Arquivo mensal: outubro 2014

Liberdade de expressar o ódio?

Detalhe de cactos, que fotografei no Jardim Botânico (RJ)

Detalhe de cactos, que fotografei no Jardim Botânico (RJ)

A liberdade de expressar o que pensamos e sentimos é um direito assegurado, mas não é absoluto. No calor da emoção, muitos sentem dificuldade em enxergar a fronteira entre o que é liberdade de expressão e o respeito pela dignidade de quem é, pensa ou age diferente de nós. “O direito de um termina quando começa o direito do outro” é uma expressão popular que define a fronteira entre o discurso de ódio e a liberdade de expressão.

O discurso de ódio, com relação a adversários políticos, grupos de outras etnias e religiões ou com os desafetos de modo geral incita a violência, a hostilidade e a discriminação, com mensagens ofensivas que, com frequência, envolvem calúnia, injúria, difamação. Em meio ao clima de ataques pesados, acusações e “desconstrução” de candidatos adversários nas eleições de 2014 (que prejudicou a reflexão sobre os problemas do país e a apresentação de projetos para resolvê-los), o Ministério da Justiça lançou uma campanha pelas redes sociais: “Não confunda discurso de ódio com liberdade de expressão”.

Lembro-me do caso de uma diretora de escola que se surpreendeu com a confusão do conceito de liberdade de expressão por parte dos pais dos alunos que criaram uma comunidade “Eu odeio” (ainda na época do Orkut…) para atacá-la com mensagens desrespeitosas. “Se nossos filhos não gostam da senhora, eles podem se manifestar como quiserem”: como foi difícil convencê-los do contrário, foram processados por calúnia, injúria e difamação e tiveram de indenizá-la por danos morais.

Os ataques de cyberbullying revelam essa dificuldade de entender até onde pode ir a liberdade de expressão. Por isso, a conversa na família e na escola sobre esse tema é tão importante. Faz parte do processo de construir a inteligência emocional, que pressupõe a capacidade de expressar o que pensamos e sentimos sem ofender nem humilhar quem quer que seja. Liberdade de expressão não é incompatível com o respeito pelo outro.

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A prisão da mágoa

Uma obra de arte que fotografei em Inhotim(MG), que me fez pensar nos emaranhados de alguns relacionamentos...

Uma obra de arte que fotografei em Inhotim(MG), que me fez pensar nos emaranhados de alguns relacionamentos…

O que fazemos com o que fazem conosco?

Temos múltiplas escolhas de caminhos a seguir.

Em muitas ocasiões, nos sentimos decepcionados e magoados por amigos, filhos, parceiros amorosos, colegas de trabalho. E também decepcionamos e magoamos muitas pessoas no decorrer da vida. Até mesmo sem perceber ou sem ter intenções explícitas de ofender quem quer que seja.

Fred e Marisa frequentavam o mesmo grupo de amigos. Há quatro anos, ela foi demitida. Sem reserva financeira e com a família morando em outra cidade, Marisa pediu a Fred que a acolhesse em seu apartamento até que conseguisse um novo emprego. Apesar de gostar da liberdade de morar sozinho, ele aceitou o pedido da amiga, e se sentiu constrangido para combinar com ela algumas regras básicas de convivência.

Agradecida, Marisa colaborou com as tarefas da casa nas primeiras semanas. Depois, passou a se queixar de cansaço e desgaste pelas tentativas frustradas de se recolocar no mercado de trabalho, deixando a organização da casa por conta de Fred. Dez meses depois: nenhuma oferta de emprego a agradou, e Fred não aguentava mais aquela situação. No limite, disse que não poderia mais mantê-la como hóspede.

Furiosa, Marisa disse que ele era egoísta e mesquinho. Enraivecido, Fred rebateu dizendo que ela era ingrata e insensível. A amizade foi rompida, e ambos guardam mágoas desde então.

Como contribuímos para criar em conjunto uma situação potencialmente difícil? Pedimos aos amigos algo além do que eles podem oferecer? Temos dificuldade de dizer “não” a alguns pedidos, por medo de perder o relacionamento? Criamos altas expectativas e nos decepcionamos quando as pessoas não fazem o que esperávamos? Apresentamos uma imagem ideal de nós mesmos, escondendo a humanidade de nossos limites e imperfeições?

