Arquivo mensal: março 2015

No emaranhado da indecisão

Senti um profundo bem-estar seguindo o fluxo do rio em Bonito (MS), contemplando os peixes e a vegetação aquática.

Senti um profundo bem-estar seguindo o fluxo do rio em Bonito (MS), contemplando os peixes e a vegetação aquática.

No decorrer da vida, encaramos algumas encruzilhadas, em que nossas escolhas definirão o rumo que nossa vida tomará. Dar prosseguimento a um curso universitário que não está preenchendo as expectativas ou “seguir o coração” e trabalhar em outra área, que oferece menor rendimento financeiro porém maior realização pessoal? Permanecer agarrado a um casamento deteriorado para não sair da casa que construiu com tanto esforço?

A vida flui, como a água de um rio. Mas, muitas pessoas se paralisam na indecisão: vivem infelizes em casamentos destroçados, em um emprego que as adoecem, morando em uma cidade que detestam. A insatisfação e a angústia se expressam em incessantes lamentos e reclamações. Talvez passem o resto da vida aprisionadas na indecisão, dominadas pelo medo de que tudo ficará pior se ousarem escolher um novo rumo.

Relações extraconjugais podem oferecer uma ilusão de mobilidade, para atenuar a angústia da indecisão. “Minha amante está me pressionando para eu deixar minha mulher. Meu casamento realmente está péssimo, mas eu não consigo sair. Enquanto isso, tento administrar as duas”.

A indecisão é alimentada pelo medo da perda e pela insegurança. Cada escolha envolve renúncias. Viver “em cima do muro” cria a ilusão de que é possível usufruir de ambas as situações. Mesmo sem conseguir estar por inteiro em nenhuma.

Por outro lado, há pessoas que tomam decisões impulsivas e se jogam em situações novas sem ponderar cuidadosamente os prós e os contras dessa escolha. “Meu filho está começando o terceiro curso universitário. Ainda não conseguiu concluir nenhum: quando está perto do meio do caminho, diz que não é isso o que ele quer e passa para outro”. E o mesmo pode acontecer com o trabalho ou com as relações amorosas.

E há os que preferem criar todas as condições para que o outro decida romper o vínculo. Se o outro passa a ser o responsável pela decisão, fico protegido contra a dor do arrependimento: “Eu não me separaria nunca, mas ela resolveu me abandonar”. “Não sei por que fui novamente demitido”. Sem coragem de sair, acaba sendo mandado embora.

É complexo o equilíbrio entre a coragem e a cautela, entre a necessidade de correr riscos e a busca de estabilidade, entre a ousadia de inovar e a necessidade de consolidar o que já foi conquistado.

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Vamos nos livrar da sobrecarga?

Trilhas para montanhas, como essa que fotografei em Rio Preto (MG), oferecem uma visão maior e me motivam a parar para pensar no que estou fazendo da minha vida.

Trilhas para montanhas, como essa que fotografei em Rio Preto (MG), oferecem uma visão maior e me motivam a parar para pensar no que estou fazendo da minha vida.

Se a sobrecarga está terrível, o que podemos deixar de fazer? Estamos centralizando demais, achando que os outros não farão o mesmo com boa qualidade? Continuamos fazendo pelos filhos o que eles já poderiam fazer por eles mesmos? Estamos nos exigindo de forma cruel, nos condenando ao estresse crônico?

Há muitas perguntas que estimulam a reflexão sobre o problema e a busca de saídas. É comum tocar a vida no giro rápido sem parar para pensar se tudo que estamos fazendo faz real sentido ou se estamos movidos ao “tenho que” (providenciar o café da manhã para meus filhos adultos, tentar acompanhar o máximo de postagens nas redes sociais, estar sempre disponível para tomar conta dos netos, ganhar mais dinheiro para conseguir comprar mais coisas). Será que o volume do “tenho que” é muito maior do que o do “o que eu realmente quero”?

Há quem ache útil pensar na própria morte para questionar a sobrecarga. “O que as pessoas (da família, do trabalho) vão fazer sem a minha participação”? Pode ser duro pensar que o mundo e as pessoas seguirão seus rumos depois da nossa partida. Mas, por outro lado, essa é uma reflexão libertadora. Se tudo o que eu faço não é realmente indispensável, isso significa que não sou insubstituível. Portanto, boa parte do acúmulo de tarefas e funções poderá ser descartada!

Em uma palestra sobre a busca do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, uma participante comentou que passou a viver melhor quando decretou “o dia do nada” (“hoje não faço comida, não arrumo a casa, não cuido da roupa”) para que o marido e os filhos dessem mais valor ao que ela faz em casa, além dos compromissos profissionais.

A ilusão de que com computadores e eletrodomésticos mais eficientes teríamos mais tempo livre para o lazer se desfez há tempos. A mobilidade urbana prejudicada, a redução de postos de trabalho redundando em maior sobrecarga para os funcionários que mantiveram seus empregos, e outros fatores dos cenários econômicos e culturais em que vivemos também precisam ser incluídos nas perguntas reflexivas que poderão nos conduzir a mudanças significativas em nossas vidas.

Prender ou soltar?

