Arquivo mensal: agosto 2015

Ilusão de onipotência

Sem a ilusão de onipotência, descobrimos o verdadeiro poder para desabrochar potencialidades. (Fotografei na Finlândia).

Sem a ilusão de onipotência, descobrimos o verdadeiro poder para desabrochar potencialidades. (Fotografei na Finlândia).

”Fiquei cinco anos com uma pessoa difícil de conviver. Acreditei que, com amor e paciência eu conseguiria modificá-la. Fiz de tudo, me esforcei até não aguentar mais e perder a esperança. Fiquei triste nos primeiros meses após a separação, mas depois senti um grande alívio. Saiu um peso dos meus ombros quando eu percebi que não tenho tanto poder quanto eu imaginava”.

É libertador perder a ilusão de onipotência e perceber nossas limitações e reais possibilidades. Só conseguimos contribuir para a mudança de outra pessoa quando ela aceita nossa colaboração e cria coragem para romper com antigos padrões. Isso acontece até mesmo na psicoterapia. Quem diz que quer mudar mas, na realidade, só quer mais do mesmo não faz progressos significativos, mesmo quando está com um terapeuta experiente e competente.

Fazer mudanças significativas em nós mesmos dá trabalho, requer coragem e muita disposição. Quando superamos o medo de mudar e renunciamos à esperança de que nossa vida vai melhorar quando os outros mudarem, criamos condições propícias para o desenvolvimento pessoal. Em solo fértil, as sementes germinam.

É comum nutrir a ilusão de onipotência nos relacionamentos amorosos. “Eu pensei que, com carinho, eu poderia convencê-lo a parar de beber e voltar a estudar” – escreve uma leitora. O resultado é frustração e, eventualmente, o sentimento (onipotente) de culpa por não ter tentado “de tudo” ou por um tempo ainda maior para salvar o outro de cair no abismo. Nosso poder de mudar os outros não é tão grande quanto gostamos de imaginar! É melhor investir essa energia para mudar o que é preciso em nós mesmos. Isso se refletirá em mudanças no relacionamento.

Por outro lado, há relacionamentos que promovem o crescimento de ambas as partes. A colaboração recíproca presente nesse amor torna o terreno fértil para desabrochar potencialidades surpreendentes. Superada a ilusão de onipotência, descobrimos o verdadeiro poder.

Vamos tomar cuidado com as nossas escolhas

É fácil a gente se iludir

Achando que podemos transformar

Quem não quer se modificar!

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Criar filhos em um mundo de incertezas

As novas gerações precisarão pensar soluções inovadoras para cuidar melhor da teia da vida. (Fotografei na Nova Zelândia).

As novas gerações precisarão criar soluções inovadoras para cuidar melhor da teia da vida. (Fotografei na Nova Zelândia).

No século XXI, sob muitos aspectos, vivemos em um mundo inseguro e imprevisível: enfrentamos desastres naturais, ataques terroristas, instabilidade econômica, imprevisibilidade. Precisamos criar estratégias para lidar com tudo isso, desenvolver a habilidade de pensar em soluções para os problemas, em vez de fugir deles. Cuidar dos vínculos na intimidade das famílias e no ambiente escolar constrói bons alicerces para a resiliência – a capacidade de enfrentar as adversidades sem se deixar abater e de encontrar saídas criativas para solucionar problemas.

Um documentário sobre a qualidade da educação na Finlândia, considerada uma das melhores do mundo, mostra que, lá, a escola pública de alta qualidade é oferecida a todas as crianças e adolescentes. O professor atua como um orientador, motivando os alunos a pesquisar e organizar as informações, estimulando as ideias inovadoras, o espírito empreedendor e a inteligência social. Precisamos que as novas gerações criem soluções para os múltiplos problemas que enfrentamos coletivamente, como a ameaça de esgotamento dos recursos naturais, o excesso de poluição e o crescente fluxo migratório, entre outros.

Um documento da UNESCO ressalta o valor da educação, mesmo em condições precárias como as encontradas nos acampamentos de refugiados, para abrir perspectivas de construir um futuro melhor e aliviar o estresse emocional de viver em contextos de grandes perdas e extrema instabilidade.

As novas gerações precisarão redefinir  o modelo de progresso econômico rumo a um desenvolvimento sustentável e integral, como tão bem mostrou o Papa Francisco na encíclica Laudato Si. Criar filhos em um mundo de incertezas significa também consolidar a educação em valores, em especial o respeito pela teia da vida e pela família humana que compartilha a mesma casa planetária, fortalecendo a compaixão e o espírito de partilha.

