Arquivo mensal: maio 2016

Perdas difíceis

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Na travessia da dor, somos lançados em mares turbulentos. (Fotografei em Nova Iorque).

Uma leitora me escreveu: “O bebê da minha melhor amiga nasceu com um problema grave e morreu dias depois. Ela não esperava por isso. Está em estado de choque, mal consegue chorar e está muito fechada. Estou preocupada com ela, não sei como ajuda-la”.

A perda de um filho no início da vida é difícil de digerir. Recém-chegado a esse mundo, e já está de partida. Em outras etapas da vida o luto por essa perda continua sendo um dos mais difíceis. No caso dos bebês, muitas mães, inicialmente, ficam paralisadas pela perplexidade, até vir o entendimento de que esse filho sempre continuará vivo no amor, mesmo tendo passado tão pouco tempo nessa vida.

“Não sei o que dizer em um momento como esse” – confessam alguns. Mas, para quem está passando por uma perda difícil, o conforto oferecido pela simples presença dispensa palavras. É a sensibilidade e o afeto de um olhar, um gesto de carinho, um abraço acolhedor. É a disponibilidade amorosa. É a iniciativa de fazer alguma coisa que a pessoa, entristecida, não tem energia para providenciar.

Perdas difíceis também acontecem como longo processo. A perda progressiva de memória e de capacidade cognitiva de pessoas queridas que sofrem do mal de Alzheimer, por exemplo. “Minha mãe ainda está viva mas, de certa forma, deixou de ser aquela que sempre foi, e nem sequer me reconhece” – lamenta a filha, triste por presenciar a deterioração e desconfortável com o sentimento de impotência por não poder contribuir para resolver o problema.

Mas não é só a perda repentina ou progressiva de pessoas amadas que nos abala. A perda da confiança e a decepção em uma relação amorosa ou em parcerias de trabalho, a perda de um projeto que acabou sem decolar como imaginávamos. É o que poderia ter sido mas não foi, a esperança abortada, o sonho desfeito.

“Não me conformo por estar passando por isso”! – dizem alguns, revoltados com o sofrimento desencadeado pela perda, o que amplia ainda mais sua dimensão. Ao mergulhar em águas profundas, saímos da turbulência da superfície. Mergulhar em nosso interior, rumo ao centro da serenidade, nos ajuda a fazer a travessia da dor, compreendendo melhor a força e a fragilidade da vida e ampliando a percepção do que está acima e além dos nossos sentidos, tão limitados.

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As famílias das crianças

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No desabrochar de uma criança, há também crescimento naqueles que a amam. (Fotografei na Serra da Bocaina).

No Brasil, as famílias compostas por casais heterossexuais com filhos deixaram de ser maioria, como mostra o Censo de 2010 do IBGE. Correspondem a 49,9% dos lares. Famílias com somente a mãe ou o pai em casa, casais homoafetivos, lares compostos por avós e netos, famílias mosaico (formadas após uma ou mais separações) e outras composições que não correspondem ao modelo tradicional são, a cada ano, mais numerosas.

Por isso, os “laços de sangue” deixaram de ser considerados indispensáveis. É o afeto que tece os laços familiares, e forma a base do compromisso de amar e de cuidar.

Portanto, a gravidez acontece em diversos cenários em que os vínculos afetivos (nem sempre acolhedores e amorosos) começam a ser tecidos, e os recém-nascidos serão recebidos em diferentes composições familiares. As gestações podem ser planejadas e ansiosamente esperadas, podem ser inesperadas e indesejadas, ou “planejadamente acidentais” (quando o desejo inconsciente motiva o esquecimento ou o uso inadequado do anticoncepcional). A evolução da gravidez e o nascimento podem trazer alegria, desconforto, preocupação, ou até mesmo decepção (“nada saiu como eu esperava”). Sentimentos misturados e conflitantes (na esfera emocional as contradições coexistem) podem ser a tônica do relacionamento nos primeiros meses de vida (“para minha surpresa, fiquei muito deprimida nas primeiras semanas após o parto”).

Essa rede de relacionamentos é complexa e multifacetada. Por isso, não cabem as imagens idealizadas de permanente paz, amor e harmonia. Também há momentos de cansaço, confusão, irritação, desespero, desalento. As pessoas vivenciam tudo isso quando chegam as criancinhas, que mexem profundamente nas histórias de todos os membros da família.

É importante que tudo isso seja dito e ouvido com atenção e sensibilidade para que seja possível superar preconceitos e deixar de lado a ilusão de que tudo aconteça “como manda o figurino”.