Arquivo mensal: julho 2014

Trabalhar em família pode dar certo!

Fui convidada para participar do programa Sem Censura para comentar os depoimentos dos participantes sobre a experiência de integrar relação familiar com relação profissional. Falamos sobre desafios e oportunidades, destacando alguns temas:
• Desenvolver o espírito empreendedor- procurar perceber oportunidades, capacitar-se para fazer um bom plano de negócios, descobrir nichos de mercado, ter visão de futuro, ter persistência e determinação para vencer obstáculos;
• Equilibrar ousadia e cautela- estimular a criatividade para desenvolver novos produtos e serviços, descobrir os próprios talentos no decorrer do tempo, expandir possibilidades;
• De pais para filhos- transmitir a noção de compromisso, responsabilidade, cooperação, complementação de habilidades dos vários membros da família/empresa, aprendizagem contínua;
• Aprimorar a competência para resolver conflitos por meio da escuta atenta para as diferentes visões- descobrir os pontos em comum nas divergências e colocar o foco no que todos querem alcançar (um bom convívio na família, a prosperidade do negócio familiar) para escolher, em conjunto, os melhores caminhos a serem trilhados.
Nem tudo são flores, é claro. Já trabalhei com pessoas que admnistravam empresas familiares que se queixavam de grandes dificuldades de convívio na família e no trabalho. Em uma delas, a filha da dona da empresa que trabalhava na gerência tratava os colaboradores com arrogância e prepotência, gerando ressentimento e revolta que acabavam prejudicando o desempenho das equipes; em outra, a dificuldade do fundador de aceitar sugestões dos filhos sobre novas perspectivas de gerenciar a empresa travava a expansão dos negócios; a rivalidade entre irmãos, a impressão de que um está sendo mais favorecido do que o outro são também questões importantes que dificultam a integração entre a relação familiar e a profissional.
Apesar das dificuldades que comumente surgem nesses empreendimentos, trabalhar em família pode dar certo!

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É possível ser honesto?

 

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Em uma roda de conversa com pessoas de diferentes áreas profissionais, a honestidade foi o tema escolhido para a troca de ideias. Para a maioria dos participantes, o que melhor sintetiza o conceito de honestidade é integridade, sinceridade e respeito pelos acordos feitos com os outros.

Os questionamentos pipocaram rapidamente. Todos nós usamos máscaras sociais: nem sempre convém ser sincero; dizer o que  verdadeiramente pensamos ou sentimos pode ser desastroso; coibimos a espontaneidade das crianças ensinando que não podem dizer que detestaram o presente que ganharam nem dizer que o nariz da pessoa que acabaram de conhecer é horroroso. Não dá para ser 100% honesto…

E quando somos honestos com o que sentimos e, ao mesmo tempo, considerados desonestos por romper um contrato com outra pessoa? Um homem casado, que se apaixona por outra mulher sem deixar de gostar da sua esposa, decide manter os dois relacionamentos. Ele está sendo íntegro com seus sentimentos, mas desonesto com sua companheira, em uma sociedade que valoriza o contrato monogâmico. Em outro contexto social, manter os dois relacionamentos não seria visto como conduta desonesta.

Quando optamos por condutas desonestas, criamos bons argumentos para mitigar o sentimento de culpa e o desconforto pela transgressão. Profissionais liberais que não declaram a totalidade de seus rendimentos tentam apaziguar sua consciência dizendo que pagariam o imposto de renda de bom grado se não vivessem em um país com tanta corrupção, desvio de verbas e baixa qualidade de serviços públicos. Muitos internalizam a tendência a definir como “esperto” quem consegue enganar os outros e a considerar “otário” quem é muito certinho (“Ah, me dei bem, o vendedor errou o troco a meu favor e eu embolsei a grana”). Por outro lado, muitos confessam que sentem prazer em transgredir os padrões morais cultuados pela sociedade em que vivem.

Pais e educadores acham difícil a tarefa de transmitir o valor da honestidade para crianças e adolescentes que acompanham o noticiário recheado de notícias de corrupção e uso indevido do dinheiro público sem que haja qualquer tipo de punição. Essa reflexão gerou a pergunta: É possível sobreviver como  um político ou um empresário honesto em um ambiente em que predominam conchavos e a prática do “toma-lá-dá-cá”? Como acreditar no valor da honestidade em contextos em que a impunidade floresce e “tudo acaba em pizza”, gerando um sentimento crescente de desalento com a atuação do Judiciário?

