Arquivo mensal: outubro 2015

Vida simples

A beleza da simpiicidade do altar da Igreja de Pedra, que fotografei em Helsinque.

A beleza da simpiicidade do altar da Igreja de Pedra, que fotografei em Helsinque.

“Quando eu for adulto, quero ter uma vida simples” – disse Paulo Renato, 13 anos, surpreendendo seus pais. A conversa na mesa do jantar girava em torno de estilos de vida. O pai admite que é consumista, trabalha até altas horas para se dar ao luxo de ter um bom automóvel, viajar com a família para o exterior, morar em um apartamento espaçoso e comprar roupas de grifes famosas. A mãe comenta que deixou de insistir para o filho comprar mais um tênis ou uma camisa nova porque ele sempre diz que não precisa.

Francineide, 24 anos, promove regularmente com um grupo de amigas uma “sessão de desapego”: cada uma leva peças de roupas e acessórios para trocarem umas com as outras. Desse modo, renovam o visual evitando a compra de novos itens. Uma boa iniciativa em época de recessão da economia e de aumento dos índices de desemprego, em que as pessoas precisam cortar despesas e decidir o que é realmente essencial.

Há profissionais que aumentam a carga de trabalho em época de crises econômicas como, por exemplo, os que consertam roupas e sapatos. Com o aperto orçamentário, convém pensar em reformar, reaproveitar, reciclar. No entanto, esses hábitos precisam ser consolidados mesmo em épocas financeiramente mais tranquilas. Essa mudança ficará vinculada à consciência ecológica, reconhecendo que havendo menos descarte, contribuiremos para produzir menos lixo e menos consumo de matérias-primas no planeta tão sobrecarregado.

Uma boa pergunta: “Será que realmente estou precisando disso ou é apenas um desejo”? Uma breve reflexão evitará muitas compras por impulso e poderá abrir espaço para apreciar melhor a beleza e o bem-estar de uma vida simples.

Anúncios

O estresse do cotidiano

167

Riscos e imprevisibilidade aumentam o nível de estresse (Cratera de vulcão que fotografei na Costa Rica).

Com uma avalanche de informações e sobrecarga de tarefas e compromissos, é possível escolher fazer uma coisa de cada vez, sem nos obrigarmos a ser multitarefa o tempo todo? Quais os recursos que podemos utilizar para reduzir o estresse inevitável? Como criamos estresse desnecessariamente?

A conversa sobre esse tema com um grupo de amigos foi muito interessante. Compartilhamos recursos que utilizamos para descarregar o estresse do cotidiano, com os problemas de trânsito, a vida em cidades com muitos episódios de violência e horário apertado devido à sobrecarga de compromissos. Nadar do mar de manhã cedo, dançar, jantar com a família sem ligar a TV ou verificar mensagens no celular, conversar com os amigos, meditar, cultivar a alegria e o bom-humor foram alguns dos recursos mencionados. Uma das participantes disse que pratica o que leu em um livro: quando está estressada, imagina-se morta, no caixão, e dessa perspectiva, olha a vida. Isso a ajuda a perceber o que realmente importa e como está criando estresse ao cultivar mágoas ou preocupações.

Vivemos em cenários de alta complexidade, precisando encarar não somente as crises pessoais como também as políticas, econômicas, ecológicas e tantas outras. Precisamos fortalecer a resiliência pessoal, familiar e comunitária para encarar as adversidades e encontrar meios de reduzir os danos causados. Conviver com múltiplas dificuldades sem desenvolver resiliência e flexibilidade nos torna vulneráveis ao estresse tóxico, com os problemas de saúde daí derivados, desde a época da gestação.

As pesquisas sobre a biologia do estresse mostram como o estresse crônico na gravidez (por exemplo, proveniente de condições de vida extremamente desfavoráveis, tais como a miséria, abuso e negligência) pode prejudicar a formação do cérebro fetal e colocar o sistema de resposta ao estresse continuamente em alerta máximo, passando a mensagem bioquímica “o mundo lá fora está cheio de perigos”.

Há situações estressantes que são inevitáveis, fazem parte do “pacote da vida”. E também é preciso reconhecer que o estresse tem aspectos positivos, como enfatiza Kelly Mcgonigal em sua palestra TED “How to make stress your friend”. Precisando enfrentar mudanças e adversidades, saímos da zona de conforto, ficamos motivamos a buscar pessoas de quem gostamos e em quem confiamos para trocar ideias e obter apoio. Isso fortalece os vínculos e a resiliência para enfrentar os múltiplos desafios que encontramos pelas trilhas da vida.

http://www.ted.com/talks/kelly_mcgonigal_how_to_make_stress_your_friend/transcript?language=en

A criança e a morte

Com a morte de um ente querido, toda a família precisa fazer o trabalho de luto. (Detalhe da fachada da Igreja da Sagrada Família, que fotografei em Barcelona)

Com a morte de um ente querido, toda a família precisa fazer o trabalho de luto. (Detalhe da fachada da Igreja da Sagrada Família, que fotografei em Barcelona)

– Vovô virou estrelinha – disse Carolina ao comunicar a morte de seu pai para Bruno, seu filho de cinco anos.

