Arquivo mensal: julho 2015

Palavras ao vento

Palavras ao vento torcem e distorcem a comunicação (fotografei essa árvore em Jericoacoara, CE).

Palavras ao vento torcem e distorcem a comunicação (fotografei essa árvore em Jericoacoara, CE).

“Estou há quatro meses me relacionando com um rapaz pela internet e até hoje não conseguimos nos conhecer pessoalmente. Ele jura que eu sou especial para ele, mas sempre que combinamos um encontro acontece um imprevisto de última hora e ele desmarca. Será que ele está me enrolando”?

A capacidade de se iludir é impressionante! O que será que alimenta a esperança dessa moça que me revelou sua inquietação? Belas palavras que não se casam com ações são apenas perfume de sedução que nos envolvem em promessas vazias. Presa entre o desejo esperançoso e a frustração, agarra-se às palavras e deixa de dar o peso devido ao que o comportamento evasivo do rapaz está realmente comunicando.

Essa trama não acontece apenas nos relacionamentos amorosos. Nas relações familiares são comuns os episódios de palavras descasadas da ação. O pai de um menino de nove anos desabafa: “Minha palavra não vale mais nada”! Pedi que me desse um exemplo, e ele revelou que fala assim com o filho:

“Se você não fizer os deveres da escola não vai brincar com seus amigos” – mas a ameaça não se cumpre. O filho continua fazendo o que bem entende, e ele se queixa que os limites que coloca não funcionam.

Há três elementos básicos na comunicação: palavras, expressões corporais e ações. Quando estão integrados, enviamos mensagens coerentes mas, quando se desencontram, é a palavra que perde o poder. E quando a palavra cai em descrédito, torna-se muito difícil educar.

– Mamãe fala, fala, fala mas não faz nada! – as crianças são observadoras atentas e rapidamente concluem que não é necessário cumprir o que foi combinado.

– Eles me irritam, e aí eu perco a paciência e digo que eles vão ficar de castigo. Mas assim que a raiva passa, esqueço o que tinha dito.

Os filhos não esquecem e concluem que as palavras não precisam ser levadas a sério. Quando os “combinados” não são cumpridos, as consequências cabíveis precisarão acontecer.

Na relação entre pais e filhos, não é fácil construir autodisciplina e formar hábitos que resultem na capacidade de cuidar bem de si próprio e ser responsável. Nos relacionamentos amorosos, nem sempre é fácil valorizar os sinais não verbais que revelam as verdadeiras intenções que as palavras sedutoras tentam encobrir.

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“Acho todo mundo chato”!

Quem só consegue ver e se queixar dos espinhos não percebe a beleza do conjunto (fotografei no cactário do Jardim Botânico, RJ)

Quem só consegue ver e se queixar dos espinhos não percebe a beleza do conjunto (fotografei no cactário do Jardim Botânico, RJ)

Reclamações contínuas nos colocam no atoleiro do desânimo e paralisam ações que poderiam resultar em boas saídas para as situações das quais nos queixamos. A decisão de concretizar ações que promovam as mudanças que desejamos desenvolve nosso poder pessoal.

As perguntas reflexivas são ferramentas úteis para estimular isso:

– A Maíra não deixa eu brincar com as outras meninas!

– O que você pode fazer para que isso pare de acontecer e você possa brincar com quem quiser?

A pergunta reflexiva remove o foco da queixa e estimula a criação de recursos de mudança.

– Meus colegas não aceitaram minhas ideias de brincadeiras! Aí eu fui embora chateado…

– E você aceita as ideias deles?

Esse tipo de pergunta reflexiva focaliza a percepção do circuito interativo: o que fazemos influencia o que os outros fazem e vice-versa.

– Todos os meus colegas são chatos!

– Mas é com eles que você convive na escola. Que tal aprender a transformar pessoas chatas em interessantes?

Ninguém é 100% chato nem 100% interessante. Quando colocamos rótulos nas pessoas, limitamos nossa visão. Ressaltamos algumas características e nos cegamos para as demais. Isso também acontece com o olhar preconceituoso e discriminatório.

Quando mudamos a maneira de olhar, mudamos a maneira de sentir e de agir. Ampliar o olhar sobre pessoas ou situações é um exercício que podemos praticar no decorrer da vida. Isso enriquecerá nossos recursos de ação para tomar iniciativas de mudança.

O poder da mudança do olhar é imenso. Em todas as idades. Podemos aprender a fazer perguntas reflexivas para nós mesmos, para descobrir caminhos melhores nas trilhas da vida.

Iguais, mas diferentes!

Legenda: A diversidade de flores e plantas compõe belos jardins, como esse que fotografei em Londres.

A diversidade de flores e plantas compõe belos jardins, como esse que fotografei em Londres.

O tema da conversa com um grupo de amigos foi sobre a dificuldade de conviver com as diferenças. “As células do nosso corpo nos dão uma bela aula de convivência com a diversidade” – comentou uma das participantes. Há diferenças entre os neurónios e as células do coração ou do fígado. Há semelhanças também, é claro. Mas entre as células que compõem os diversos órgãos de um corpo saudável há cooperação e complementação de funções.