Uma pesquisa feita em 40 países desenvolvidos pelo Pew Reserch Center revela que, embora os pais desejem um futuro feliz e seguro para seus filhos, a maioria das pessoas entrevistadas acha que as futuras gerações enfrentarão  maiores dificuldades financeiras do que as atuais, considerando o contexto econômico recessivo pelo qual passamos. Isso demandará uma profunda revisão de hábitos de consumo, para que seja possível aprender a viver melhor com menos, como preconizam os adeptos da simplicidade voluntária.

https://www.youtube.com/watch?v=WeMM-hL0KFY&spfreload=1

http://www.unicef.org/teachers/protection/instability.htm

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

https://agenda.weforum.org/2015/08/how-optimistic-are-parents-about-their-childrens-financial-future/?utm_content=buffer0289d&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

Vovó, posso ajudar?

É preciso a colaboração de muita gente para uma obra de arte como essa ser apreciada por milhões de pessoas. ( Fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY).

É preciso a colaboração de muita gente para uma obra de arte como essa ser apreciada por milhões de pessoas. ( Fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY).

Maurício, 4 anos, fez essa pergunta ao ver a avó começar a recolher os pratos da mesa, após o almoço de domingo.

Se a casa é de todos, todos colaboram. Essa participação pode começar quando a criança é pequena, para construir desde cedo a noção do valor da cooperação na “equipe de família”. O desenvolvimento da solidariedade segue pelo mesmo caminho, inclusive na relação entre irmãos.

Assim que saiu da maternidade com o recém-nascido, Ana Lúcia começou a pedir a Pedro, de 3 anos, para ajudá-la a cuidar do irmãozinho, estimulando-o a fazer pequenas tarefas que estavam ao seu alcance. Isso ajuda a “digerir” o ciúme, integrando todos no circuito familiar, para atenuar o sentimento de ser excluído ou preterido.

Criar tempo de convívio em família propondo atividades que envolvem a participação de todos é um convite para desenvolver a colaboração e boas conversas, por exemplo, na cozinha em que todos preparam uma refeição no final da semana.

Conhecer e, se possível, colaborar com algumas tarefas no ambiente de trabalho dos pais pode ser uma boa experiência no fortalecimento da colaboração. Eu tenho boas lembranças de atender pessoas no balcão da padaria que meu pai gerenciava quando eu era criança (nada a ver com exploração de trabalho infantil)! Luiz, pai de meninos de 10 e 12 anos, começou a levá-los uma vez por semana para o restaurante em que trabalha, com o propósito de fazê-los observar a importância de uma equipe que atua em colaboração para que os clientes sejam bem atendidos.

A colaboração é essencial para o bom convívio na família, na escola e no trabalho. E também para a vida em comunidade. No entanto, muitos adultos não percebem a importância da colaboração individual para o bem-estar coletivo. Presenciei uma cena em que uma senhora, elegantemente vestida, jogou lixo na calçada. Uma moça que passava a seu lado, apontou para uma lixeira próxima. Indignada, a senhora contestou:

– Os garis são pagos para limpar as ruas!

Conheço muitos adolescentes e jovens adultos extremamente conscientes de seus direitos e muito tranquilos com sua total falta de colaboração. “Meu pai paga a empregada, então é ela quem tem de recolher a roupa que eu deixo espalhada pela casa e esquentar a comida quando eu chego da faculdade” – afirma Mateus, achando muito natural que todas essas mordomias lhe sejam oferecidas. Na época em que eu trabalhava como voluntária coordenando grupos de mulheres em comunidades, muitas diziam que nem os filhos nem os companheiros participavam das tarefas domésticas. Uma delas desabafou:

– Chego do trabalho exausta, e ainda tenho que fazer comida e cuidar da roupa de todos eles. Minha filha, de vinte anos, não lava nem as próprias calcinhas!

Pais e filhos nas redes sociais

Seres diferentes precisam aprender a conviver no mesmo espaço. (Fotografei no aquário de Sydney, Austrália).

Seres diferentes precisam aprender a conviver no mesmo espaço. (Fotografei no aquário de Sydney, Austrália).

– Minha mãe postou uma foto minha usando fraldas! Fiquei furioso! Meus amigos me zoaram muito! – desabafa Leandro, 14 anos. Ele recebe os amigos em sua casa e Nara, sua mãe, é muito comunicativa e, por isso, participa das redes sociais de todos eles.

