Arquivo mensal: dezembro 2014

Gratidão

A beleza impactante das pedras coloridas à beira-mar, que fotografei em Jericoacoara (CE).

A beleza impactante das pedras coloridas à beira-mar, que fotografei em Jericoacoara (CE).

Na correria dos dias cheios de compromissos e tarefas

É bom encontrar o tempo para parar e agradecer

Tudo que a Vida nos oferece!

Inclusive os problemas, que se transformam em oportunidades

Quando desistimos dos lamentos

E tentamos desenvolver recursos para superá-los

Buscando forças que estão dentro e acima de nós

E também ao nosso lado, os amigos com quem contamos

As pessoas da família, os companheiros de trabalho.

Que os momentos de virada, do ano ou de nós mesmos

Nos estimulem a ampliar nosso olhar de gratidão

Por nossos ancestrais, que nos colocaram nas trilhas da vida

Por experiências com as quais tanto aprendemos

Por nossos companheiros de viagem.

Que, apesar das dificuldades que encontramos pelo caminho,

Seja sempre possível contemplar a beleza do mundo e das pessoas,

Nutrir o amor e a sensibilidade

Para perceber a grandeza das pequenas coisas

E aproveitar o presente de cada momento.

Anúncios

Os “nem-nem” e os “cangurus”

Escrever sobre os "Cangurus" me remeteu à Austrália, onde fotografei essa bela formação rochosa à beira-mar.

Escrever sobre os “Cangurus” me remeteu à Austrália, onde fotografei essa bela formação rochosa à beira-mar.

A recente Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE revela que quase dez milhões de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos nem estudam nem trabalham. Boa parte nem procura emprego, por falta de qualificação. E eu acrescentaria mais um “nem”, na medida em que muitos sequer colaboram com as tarefas da casa: são os “nem-nem-nem-nem”.

Isso não acontece só no Brasil. Como mostra o relatório Tendências Mundiais de Emprego, da Organização Mundial do Trabalho (2014), o índice de desemprego juvenil continua aumentando e é mais do que o dobro da taxa geral. Uma parcela desses jovens conta com uma estrutura familiar que os acolhe, mas muitos acumulam fatores de risco para a criminalidade (sem vínculos familiares significativos, sem projeto de vida e sem perspectiva de futuro). Entre as jovens das classes sociais menos favorecidas, muitas que engravidaram na adolescência saíram da escola e não conseguem ou nem procuram trabalhar.

Escolas de baixa qualidade, insuficiência de cursos profissionalizantes, deficiência de infraestrutura (por exemplo, oferta de creches) para que as jovens mães conseguir completar seus estudos e trabalhar, famílias que pouco estimulam o desenvolvimento da responsabilidade e da participação nas tarefas da casa, baixa tolerância à frustração e pouco desenvolvimento do espírito empreendedor por parte dos próprios jovens são alguns dos fatores que contribuem para o aumento dos “nem-nem”.

Por outro lado, também cresce, em diversos países, o contingente da “geração canguru”, adultos entre 25 e 34 anos que não saem da casa (da “bolsa”) dos pais. Muitos lá permanecem para investir em formação profissional, com a esperança de alcançar melhor qualificação no mercado de trabalho. Há os que já ocupam cargos bem remunerados mas não querem perder as “mordomias” de um padrão de vida mais confortável que os pais concordam em continuar proporcionando, permitindo, inclusive que namoradas e namorados durmam juntos, desfrutando de uma vida de casal sem colaborar com as despesas e as tarefas domésticas, e sem assumir os compromissos necessários para se sustentar com recursos próprios.

Há algumas décadas, morar sozinho ou com amigos era visto como sinal de independência. Muitos jovens se sentiam orgulhosos de batalhar para conquistar essa autonomia, mesmo vivendo com menos conforto e muito aperto financeiro. Muitas mudanças nas relações familiares aconteceram desde então: um grande contingente de pais e jovens passaram a pensar que viver na mesma casa é apenas mais um tipo de arranjo familiar.

Os filhos crescem, os pais envelhecem!

Penso no ciclo vital quando observo o ciclo das estações. Fotografei esse anoitecer de inverno em Annecy, nos Alpes franceses,

Penso no ciclo vital quando observo o ciclo das estações. Fotografei esse anoitecer de inverno em Annecy, nos Alpes franceses.