Há ocasiões em que nos aprisionamos na mágoa crônica e cultivamos amargura, ressentimento, desejo de vingança ou tristeza infinita. Isso nos intoxica e nos adoece. Se não foi possível evitar que o outro nos magoasse, convém lembrar que temos a liberdade de não deixar que essa dor ocupe tanto espaço em nosso coração. Podemos decidir não generalizar a decepção (“ ninguém merece minha confiança!”) e, com isso, evitar o risco de fechar muitos caminhos de vida. Os sentimentos se transformam e se encadeiam uns nos outros. Se o que alguém fez (ou deixou de fazer) nos trouxe sofrimento, cabe a nós não permitir que essa dor se eternize e nos condene à prisão perpétua da mágoa.

CRIANÇAS

Cactos que fotografei no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Cactos que fotografei no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Há caminhos de vida árduos, cheios de espinhos.

Isso não impede que brotem flores delicadas,

Fortes, persistentes, vão abrindo espaço.

Penso nas crianças refugiadas, em zonas de guerra,

Em que o cotidiano é marcado por violência, destruição,

Com famílias sofridas, ou até mesmo sozinhas,

Migram, entre a esperança e o desespero, buscando

Paz, abrigo, novas possibilidades.

As crianças continuam morando dentro dos adultos,

Curiosas, dão risadas, brincam, se encantam com o que descobrem,

Mesmo quando vivem em contextos desfavoráveis.

Há pessoas que crescem e soterram sua criança interior

E vivem na amargura, no desencanto, na queixa,

E se fecham para as descobertas, reprimem a ousadia,

Mergulham na descrença, mesmo quando vivem

Com fartos recursos materiais e oportunidades à sua frente.

Precisamos cuidar bem da criança que nos habita por toda a vida

E cuidar bem dos seres que estão chegando ao mundo

Para que todos possam celebrar a vida em sua plenitude.

Flores fortes e delicadas, apesar dos espinhos ao seu redor.

“Espero que a escola dê um jeito no meu filho!”

Califórnia 055

A diretora de uma escola na qual dei palestra me contou que muitos pais comentam que seu nome é frequentemente mencionado para mediar “à distância” os conflitos com os filhos: “Se não comer direito, vou contar para a diretora!”; “Se insistir em ir de chinelo para a escola, a diretora não vai deixar você entrar!”. Ao receber os alunos na porta da escola, tenta mostrar aos pais que não é possível para ela exercer essa função.

Há uma frase que muitas mães repetem há décadas: “Você vai ver o que vai acontecer quando seu pai chegar do trabalho!”. Reflete o desgaste de ordens ignoradas e de ameaças ineficazes. Outra frase comum: “Esse menino me leva à loucura!”. Revela o desespero e o sentimento de total impotência quando se esgotam todos os recursos para lidar com a teimosia, a resistência e o enfrentamento. As crianças conseguem ler rapidamente as entrelinhas dessas mensagens: “Mamãe não consegue me controlar, está desesperada. Posso continuar a fazer o que eu quero!”. Na disputa pelo poder, muitas crianças saem vencedoras (porém assustadas, sem contar com a contenção protetora). Os adultos ficam acuados, inseguros, perdidos. Principalmente quando não conseguem compartilhar de modo satisfatório a função parental para fazer face à enorme responsabilidade de educar um filho.

Não é fácil lidar com as crianças “conectadas”, com amplo acesso à informação: o vocabulário se expande rapidamente, os argumentos são elaborados desde cedo, o questionamento desarma, a insistência cansa. Para se sentirem bons pais, muitos deixam de colocar os limites necessários para ajudar a criança a construir o freio interno da autodisciplina e do respeito às normas e regulamentos da vida social e escolar.

“Já tentei de tudo, nada dá certo, ele só faz o que quer!”. Com esses pais, procuro examinar o circuito interativo para entender melhor o que acontece. O que está alimentando a insegurança dos pais? Estão falando uma coisa e fazendo outra? Os diferentes componentes da comunicação estão desencontrados, fazendo com que a palavra se enfraqueça? Há consequências que são aplicadas quando os “combinados” não são cumpridos? Ou também dentro de casa “tudo acaba em pizza”, como vemos acontecer com uma frequência assustadora no cenário nacional? A partir desse entendimento, surgem caminhos para ampliar recursos de manejo. Inclusive para construir uma parceria mais eficiente entre a família e a escola, que exercem funções complementares, para que crianças e adolescentes desabrochem plenamente.

Comunicação é palavra, expressão corporal e ação

Quando essas três coisas se integram

Mandamos mensagens coerentes

Mas quando se desencontram

É a palavra que perde o poder.