Quem vive mergulhado nas redes sociais não encontra tempo para apreciar as belas paisagens, como essa que fotografei no Saco da Mamanguá (RJ).

Quem vive mergulhado nas redes sociais não encontra tempo para apreciar as belas paisagens, como essa que fotografei no Saco da Mamanguá (RJ).

É o dilema de muitos pais de adolescentes. Falam da preocupação com os perigos do mundo, e da sensação de impotência por ser praticamente impossível acompanhar a vida dos filhos nas inúmeras redes sociais. Ficam boquiabertos quando descobrem conversas, fotos ou vídeos que revelam cenas ousadas de sexo das filhas que mal entraram na adolescência. Temem permitir a ida a uma festa sobre a qual não há muitas informações além do argumento “todas as minhas amigas vão” e nunca mais conseguirem dizer “não” a outras demandas semelhantes.

“Eu te odeio, quero que você morra!” – É a reação intempestiva diante de um desejo negado. Depois que a raiva acalmar, chegará a hora de conversar. Lembrar que os pais são amorosa e legalmente responsáveis pelo filho, que ainda está em processo de desenvolver autoproteção e percepção de riscos. Mostrar que entendem que, nessa época, o desejo e a impulsividade são muito mais intensos que o raciocínio e a cautela. E que, por isso, perder uma festa “cheia de gente bonita” é uma tragédia de grandes proporções.

No entanto, se ainda precisam que os pais os mandem estudar, arrumar o quarto e realizar outras tarefas de colaboração na casa, como podem mostrar que são realmente capazes de cuidarem bem de si mesmos? Liberdade e responsabilidade precisam andar juntas!

O quanto proteger e o quanto estimular a autonomia é uma dinâmica que acompanha todo o desenvolvimento: soltar a mão mesmo que a criancinha não se sustente totalmente para andar; deixar a criança entrar no elevador sem a companhia de um adulto, passar um fim de semana na casa de amigos, locomover-se pela cidade usando o transporte público.

Muitos pais se sentem inseguros na transição entre uma etapa e outra. Temem ser superprotetores ou, por outro lado, dar liberdade antes do tempo apropriado. Quando buscam parâmetros observando outras famílias, ficam confusos ao verem que muitos pais deixam os filhos adolescentes completamente soltos no mundo, enquanto outros monitoram cada passo pelo celular.

Conversas, “combinados”, escutar atentamente o ponto de vista dos filhos e a observação de que cada criança e adolescente progride no processo de autocuidado com ritmo próprio são caminhos eficazes para colocar limites protetores e acompanhar o desenvolvimento da autonomia.

Somos uma pizza de vários sabores!

A interação entre água, areia, sol e vento formam paisagens mutantes, como essa que fotografei nos Lençóis Maranhenses.

A interação entre água, areia, sol e vento formam paisagens mutantes, como essa que fotografei nos Lençóis Maranhenses.

“Você é burro”! – é um comentário muito comum nas brigas entre colegas de turma. Entre irmãos também. É a oportunidade de refletir, no ambiente da casa e da escola, sobre o fato de que todos nós somos competentes para algumas coisas e incompetentes para várias outras.

“Sou tímido”! – é um rótulo que muitas pessoas colocam em si mesmas. “Em que situações você não é tímido”? Esta é uma pergunta que nos faz pensar sobre polaridades. Ninguém é tímido, extrovertido, impaciente, bondoso, solidário ou egoísta o tempo todo. O fato de que algumas características se sobressaem em cada um de nós não exclui a possibilidade de, em determinadas circunstâncias, manifestarmos o outro extremo da polaridade.

Quem se fecha em definições muito rígidas de si mesmo e dos outros não consegue perceber os matizes da humanidade de todos nós. Vê e critica defeitos nos outros que não consegue enxergar em si mesmo. Ou, quando a autoestima está baixa, enaltece seus ídolos e deixa de enxergar as próprias competências.

“Eu sou eu e minhas circunstâncias” é uma conhecida frase do filósofo José Ortega Y Gasset. Na visão sistêmica, sabemos que nosso comportamento sofre variações de acordo com o contexto no qual estamos inseridos em um determinado momento. “Quando a mãe do amiguinho do meu filho disse que lá ele comeu de tudo e até ajudou a lavar a louça nem acreditei! Aqui em casa ele só come arroz, feijão e carne moída, e não colabora com coisa alguma, nem quando eu peço”! – Esse é um comentário comum, que mostra diferentes facetas de nós mesmos, de acordo com o cenário. “Em casa, é limão azedo, sempre reclamando e criticando tudo e todos, no trabalho é adorado pelos colegas, solícito e bem-humorado”. É outro comentário comum que mostra o quanto somos uma “pizza de vários sabores”!

“Eu sou assim” é uma afirmação que não reflete a realidade de que temos polaridades. Essa frase costuma ser dita por quem não está interessado em mudar, quer apenas que os outros o aturem do jeito que ele acha que é. Mas a percepção de nossos diferentes “sabores” nos permite trabalhar intencionalmente as características que mais queremos desenvolver em nós mesmos. E isso pode acontecer em qualquer época da vida.