Arquivo mensal: fevereiro 2016

Os celulares dos filhos angustiam os pais

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Na “selva” das rápidas mudanças, é um desafio construir pontes entre as diversas gerações (Fotografei na Costa Rica)

 

Soraia se inquieta sempre que vê os filhos, de nove e onze anos, às gargalhadas, compartilhando fones de ouvido e vendo vídeos que contam com milhões de acessos e curtidas. “Fico horrorizada com a quantidade de besteiras, palavrões, letras de música que depreciam as mulheres, erros grosseiros de português. Não acho graça nenhuma, mas é isso que a garotada está vendo e gosta” – desabafa, preocupada.

É possível instalar filtros nos computadores da casa para bloquear conteúdos impróprios, há como coibir o uso de redes sociais antes da faixa etária recomendada, mas não dá para controlar totalmente o acesso aos infindáveis conteúdos disponíveis nos canais de vídeos e nem saber o que os amigos dos filhos estão compartilhando a partir dos respectivos celulares.

Só mesmo a conversa em família poderá estimular as crianças a selecionar o que será visto, refinar o espírito crítico e aguçar a percepção de mensagens de discriminação e preconceito. Para transformar conversas difíceis em diálogos eficazes é preciso olho no olho, liberdade para expressar argumentos contrários e a favor, escuta respeitosa dos diferentes pontos de vista. Trilhando esses caminhos, será possível chegar a consensos importantes.

Também é preciso considerar que muitas crianças e adolescentes desenvolvem precocemente habilidades para produzir conteúdo e logo aprendem a encontrar canais eficientes de divulgação. Com isso, contam com milhares de seguidores e alguns passam a ser patrocinados por empresas em busca de incrementar as vendas de seus produtos. Isso também preocupa Soraia: “Meu filho mais novo argumenta: “Mãe, esse cara aqui tem 18 anos e ficou rico fazendo esse tipo de vídeos que você diz que é besteira! Ele nem precisa mais estudar”! É difícil convencer as crianças de que esse “sucesso instantâneo” quase sempre resulta em um ocaso rápido. Os fãs da “celebridade”, que lotam imensos auditórios e fazem filas quilométricas para conseguir um autógrafo, em pouco tempo elegem outro ídolo, cuja fama será igualmente efêmera.

Celulares e computadores são poderosos: mudaram nossa maneira de viver, de aprender e de nos comunicarmos uns com os outros. Quando usados em excesso, criam a ilusão de estarmos conectados quando, na verdade, estamos solitários na multidão de contatos.

Decidir, em família, como aproveitar os benefícios da tecnologia e como evitar os riscos do uso excessivo ou inadequado é um dos grandes desafios da contemporaneidade.

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Diário de adolescente

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A cada dia, tecemos experiências que formam nossa vida. Fotografei a caverna em Bonito (MS): milhares de anos para tecer essas formações.

Ao arrumar as prateleiras de um armário, encontrei o diário que escrevi entre quinze e dezesseis anos. Coisas do século passado! Reli tudo, me reencontrando com a moça tímida, filha única de uma família muito conservadora do subúrbio carioca, onde se cultivava o hábito de colocar cadeiras na calçada no final da tarde para conversar sobre a vida dos vizinhos.

Logo na primeira página, escrevi como eu sentia a adolescência:

“Adolescência é um caso sério. Época de mudança, de instabilidade. Apesar de eu me considerar uma adolescente sem grandes problemas, às vezes tenho verdadeiras guerras com minha própria pessoa. Não sei que valores adotar, que caminhos escolher. Fico indecisa, hesitante, sem saber para que serve tudo o que a gente faz, o que se planeja. Acho que preciso encontrar um objetivo mais substancial para a minha vida”…

Em plena fase de “alfabetização amorosa”, de “flertes” e namoro em que não se andava de mãos dadas nos primeiros encontros e nem se trocavam beijos, escrevi sobre minha angústia por desconhecer o amor:

“Não sei o que é o amor. Acho que ainda não amei ninguém autenticamente! Desconheço os sintomas do amor e fico procurando pistas que me informem. Inutilidade completa! Ah, meu Deus, quando essa situação terminará? Como anseio por superar essas crises de desequilíbrio, de insegurança”!

Há apenas meio século eram raras as famílias que dispunham de telefone. Computadores pessoais e celulares não existiam. Se chovia, não havia encontro, nem na pracinha da igreja nem na calçada em frente à casa. Os desencontros eram frequentes. Quando eu escrevi o texto que se segue, já estava namorando e “levei um bolo”:

Ai que raiva, que aborrecimento! Ontem à noite não choveu, mas Carlos não veio! É o cúmulo da burrice! Se o tempo melhorou, a obrigação dele era vir. Mas não: não veio! Eu toda arrumada, perfumada, pintadinha, impaciente e nervosa olhando pela janela e … nada! Às nove horas fui dormir. Chorei de raiva e desespero. Raiva por ter me aprontado toda, desespero porque é duro se planejar tanto e ver que acontece o contrário. É horrível fazer uma ideia e verificar que ela está errada”.

Foi emocionante entrar nesse túnel do tempo, reler o diário da adolescente que ainda me habita, e que sempre se reconstrói com o acúmulo de experiências de algumas décadas. Essa releitura também me fez refletir sobre como os adolescentes do século XXI vivenciam seus relacionamentos. De uma época em que a virgindade era muito valorizada até hoje em que, dependendo do contexto, uma moça virgem aos 18 anos é vista como problemática. Dos flertes feitos de olhares e sorrisos discretos até o “ficar”, com beijo na boca até antes de saber o nome. Mas, independente da época, continuamos trilhando os infindáveis caminhos do amor e dos inevitáveis desencontros, apesar das mensagens instantâneas que nos alcançam em qualquer parte do mundo.