Arquivo mensal: maio 2015

“Não estou disponível”!

Quando fotografei esses cactos no Jardim Botânico (RJ), lembrei de pessoas se espetando em brigas incessantes.

Quando fotografei esses cactos no Jardim Botânico (RJ), lembrei de pessoas se espetando em brigas incessantes.

– Você pode me escutar? Hein?! Cara, eu quero que você me escute! Não estou afim de ir pra sua casa hoje à noite! Você acha que eu tenho que ficar disponível sempre que você quiser? Tô fora!

A moça, de uns vinte anos, estava sentada ao meu lado, no ônibus para Copacabana. Não consegui escutar o que ele dizia, mas ela estava irritada, reafirmando várias vezes que não estava disposta a ceder.

Como terapeuta de casal e de família, presenciei inúmeras vezes esse jogo de poder. Desejos divergentes gerando posições inflexíveis pelo medo de perder a batalha. Reclamações, queixas e acusações ocupando o espaço dos acordos possíveis. Com a repetição incessante de seus próprios argumentos, nenhum deles escuta o que o outro realmente tem a dizer.

Os conflitos surgem a partir das diferenças de necessidades, desejos, pontos de vista. Cada um de nós desenvolve diversas estratégias para resolver conflitos. Há quem prefira ceder aos desejos dos outros para evitar brigas. No entanto, o uso excessivo dessa estratégia acaba acumulando mágoa e ressentimento que podem minar a relação e cultivar uma crescente insatisfação. O dominador aparentemente ganha as batalhas impondo seus desejos e opiniões. Mas pode ter dificuldade de entender o progressivo distanciamento do outro, o esfriamento da relação pela insatisfação que se acumula. Alguns se surpreendem quando o outro, cansado e frustrado por tanto ceder, explode e vai embora de repente.

Saltei do ônibus pensando no que aconteceria com eles naquela noite. O desejo de ficarem juntos seria mais forte do que o jogo de poder? Conseguiriam chegar a uma solução razoável para ambos? Ou o impasse se arrastaria ainda mais, azedando o clima da relação?

Quando ambos estão dispostos a encontrar a melhor forma de cuidar bem do relacionamento é possível sair da rigidez das respectivas posições e captar com sensibilidade as necessidades subjacentes. “Tem que ser do jeito que eu quero” passa a ser menos importante do que buscar “o que cada um de nós pode fazer para que a gente fique bem juntos”.

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“Preciso gastar energia”!

Contemplar a beleza da natureza, ou de um jardim japonês como esse que fotografei em San Francisco, é um ótimo recurso para descarregar tensões.

Contemplar a beleza da natureza, ou de um jardim japonês como esse que fotografei em San Francisco, é um ótimo recurso para descarregar tensões.

“Meu filho de nove anos chega da escola implicando com todo mundo.E aí é uma brigalhada infernal entre os irmãos, e a gente acaba interferindo. Ele diz que faz isso porque precisa “gastar energia”!

Todos nós precisamos descarregar tensões, especialmente depois de um dia cansativo na escola, no trabalho ou nas horas passadas no trânsito engarrafado de grande parte das cidades. É comum que esse acúmulo de tensão aumente a irritabilidade, que se expressa por brigas e provocações. Mas é importante pensar: De que outras formas podemos “gastar energia” e descarregar tensões?

Quando conseguimos criar canais de descarga de tensão que nos alegram e não agridem os outros, vivemos melhor conosco mesmos e com as pessoas com as quais nos relacionamos. Essa é uma busca pessoal, uma vez que atividades que descontraem uns irritam ou entediam outros como, por exemplo, cozinhar, lavar a louça, fazer caminhadas, corrida ou ginástica, dançar, ler, ver televisão, jogar videogames, desenhar, fazer tricô ou, simplesmente, se deitar e ficar olhando para o teto.

Meditar é um excelente recurso antiestresse, que também é útil para “recarregar as baterias” e melhorar a concentração, para quem tem paciência e persistência de praticar diariamente. Tempo para contemplar a beleza da natureza pode trazer grandes benefícios para quem consegue se sentir integrado com o mar, as matas, as cachoeiras, embora haja aqueles que se chateiam profundamente porque, nesses lugares, “não há nada para fazer”.

