportunidade para ver o que é preciso melhorar em seu próprio desempenho. O adversário, em vez de ser olhado como um inimigo a ser aniquilado, pode ser visto como aquele que nos oferece a oportunidade de superarmos nossos próprios limites.

A Copa do Mundo no Brasil está chegando. Entre uma partida e outra, dá para pensar na riqueza desse tema nas relações familiares.