No entanto, nem sempre é fácil para os pais decidir o que é adequado publicar nas redes sociais, especialmente no que envolve fotos ou comentários sobre os filhos. Muitos adolescentes e jovens adultos se sentem constrangidos com ações que revelam que seus pais ainda os enxergam como criancinhas. Não querem ser vistos como filhinhos de papai e de mamãe. Muitos não gostam de andar de braços dados na rua ou de entrar no carro estacionado em frente á casa de festas. É forte a necessidade de mostrar autonomia e independência.

Por outro lado, os pais são amorosa e legalmente responsáveis por seus filhos até a maioridade. Grande parte das famílias não faz a menor ideia do que crianças e adolescentes fazem no mundo virtual. Porém, assim como os pais não soltam completamente os filhos no mundo real (ou, pelo menos, não deveriam…), precisam ter alguma noção do que acontece na praça pública do ciberespaço. Principalmente se considerarmos que o acesso à internet está acontecendo cada vez mais cedo.

Percepção de riscos, autoproteção e uso responsável das redes sociais precisam ser temas de conversa em família. Convém esclarecer a confusão de conceitos como, por exemplo, pensar que a liberdade de expressão dá permissão de escrever mensagens extremamente agressivas ou preconceituosas.

É essencial ter conversas claras sobre o que incomoda ou constrange, sobre condutas aceitáveis e inaceitáveis na rede (inclusive para os adultos). Há pais que, sem muito domínio sobre a tecnologia, podem aprender com os filhos a mexer em configurações de privacidade nos perfis de redes sociais, para direcionar publicações para públicos específicos e. a partir daí, estabelecer entre eles acordos claros sobre limites de publicações.

A oportunidade das crises

Observação atenta e serena do cenário para agir com precisão é uma postura eficaz para lidar com as crises. (Fotografei  em Fernando de Noronha, PE).

Observação atenta e serena do cenário para agir com precisão é uma postura eficaz para lidar com as crises. (Fotografei em Fernando de Noronha, PE).

Atravessar crises, individuais ou coletivas, envolve riscos e oportunidades. A crise rompe o equilíbrio vigente e nos coloca em busca de um novo equilíbrio. Portanto, a mudança é inevitável – para melhor ou para pior. Envolve perdas e ganhos, gerando a necessidade de criar novos recursos para enfrentar a situação.

Na travessia das crises, a pergunta-bússola é: O que posso fazer de melhor para abrir bons caminhos? “Reclam/ação” – em vez de nos afundarmos em desânimo e pessimismo, investimos energia em ações eficazes, observando o cenário com atenção e o máximo de serenidade possível.

É preciso refazer o orçamento, cortar custos e repensar o que é indispensável e o que é supérfluo? Podemos viver bem com menos recursos sendo mais criativos para criar estratégias de sobrevivência em cenários desfavoráveis.

Além das crises inevitáveis que a vida nos apresenta, há aquelas que criamos para nós mesmos quando cultivamos mágoas crônicas, atribuindo a outras pessoas a causa de nossa infelicidade ou criando a ilusão de que é possível ser bem-sucedido no amor ou no trabalho sem passar por episódios de fracasso e frustração. Persistência para vencer obstáculos e resiliência para enfrentar as dificuldades sem sair de cena são ferramentas indispensáveis para viver no mundo instável e imprevisível em que estamos.

Em vez da rigidez de condutas que há muitos deixaram de ser eficazes (se é que algum dia foram…), precisamos cultivar a flexibilidade para melhor nos ajustarmos a contextos de rápidas mudanças, que caracterizam o século XXI. Se o plano que consideramos ideal for inviável, precisamos formular outro mais adequado às circunstâncias presentes, em vez de sentar e chorar desconsoladamente ou ficar com raiva da vida que não nos oferece o que queremos.

Quando pensamos no caminho percorrido, podemos perceber a sucessão de obstáculos que já foram vencidos. Aprender a andar, a comer com as próprias mãos, a ler e escrever. Enfrentar experiências de rejeição e exclusão, de insegurança quanto à nossa competência, de arrependimento por escolhas que não trouxeram bons resultados. Tudo isso pode ampliar nossos recursos e reforçar a crença de que seremos capazes de continuar enfrentando novos desafios, refazendo metas, construindo sonhos e nos esforçando para concretizá-los.

Nas trilhas da vida vamos caminhando

Com sonhos e metas para alcançar

Encarando as dificuldades

Como desafios para enfrentar