Outra pergunta importante: Quais as fontes de tensão que podem ser eliminadas? O que pode deixar de ser feito? Pais que trabalham fora em horário integral tendem a colocar as crianças em tantas atividades extra-escolares que não sobra tempo livre para brincar, correr, pular e fazer a bagunça própria da idade. Com isso, ficam agitadas e irritadiças.

Muitos adultos se impõem um acúmulo de tarefas e obrigações, a ponto de não terem tempo livre para relaxar. Ficam ansiosos e impacientes. Por isso, é importante fazer revisões periódicas sobre como estamos vivendo no nosso dia a dia e criar coragem para fazer as mudanças necessárias para melhorar a qualidade de vida. Para alguns, essa revisão incluiu a decisão de pedir demissão de um emprego bem remunerado porém estressante demais e transformar um “hobby” prazeroso em fonte de renda; outros decidem mudar de uma cidade grande para um lugar mais tranquilo e com menor custo de vida, que possibilite um bom equilíbrio entre o trabalho e a vida em família.

“Não quero que minha filha sofra”!

Há trilhas em nossa vida que são difíceis e desafiadoras, como essa que fotografei na Suíça.

Há trilhas em nossa vida que são difíceis e desafiadoras, como essa que fotografei na Suíça.

“Eu me separei há um ano e, no fim de semana passado, minha filha foi para a casa do pai, que apresentou a namorada. Ela voltou chateada, e quis dormir na minha cama. Será que eu deveria falar com ele para evitar o contato da menina com essa namorada? Não quero que minha filha sofra”!

Proteger os filhos de todo e qualquer sofrimento é missão impossível. E desnecessária. Tristeza, frustração e decepção fazem parte da vida desde os primeiros anos de vida. Tiramos da mão da criancinha um copo de vidro que ela pegou antes que pudéssemos evitar, e ela chora desconsolada com essa frustração. A melhor amiga escolhe outra criança para ser a “melhor amiga”: essa rejeição provoca grande sofrimento. Ela se apaixonou por um garoto, mas descobre que está interessado por outra: essa decepção provoca uma tristeza profunda.

Estimular crianças e adolescentes a criar recursos para atravessar o sofrimento e se fortalecer com ele é instrumento básico de sobrevivência em um mundo cada vez mais instável, incerto e imprevisível. Escutar com sensibilidade a expressão da tristeza, da desilusão e da frustração transmite acolhimento e segurança. Em seguida, é o momento de vislumbrar outros caminhos para se adaptar às mudanças inevitáveis e aproveitar o que há de melhor em cada circunstância.

A transição para outro tipo de composição familiar envolve sofrimento, mas é possível estruturar dois lares harmônicos. Nesses lares, os filhos se sentem bem cuidados por pai e mãe que deixaram de compor um casal. É claro que há áreas de risco na separação, quando os sentimentos de mágoa e decepção se transformam em ódio e desejo de vingança, intensificando os ataques recíprocos entre os ex-cônjuges. Isso coloca crianças e adolescentes no meio da linha de fogo e gera um sofrimento que poderia ser evitado se os adultos colocassem em primeiro plano a responsabilidade compartilhada de criar os filhos da melhor forma possível.

Há circunstâncias mais dramáticas de sofrimento intenso pelas quais milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo estão passando em zonas de guerra, em migrações decorrentes de desastres climáticos, em campos de refugiados, em comunidades nas quais predomina a linguagem da violência e da barbárie. Muitos ficam profundamente traumatizados com esses sofrimentos devastadores. Outros conseguem desenvolver resiliência – a capacidade de criar recursos para enfrentar adversidades – e encontram saídas para situações desesperadoras. E há os que, criando força para a superação, desenvolvem a solidariedade e ajudam outras pessoas em situações semelhantes a criar recursos para enfrentar o sofrimento e construir a melhor vida possível.

“Eu tenho vontade própria”!

A “vontade própria” de fazer uma obra de arte como essa que fotografei em Inhotim (MG) exige renunciar  à “vontade própria” de fazer muitas outras coisas.

A “vontade própria” de fazer uma obra de arte como essa que fotografei em Inhotim (MG) exige renunciar à “vontade própria” de fazer muitas outras coisas.

Por que tenho que respeitar pai e mãe? Sou igual a vocês! Por que tenho que obedecer? Vocês também não me respeitam! Eu tenho vontade própria! – Eduardo, oito anos, encara a mãe que, pela terceira vez, diz que ele tem de interromper o jogo para estudar Matemática.

