Arquivo mensal: janeiro 2015

Mudanças inevitáveis

Uma bela cachoeira que fotografei em Pirenópolis (GO), antes da escassez de água.

Uma bela cachoeira que fotografei em Pirenópolis (GO), antes da escassez de água.

Quando surge uma crise – pessoal, familiar ou coletiva – precisamos criar recursos e acionar a criatividade para nos adaptarmos ao novo contexto. A pior escolha é negar a realidade, ignorando o problema e se recusando a tomar as providências necessárias.

“Sem água, somos todos miseráveis” é um dos alertas veiculados por uma organização de defesa do consumo consciente, diante da visível escassez de água nos reservatórios que abastecem inúmeras cidades. Que mudanças estão sendo adotadas por governos, instituições e indivíduos, com relação ao consumo de água e de energia, em vez de continuar acreditando que podemos desperdiçar esses recursos que pareciam inesgotáveis?

Dores, cansaço extremo e outros sintomas sinalizavam a necessidade de consultar um médico para diagnosticar um problema evidente de saúde. “Mas não posso parar, meu ritmo de trabalho é intenso” – justificava Ivete, 54 anos, até ser internada de emergência para se submeter a uma cirurgia cardíaca, que a impediu de trabalhar por algum tempo e a obrigou a cuidar melhor de si mesma.

Um gravíssimo acidente de moto deixou Marcelo, 24 anos, tetraplégico. Obras na casa para facilitar sua mobilidade foram pequenos detalhes no complexo processo de adaptação dele e de sua família à nova realidade. Mudanças inevitáveis na rotina diária e em metas de vida.

No decorrer da vida, nos deparamos com muitas situações que nos obrigam a mudar. Resiliência é a capacidade de fazer as mudanças necessárias quando enfrentamos adversidades e cenários desfavoráveis, mantendo nossa integridade e buscando forças para criar novos recursos. Precisamos cultivar essa competência, no âmbito pessoal, familiar e comunitário.

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Envelhecer é privilégio!

A solidez e a beleza de construções antigas, como essas que fotografei em Bruges (Bélgica).

A solidez e a beleza de construções antigas, como essas que fotografei em Bruges (Bélgica).

“Envelhecer é um horror!” é um comentário que ouço não só de pessoas com problemas de saúde, mas também de idosas que estão muito bem, mas não gostam de olhar no espelho o rosto enrugado ou o corpo que não se enquadra nos padrões estéticos convencionais, reflexo de uma sociedade que enaltece o corpo e o estilo de vida dos jovens e considera os idosos como feios e descartáveis.

A população de idosos está em crescimento acelerado. E, com os cuidados apropriados, um número crescente de pessoas está envelhecendo com saúde, disposição e desejo de produtividade. É o momento de superar preconceitos sociais e mudar o olhar coletivo sobre os idosos. Em vez de considerá-los como um fardo pesado, passar a vê-los como pessoas que acumularam experiências que podem ser muitos úteis para a troca de conhecimentos entre as gerações, abrindo novas frentes no mercado de trabalho e de empreendedorismo para os que querem se reinventar após a aposentadoria.

Descobertas recentes da neurociência mostram que envelhecer nem sempre é sinônimo de deterioração, como, infelizmente, acontece em quadros de demência e outras patologias cerebrais. Na etapa do envelhecimento, o cérebro mantém um certo grau de plasticidade para se organizar e mudar, não necessariamente para pior.

Exercícios físicos regulares, alimentação adequada, interesse em aprender coisas novas e o cuidado de manter relacionamentos afetivos de boa qualidade revitalizam os circuitos neurais em nosso cérebro e permitem que a “segunda idade adulta” (a vida depois dos 50 anos) seja muito bem aproveitada. Nesse sentido, envelhecer é um privilégio, que abre novos caminhos de vida.

Bem antes de chegar aos 50, é bom começar a se perguntar: “Quem eu quero ser quando envelhecer?”  Quando tratamos de buscar o melhor em nós mesmos, encontramos boas oportunidades em cada etapa da vida!

Transformando sentimentos

Os Dois Irmãos, que fotografei em Fernando de Noronha (PE)

Os Dois Irmãos, que fotografei em Fernando de Noronha (PE)

-Minha filha, com cinco anos, se ressente quando me vê envolvida com o bebê, de três meses. Está irritadiça, reclama de tudo, solicita minha atenção o tempo todo!

Em conversas com grupos de pais e na consultoria sobre recursos de comunicação, essa é uma questão que sempre surge. Nossos sentimentos se transformam e se encadeiam uns nos outros. O ciúme surge do medo da perda, da ameaça de ser destronado, rejeitado. A tristeza pode ser encontrada no fundo de muitos ataques de raiva.

Os sentimentos encadeados resultam em mudanças de comportamento e do clima do relacionamento. Mas, quando conseguimos explorar o terreno emocional, podemos ter conversas claras sobre os sentimentos, propiciando sua transformação e a construção de acordos de convívio que possam ser pelo menos razoavelmente satisfatórios.

– Você fica chateada quando me vê cuidando do bebê?

– Será que você está achando que eu não gosto mais de você?

Conversas afetuosas, que permitem a expressão clara dos sentimentos, condutas que mostram a permanência do amor, ações para estimular a interação entre a criança e o bebê são caminhos para transformar o ciúme em segurança, o que permitirá viver a alegria de ter um irmão e a rica aprendizagem desse convívio.