No trabalho com um grupo de jovens adultos tratamos da importância da reciprocidade do cuidar, nessa fase do ciclo vital da família.

– Minha mãe está com 63 anos, e eu insisto para que ela faça exercícios físicos e se alimente bem.

– Eu moro com meu pai, que trabalha embarcado durante duas semanas e folga três. Quando ele chega, eu o deixo descansar e faço o que ele mais gosta de comer.

– Eu sinto que ele se preocupa por me deixar em casa sozinha, mas ao mesmo tempo, ele me vê como adulta, e conversamos de igual para igual.

Há pais que “congelam” seu olhar para os filhos, como se eles permanecessem crianças e há filhos que não se dão ao trabalho de batalhar por sua autonomia (inclusive financeira), criando a ilusão de que os pais são eternos. Porém, quando todos conseguem caminhar com serenidade pelo ciclo vital, conseguem aprofundar a relação de confiança, e sentir o acolhimento e a segurança de que podem contar uns com os outros, oferecendo apoio e cuidados recíprocos. O amor e o carinho se expressam por pequenos gestos e ações.

Por diversos motivos (inclusive econômicos), é comum que pais e filhos adultos morem juntos. Então, se a casa é de todos, todos precisam colaborar na partilha de tarefas e responsabilidades, para ninguém fique sobrecarregado. Desse modo, torna-se mais fácil cuidar bem de si mesmo e dos outros, percebendo as respectivas necessidades, para melhor enfrentar os desafios e as dificuldades que encontramos pelas trilhas da vida.

Quando pais e filhos adultos se norteiam pela pergunta “O que cada um de nós pode fazer de melhor para vivermos bem?” todos ganham em qualidade de vida e de relacionamento familiar.

Cultivando o “minhocário”

Pedras, aridez e grandiosidade que fotografei no Grand Canyon.

Pedras, aridez e grandiosidade que fotografei no Grand Canyon.

– Ela está chateada comigo. Disse que, em cinco anos de casados, eu nunca dei um presente caro. E o carinho, os passeios, e tantas outras coisas não contam? O que importa é mostrar para as amigas o que ganhou do maridão? – Pedro está perplexo com a insatisfação da esposa.

– E se meu filho resolver se separar, o que será das crianças? Aí não vou poder vê-las com tanta frequência. Isso será terrível!” – desabafa Sílvia, com lágrimas nos olhos.

É inevitável entrar no “minhocário” em alguns momentos da vida. Mas podemos nos esforçar para não permanecer nele por muito tempo, evitando cultivar “minhocas” de preocupação, frustração ou até mesmo de desalento e desespero, que conduzem à sensação de aridez e de vazio.

Para sair do “minhocário”, precisamos mergulhar em nosso interior com perguntas que nos ajudam a entender melhor o que está acontecendo conosco. Reconhecer nossa fragilidade, mas redirecionar o olhar para nossa força e competência para lidar com situações difíceis. Isso será útil para perceber com mais clareza os padrões de pensamento ou de crenças nos quais estamos nos aprisionando e que  ações nos conduzirão para a porta de saída.

Os padrões criados pela sociedade de consumo vinculam demonstrações de afeto ao preço dos presentes. Quando não conseguimos nos desvencilhar dessa crença, corremos o risco de não enxergar a qualidade do afeto pautado por outros parâmetros, criando insatisfação e amargura em relacionamentos que poderiam ser muito bem vividos.

O medo da perda e da solidão nos assombra em alguns momentos, quando constatamos que não podemos controlar a vida dos filhos adultos, livres para fazer as próprias escolhas. O sofrimento se intensifica com o “E se…”, que conduz às piores hipóteses que ocupam nossa mente e nos impedem de perceber que também nós somos livres para escolher novos caminhos, nas diferentes etapas da vida. Ficamos perdidos na sensação de total impotência, sem conseguir aproveitar o que está ao nosso alcance.

Quando o medo de sofrer perdas se intensifica é sinal de que nos perdemos de nós mesmos e precisamos nos achar. Podemos utilizar uma pergunta-bússola: O que de melhor podemos fazer por nós mesmos nas circunstâncias atuais?