Com firmeza e serenidade, os pais precisam transmitir a noção de hierarquia: os direitos entre pais e filhos não são iguais porque os pais assumem uma carga maior de deveres e compromissos, inclusive o de cuidar, orientar e proteger os filhos.

Entender que a raiva surge da inevitável frustração de alguns desejos e esclarecer conceitos é um processo trabalhoso. Respeitar os filhos não significa deixá-los fazer o que querem na hora em que bem entendem. Nossa “vontade própria” não pode ser seguida o tempo todo nem na infância nem na idade adulta…

Renunciamos à “vontade própria” quando temos de continuar assistindo a uma aula desinteressante em vez de sair correndo para o pátio do recreio, quando precisamos cumprir o horário de trabalho em vez de ir para casa descansar, quando vemos que precisamos fazer compras no mercado em vez de ir ao cinema. Em milhares de outros momentos no decorrer da vida, não conseguimos fazer o que nossa “vontade própria” determina! Gerenciar o tempo, colocar prioridades, adiar a gratificação, escolher o que realmente importa, aprender a diferença entre desejo e necessidade: essa habilidade pode ser desenvolvida desde cedo.

“Eu sempre digo para meu neto: em vez de ficar enrolando com a hora do estudo, e brigando com sua mãe, faça isso logo por conta própria! Vai sobrar mais tempo para brincar”! – a perspectiva de Eunice, como avó, ajuda a contemporizar o conflito entre mãe e filho em torno da dificuldade de organizar o tempo para dar mais espaço para a “vontade própria” se manifestar.

“Não quero passar insegurança para minha filha”!

Em caminhos escorregadios, como esse que fotografei em Ibitipoca (MG), a “insegurança benéfica” me estimula a ser mais cautelosa com meus passos.

Em caminhos escorregadios, como esse que fotografei em Ibitipoca (MG), a “insegurança benéfica” me estimula a ser mais cautelosa com meus passos.

Um pai veio conversar comigo após uma palestra. Disse: “Sou muito inseguro, tenho medo de desagradar os outros, sinto dificuldades em tomar decisões. Não gostaria de passar isso para minha filha, que está com sete anos”.

A primeira coisa que eu disse a esse pai é que ninguém é 100% seguro nem 100% inseguro. A insegurança aumenta quando criamos expectativas impossíveis de serem realizadas: ninguém consegue agradar a todo mundo sempre. Outra coisa: não “passamos” insegurança para os filhos. Cada um deles desenvolve um modo de ser e de perceber os acontecimentos. Podem crescer se sentindo predominantemente seguros, embora percebam nossas inseguranças.

Além disso, há a “insegurança benéfica”, que nos motiva a avaliar com o devido cuidado os prós e os contras de decisões importantes, em vez de rapidamente escolhermos uma alternativa que nem sempre será a melhor. A “insegurança benéfica” também estimula nossa dedicação para, por exemplo, estudar mais para fazer uma prova importante, em vez de acreditar, sem base na realidade, que vamos conseguir ótimos resultados.

A falsa segurança, que costuma vir junto com a arrogância, é má conselheira. Quem pensa que já sabe tudo não percebe o quanto precisa aprender. E, por isso, se prepara de modo insuficiente para as provas da vida.

Quando adotamos a postura de aprendizes permanentes, conseguimos encarar a insegurança como parte do processo de transição entre as diversas etapas da vida. O primeiro namoro, o início da vida profissional, a chegada do primeiro filho são alguns dos muitos exemplos de transição existencial, em que novos caminhos de desconhecimento se abrem e a insegurança se apresenta. Em vez de lutar contra ela, podemos considerá-la como aliada, que nos estimulará a aprender os primeiros passos nas novas trilhas.

A vivência fundamental da insegurança é o próprio ato de nascer. Em que mundo estamos desembarcando? O que nos aguarda nessa jornada? Por isso é tão importante gestar com a consciência de que estamos “tecendo” uma pessoa e receber o recém-nascido com amor, acolhimento, aconchego e bons cuidados. Acompanhar o desenvolvimento da criança ajudando-a a construir uma boa auto-estima, apreciando suas conquistas e mostrando que o erro é importante para a aprendizagem. Isso contribuirá para que ela cresça se sentindo segura para encarar os desafios da vida, fazendo aliança com a “insegurança benéfica” para procurar se aprimorar cada vez mais.