O ciúme pode nos atacar em qualquer idade, assim como a insegurança, a disputa pelo poder, o medo de ceder e ficar submisso ao outro. E, nesse emaranhado de sentimentos, nem sempre conseguimos perceber claramente o que acontece dentro de nós. E nem sempre conseguimos expressar o que sentimos. “Quando a boca cala, o corpo fala” é o ditado popular que sinaliza sentimentos represados, na raiz de muitos sintomas e doenças.

Conseguir ter boas conversas conosco mesmos permite entender melhor os acontecimentos que resultaram em mágoas, ciúmes, raiva, ressentimento e transformar tudo isso em compreensão, compaixão, assertividade. Com isso, conseguiremos caminhar com mais leveza pela vida.

Da intolerância à convivência

A diversidade de folhagens e folhas compondo um belo jardim, como esse que fotografei em Londres.

A diversidade de folhagens e folhas compondo um belo jardim, como esse que fotografei em Londres.

Da barbárie à civilização: na criança pequena, a regulação das emoções é precária. O desejo, a raiva e a impulsividade imperam. Pouco a pouco, a percepção dos outros estimula a aprendizagem das regras de convivência e do respeito. Porém, mesmo na idade adulta, com plena capacidade de raciocínio, em determinadas circunstâncias transbordamos de raiva. Dizemos ou fazemos coisas das quais posteriormente nos arrependemos. Mas nem sempre os atos violentos são feitos sob o domínio de fortes emoções. Muitos são minuciosamente planejados por aqueles cuja ideologia os motiva a eliminar quem discorda de suas crenças.

Na década de 1970, o neurocientista Paul McLean desenvolveu uma teoria sobre o desenvolvimento cerebral da espécie humana, concluindo que, na verdade, temos “três cérebros em um”.

De forma muito simplificada: o “cérebro reptiliano” regula as funções fisiológicas básicas, o “sistema límbico” é o “cérebro emocional” e o neocórtex responde pela cognição, raciocínio lógico, pensamento abstrato. Essas estruturas interagem continuamente não só entre elas mas também com os demais sistemas do nosso corpo. E, com o desenvolvimento da neurobiologia dos relacionamentos, descobrimos que nosso cérebro é continuamente modelado e remodelado, desde a gestação, pela qualidade de nossos relacionamentos e pela cultura na qual estamos inseridos.

Nas sociedades humanas coexistem diversas visões sobre o que seriam atos de barbárie ou comportamentos civilizados, dependendo da visão de mundo, crenças e peculiaridades culturais. Em nome de diferentes deuses, pessoas matam os que consideram hereges. Meninas e mulheres são impedidas de estudar e de trabalhar. Grupos, tribos e facções dentro do mesmo país entram em intermináveis disputas sangrentas pela ocupação de território e pelo poder. A intolerância e o desejo de exterminar os diferentes tomam a dianteira.

A transição da cultura da violência para a cultura da convivência é um processo longo e difícil. Construir um convívio respeitoso entre pessoas e populações de diferentes etnias, culturas, religiões e visões de mundo, reconhecer as semelhanças na diversidade do mosaico humano é um trabalho árduo, porém necessário, para que seja possível caminhar para um novo patamar evolutivo.

Renovação

Gosto de observar a interação entre os seres da teia da vida. Fotografei essa cenai em Rio Preto (MG)

Gosto de observar a interação entre os seres da teia da vida. Fotografei essa cena em Rio Preto (MG)

As células do nosso corpo se renovam em períodos diferentes, de acordo com a função que exercem, sem que a gente perceba! Mas é interessante pensar nisso conscientemente, quando mergulhamos em nós mesmos para ver o que precisamos renovar em nossas ideias e em nossa maneira de ser.

Um conjunto de fatores estimula nossa capacidade de fazer pequenos ou grandes ajustes em nossas ações: entre eles, as experiências pelas quais passamos, tudo aquilo que vivenciamos em nossos relacionamentos, o que acontece no mundo, no país, na cidade e no bairro em que vivemos. Por isso, é importante desenvolver flexibilidade e criatividade para efetuar as mudanças necessárias.

A cada dia, precisamos fazer pequenas ou grandes escolhas, que nem sempre serão as melhores, nem as mais acertadas. Individualmente, o que escolhemos modela em parte nosso futuro, influencia nossa saúde e até nossa longevidade. Coletivamente, o que escolhemos como sociedade também modela em parte o futuro de nossas cidades, o bem-estar (ou a insegurança) do cotidiano e outros parâmetros que influenciam a qualidade de vida de todos nós.

Embora algumas características nossas permaneçam estáveis no decorrer da vida, passamos por modificações em função de tudo que acontece em nossa trajetória. Em períodos de crise, tanto no âmbito individual como no coletivo, mudanças mais expressivas são inevitáveis.

Renovação, inovação, quebra de paradigmas, novos planos, rumos diferentes. Rever hábitos de consumo, definições de sucesso e de progresso, expandir a compaixão e a solidariedade, ampliar a capacidade de cuidar bem de nós mesmos e dos outros também, desenvolver a percepção de que todos nós fazemos parte da imensa teia da vida, e estamos ligados por uma profunda interdependência. Essa percepção aguçada nos ajudará a entender que cooperar é mais importante do que competir. É assim que os trilhões de células do nosso corpo agem. Quando estamos saudáveis, elas atuam harmoniosamente em suas respectivas funções. Os diversos sistemas interagem, se complementando e colaborando para que possamos caminhar pelas trilhas da vida da melhor forma possível.