A comunidade científica se abala com o percentual de artigos publicados em revistas bem conceituadas que, posteriormente, são considerados fraudulentos. Dados de pesquisas são distorcidos para  atender a interesses da indústria farmacêutica ou à necessidade de aumentar a produção acadêmica que favorece a ascensão profissional. A honestidade fica relegada a segundo plano quando predomina a competição pelo “status” na comunidade de pesquisadores ou o interesse financeiro, como se os fins justificassem os meios. No entanto, a honestidade é o alicerce da confiança nos relacionamentos e da credibilidade das instituições.

“Eu moro nesse navio!”

Fim de tarde que fotografei no catamarã dos mergulhadores.

Fim de tarde que fotografei no catamarã dos mergulhadores em Abrolhos.

Liz, 86 anos, conversava animadamente com um jovem casal que se sentou ao seu lado para assistir ao espetáculo noturno no transatlântico em que viajavam pelas Bahamas.
– É a nossa primeira viagem marítima. E a senhora, gosta de viajar em navios?
– Gosto tanto que resolvi morar aqui!
– Como assim? A senhora mora no navio?!
– Sim! Não tive filhos nem maridos, e meus melhores amigos morreram. Então, há cinco anos, pensei em sair do apartamento em que morava sozinha e ir para um lar de idosos. Visitei alguns, nenhum me agradou. Fiz as contas das despesas e concluí que seria muito mais agradável e até econômico morar em um navio. Aqui tenho tudo à minha disposição: um quarto confortável com vista para o oceano, restaurantes, pessoas da equipe com quem fiz amizade, um grupo enorme de turistas do mundo inteiro com quem posso conversar, e muita diversão!
Cultivar a capacidade de pensar soluções não convencionais pode abrir perspectivas muito interessantes para viver bem. “O que posso fazer de melhor para mim mesma, nessa etapa da vida”? – é a pergunta que norteia as pessoas que, como Liz, valorizam cada dia como um presente a ser aproveitado da melhor forma possível, em vez de se perderem no labirinto de queixas e na amargura da solidão.
O envelhecimento, como as demais fases da vida, é época de transformações e de continuidade do processo de desenvolvimento pessoal. Nunca é tarde para ousar aprender coisas novas ou para, simplesmente, mudar de rumo ao criar novas metas de vida.

Mães também crescem!

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Em uma webconversa com mães blogueiras, sobressaiu o tema da exigência de ser ótima mãe. Quando algo acontece diferente do esperado, surge o sentimento de culpa, a desvalorização, a sensação de ser incompetente.

Acontece que, junto com cada filho que nasce, também nascemos como mães e pais. A tecelagem do vínculo se faz na medida em que procuramos a sintonia com aquela criança, diferente de todas as outras. Atualmente, o acesso à informação é gigantesco, mas precisamos do filtro da nossa sensibilidade para selecionar o que faz sentido para aquele vínculo especial.

É sempre bom lembrar que as crianças não precisam de mães perfeitas: como dizia o psicanalista D.Winnicott, o filho precisa de uma mãe “suficientemente boa”. A cada momento, somos as mães que conseguimos ser. Estamos em um processo contínuo de aprendizagem, com erros e acertos. Temos forças e fragilidades, competências e incompetências. Momentos de dúvidas, irritação, insegurança, desespero também fazem parte da construção do vínculo amoroso. Precisamos acolher nossa humanidade.

A vida segue seu curso, apresentando dificuldades e desafios. Crescemos junto com os filhos e aprendemos com eles. Manejos que “deram certo” com um filho podem não ser adequados para o outro. É impossível criar todos os filhos “do mesmo jeito”: cada vínculo tem características próprias.

O desejo de fazer o melhor possível contribui para nosso desenvolvimento pessoal, mas o excesso de cobrança e de autocensura bloqueia a evolução do vínculo. A neurociência mostra que nosso cérebro é um órgão social, e que as conexões neuronais são feitas e refeitas em grande parte sob a influência dos relacionamentos significativos durante toda a nossa vida. O amor, a sensibilidade, a intuição e a sintonia vão guiando nossos passos pelas trilhas da vida, acompanhando nossos filhos e crescendo junto com eles.

Tags: relacionamento com o filho, neurociência, sentimento de culpa.