– Estrelinha, mamãe?! Vovô morreu, foi para o cemitério e virou zumbi! – retrucou o menino, surpreendendo a mãe.

No trabalho com famílias, é frequente a questão de como abordar o tema da morte com crianças. Uma das perguntas habituais é se devemos “poupar” a criança de ir a velórios e enterros. Lembro-me da minha infância, em que os mortos eram velados nas casas, e as crianças se aproximavam do caixão, tocavam o cadáver com curiosidade e comentavam o que percebiam. E o que é “poupar” as crianças, que presenciam cenas horripilantes de mortes violentas nos noticiários, sem falar nas que vivem em comunidades onde predomina a linguagem da violência, que precisam aprender a se proteger dos tiroteios e se deparam com cadáveres ensanguentados nas ruas?

A morte faz parte da vida, mas falar sobre isso virou tabu. Conheço alguns pais que, preocupados com a morte de um bichinho de estimação, compraram outro “igualzinho” para colocar em casa, antes que o filho retornasse da escola, na esperança de que este não percebesse o que acontecera. Crianças não são bobas, e lidam com a realidade muito melhor do que alguns adultos, como mostrou Bruno para sua mãe.

Com crianças pequenas, podemos falar sobre o ciclo da vida mostrando as flores que desabrocham e depois completam seu tempo. E dizer que o mesmo acontece com os demais seres. Em algum momento, morrerá alguém da família, do círculo de amigos, ou até mesmo colegas de escola. As crianças maiores fazem perguntas difíceis de responder: “Se Deus é tão bom, por que levou minha mãe”? “Meu colega morreu no acidente. Eu também posso morrer”? “Mamãe, se você morrer, quem vai cuidar de mim”? “Eu também quero morrer para encontrar o papai no céu”!

Se a família segue uma religião, poderá rezar pela pessoa que morreu e explicar que nosso corpo é apenas uma embalagem temporária para um espírito que continua a existir. Se não há um referencial de espiritualidade, explicar que a pessoa continua viva em nosso amor e em nossas lembranças. É claro que isso não extingue a tristeza e a saudade pela falta da proximidade física. E vale lembrar que o mais importante é oferecer a escuta acolhedora dos sentimentos e das questões que surgem no decorrer do trabalho de luto que precisará ser feito por toda a família.

“O que faço com o que ele fez comigo”?

Crises conjugais apresentam caminhos difíceis de percorrer. (Fotografei no deserto do Atacama, Chile).

Crises conjugais apresentam caminhos difíceis de percorrer. (Fotografei no deserto do Atacama, Chile).

Naiara achava que seu casamento de quinze anos com Helvécio era perfeito. Até o dia em que leu as mensagens românticas que ele trocava com Cristiane no celular que esquecera no sofá da sala, antes de sair para o trabalho.

Ela me ligou, perplexa, sem saber o que fazer:

– Estou arrasada! Tudo aquilo em que eu acreditava desabou em um segundo! Será que ele não pensou que isso poderia colocar em risco o nosso casamento? Como eu pude ser tão burra para nem sequer desconfiar que ele estava tendo um caso? Pelo que li nas mensagens isso não começou ontem! Não é uma transa qualquer, é um envolvimento! Como é que ele teve a coragem de fazer isso comigo? Com tudo o que construímos juntos durante todo esse tempo? E agora? Digo para ele sair de casa? Mas eu nunca pensei em me separar… – As palavras saíam aos borbotões entre soluços e lágrimas de raiva e dor.

Algumas reflexões importantes surgiram em nossa conversa. O mais importante: podemos escolher o que fazer com o que fazem conosco. Naiara poderia escolher confrontar Helvécio e dizer que a infidelidade para ela significava o fim do casamento. Poderia decidir não mencionar sua descoberta e aguardar o término do relacionamento extraconjugal. Na base do “olho por olho, dente por dente” poderia quebrar internamente o pacto de monogamia e ter um caso com Edvaldo, um namorado da adolescência que reencontrara em uma festa e que havia se separado recentemente.

Naiara precisou juntar forças para rever a ilusão de “casamento perfeito”, optar por encarar o problema de frente com Helvécio, admitir que aquele casamento estava terminado. Em meio à dor, perplexidade, arrependimento, tristeza e raiva, os dois descobriram o desejo de construir um novo casamento ao constatarem que o que inicialmente os aproximara ainda permanecia importante. O caminho foi cheio de percalços: dúvidas, desconfiança, medo de novos episódios de traição, insegurança. Mas a revitalização aconteceu.

Tempos depois, Naiara sintetizou o que aconteceu nessa caminhada: “Nosso casamento deixou de ser perfeito, e está ótimo”!