Imagino professores dando aulas sobre o funcionamento do corpo saudável incluindo o tema da cooperação e do convívio harmônico com as diferenças. As crianças olhariam cada ser humano como uma célula do corpo da Humanidade. Se conseguíssemos nos relacionar uns com os outros com o predomínio da cooperação e do convívio respeitoso, poderíamos chegar ao patamar da fraternidade universal. Estamos muito longe disso…

“Somos iguais mesmo sendo diferentes” é o título de um dos livros que Marcos Ribeiro escreveu prioritariamente para crianças, embora os adultos também encontrem um bom campo de reflexão nessa leitura. Preconceitos e discriminação revelam a dificuldade de encontrar semelhanças nas diferenças (de etnia, religião, orientação sexual, entre outras). Formam as raízes de condutas hostis e de exclusão dos “diferentes”, inibindo o desenvolvimento da empatia e da compaixão, alimentando ações de bullying e cyberbullying nas escolas e motivando agressões violentas nas ruas e no ambiente de trabalho.

“É difícil conviver com as diferenças dentro da nossa própria família! Temos um neto que veio morar conosco e vemos como ele pensa e age de modo tão diferente de nós” – comentou outra participante. No entanto, diferença nem sempre significa incompatibilidade. Mostrar interesse em entender mais a fundo a visão de mundo do outro enriquece nossa própria visão, quando não nos fechamos rigidamente em nossas próprias “certezas”.

A expansão vertiginosa da internet propicia o contato com a diversidade de culturas do planeta. Pode ser uma grande oportunidade de encontro e de aprendizagem de convívio mas, por outro lado, também dissemina as redes de ódio e de intolerância. O filósofo britânico John N. Gray, ao ser perguntado sobre o projeto de viver juntos que essa interconexão poderia propiciar, manifesta seu pessimismo quanto a essa possibilidade, argumentando que há poderosos movimentos políticos e religiosos que não estão interessados nesse convívio pacífico com diversas crenças e culturas, gerando, inclusive, atos terroristas.

Por outro lado, há milhares de organizações ao redor do mundo interessadas em construir a paz e resolver conflitos (que surgem das diferenças) de modos não-violentos. Acampamentos de férias que reúnem grupos de adolescentes de diferentes culturas para que aprendam uns com os outros. Grupos de mães israelenses e palestinas, unidas pela dor de ter perdido seus filhos, que decidiram atuar como construtoras da paz, com a esperança de romper o ódio recíproco que atravessa gerações.

Os caminhos úteis para a solução de conflitos tratam, essencialmente, de encontrar a área em comum nas divergências por meio da escuta respeitosa do ponto de vista de cada uma das partes.

Humilhar para estimular?!

Quantos erros foram necessários para chegar ao resultado final dessa obra? (Fotografei no Metropolitan Museum, Nova Iorque).

Quantos erros foram necessários para chegar ao resultado final dessa obra? (Fotografei no Metropolitan Museum, Nova Iorque).

Uma leitora me escreveu perguntando minha opinião sobre seu desejo de desistir de um curso de dança porque a professora grita com as alunas quando algo sai errado, criticando acidamente e humilhando publicamente quem não consegue reproduzir corretamente os passos que ensina.

Já ouvi relatos de alguns pais e professores que acreditam que humilhar e depreciar estimula crianças e adolescentes a criar “vergonha na cara” para melhorar o desempenho. Não acredito nesse método. Há modos mais eficientes de motivar a aprendizagem e o interesse em desenvolver competências e habilidades. A crítica depreciativa fere a autoestima, magoa e enraivece.

Para dançar, tocar um instrumento musical, falar um idioma, resolver problemas de matemática, interpretar um texto, andar de bicicleta e aprimorar muitas outras coisas é preciso ter paciência e persistência para enfrentar as dificuldades que surgem no caminho da aprendizagem. Valorizar os pequenos progressos e mapear a rota da etapa seguinte a ser conquistada estimula a autoconfiança e desperta o entusiasmo para continuar caminhando.

A chamada “crítica construtiva” é a avaliação necessária do desempenho atual, ressaltando a necessidade de maior dedicação ou capricho nos detalhes: “Acho que você é capaz de fazer isso melhor. Tente de novo”. “Este problema é difícil de resolver, e sua resposta não está correta. Creio que se você ler novamente o enunciado com mais atenção, conseguirá encontrar a solução”.

Mesmo com os mais resistentes, que “empacam” nos mesmos erros, as mensagens humilhantes não são eficientes. Servem apenas para descarregar nossa própria irritação. “Você não tem jeito, é cabeça-dura mesmo. Não vai dar pra nada na vida”! – deprecia a pessoa como um todo. “Você repetiu o mesmo erro. Tente descobrir um modo de sair desse lugar” – fala sobre a dificuldade e encoraja a criar novos recursos.

É muito estimulante transmitir a noção de que o erro faz parte do processo da aprendizagem. Quem humilha e deprecia os que cometem erros esquece que isso acontece inevitavelmente com todos nós. Errar não é errado! Quando o erro é visto como aliado da aprendizagem, ele clareia o caminho a ser trilhado e se transforma em acerto. E isso nos dá mais força para superar as dificuldades.