Arquivo mensal: julho 2016

Transformando famílias

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Aproveitar as oportunidades que surgem abrem trilhas interessantes no caminho da vida. (Fotografei em Itamonte, MG)

“Eu estava muito preocupada com meu filho. Ele não tinha sonhos, não sabia o que queria da vida. Depois que entrou para a aula de vôlei na Cruzada conseguiu ser federado e leva a sério sua preparação. Diz que atleta não tem férias, que precisa cuidar da alimentação. Agora eu o vejo feliz, com objetivos, dedicado ao esporte. O desempenho na escola melhorou muito. O pai, que era muito ausente, agora participa mais da vida da família”. O jovem, de 13 anos, acrescenta: “Agora eu tenho um foco. Mesmo nas fraquezas, levanto a cabeça e sigo em frente, mesmo perdendo, mantenho o sorriso”.

“Minha filha, com 12 anos, passou a ter mais responsabilidade com os horários, tem disciplina. Estava muito ociosa, agora faz aulas de vôlei, judô, capoeira, hip-hop e cuida da roupa do esporte. Aliás, eu também entrei nessa dança e já perdi cinco quilos, estou mais animada. Além disso, com a ajuda da equipe, voltei ao mercado de trabalho. Fiz um curso de culinária e passei a fazer bolos, doces e salgados para vender. Consegui conciliar o tempo de cuidar da família e produzir”.

“Os professores da creche educam os pais na relação com os filhos” – disse a mãe de um menino de dois anos. “Confesso que eu sofria agressões do meu marido, e isso acabou depois que passamos a frequentar as reuniões de família. Fiz amizade com muitas mães, trocamos ideias, comemoramos aniversários juntas. A gente que mora em comunidades vê muitos pais que não cuidam dos filhos, vale a pena se acostumar com coisas boas”.

Da mãe de uma menina de quatro anos, que nasceu com síndrome de Down: “Parei de trabalhar para cuidar da minha filha, mas vi que ela precisava de outros cuidados. A creche acolheu nossa família com carinho e minha filha está se desenvolvendo muito bem, está mais sociável, desenvolveu a fala e a motricidade. Comecei a desenvolver grupos de apoio a famílias que passam por essa situação e transmitir informações para quem tem preconceitos de se aproximar de crianças como ela”.

Ao final da reunião do Conselho Consultivo da ONG Cruzada, da qual faço parte, algumas mães e alunos que frequentam a creche e os projetos do Plantando o Amanhã falaram sobre o impacto desse trabalho em suas famílias. Com o propósito de educar para transformar, a Cruzada estimula a participação das famílias e o desenvolvimento das competências de todos.

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“Trabalhar é a maior felicidade”!

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A conversa com a artesã Edite, que fotografei na Chapada Diamantina (BA) foi uma lição de vida.

Foi assim que Edite, 74 anos, respondeu à primeira pergunta da pesquisa que estou fazendo sobre a construção da felicidade. Ela é artesã e mora em Lençóis, na Chapada Diamantina (BA). Trança palha, faz crochê, costura, faz bordado, fuxico, cerâmica. Trabalha na roça, também. “Só paro de trabalhar quando estou dormindo, comendo e no banheiro, cantando. Gosto de trabalhar desde que tinha uns três anos. A gente morava em fazenda, e eu ia com meu pai para o curral ajudar a tirar leite das vacas e também para a roça, para ajudar a plantar e a colher. Ele dizia para minha mãe deixar eu ajudar porque eu gostava de fazer isso. Com minha mãe, eu ia para a lagoa lavar roupa. Eles não trabalhavam sábado e domingo, então eu brincava com bonecas, arrumava a casa delas, convidava outras crianças para brincar comigo. E foi aí que aprendi a cozinhar, costurar, bordar”.

Aprendeu com o pai que o melhor é dormir e acordar cedo, além de descansar depois do almoço para “respeitar o corpo”. Diz que trabalho é remédio: quando sente qualquer mal-estar começa a trabalhar e tudo passa. “Tive 17 filhos mas só criei nove, os outros morreram pequenos. Naquela época, o que a gente mais via era caixão de anjo, muitos morriam novinhos, não tinha remédios nem médicos, como tem agora. Meus nove filhos dizem que se sentem felizes porque nunca me viram em uma cama de hospital”.

Diz que já explicou a mais de mil pessoas que lhe perguntam o que ela faz para viver sorrindo que o importante é trabalhar, que é isso que faz bem para a saúde. “Quem se concentra no trabalho não pensa nos problemas. Quem se preocupa muito adoece e isso não adianta nada, porque o que tem que ser já nasce assim e o que não tem que ser não é”. Às vezes fica preocupada com os três filhos que trabalham como caminhoneiros, mas pensa que Deus não vai deixar que nada de ruim aconteça e, então, a preocupação acaba. Não fica triste porque tem muito a agradecer à vida.

Faz projetos de vida a longo prazo: comprou uma terra e está organizando um sítio, plantando frutas e legumes para se alimentar bem. “Não é porque eu estou com 74 anos que vou deixar de fazer planos para o futuro”.

Edite é uma pessoa resiliente. Intuitivamente, pratica o que a neurociência ensina a respeito da neuroplasticidade autodirigida e a ciência da felicidade aponta sobre a importância da gratidão e da renovação de projetos de vida.

Nas teias dos relacionamentos

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Que teias tecemos em nossos relacionamentos no decorrer da vida? (Tela de Hiroshige, que fotografei em uma exposição em Paris).

O grupo que conversou comigo sobre esse tema teceu muitos comentários sobre a teia da mágoa. A pessoa que nos magoa atinge nossas áreas mais vulneráveis “Eu me afasto da pessoa que me magoou” – disse uma participante. Porém, com isso, deixa de aproveitar bons aspectos desse relacionamento.

“Às vezes, a pessoa nem sabe que me magoou, eu simplesmente desapareço” – complementou. Desse modo, perde a oportunidade de propor uma conversa esclarecedora, que poderia restaurar o bom relacionamento. Vale pensar sobre o que podemos aprimorar em nossa expressão de sentimentos e na clareza da comunicação.

Como podemos nos libertar da teia da mágoa? Algumas ideias foram discutidas, entre as quais a importância de entender melhor a pessoa que nos magoou.  “Percebo que, quando consigo fazer isso até penso que talvez eu até fizesse o mesmo que o outro fez” – disse uma participante. E outro agregou: “Vivi muitos anos magoado com meus pais. Eu me sentia injustiçado, por perceber que eles mimavam meu irmão. Quando fiquei mais maduro, vi o quanto eu contribuía para que meus pais não me oferecessem tantos privilégios, porque eu era muito rebelde e grosseiro com eles”.

Aprofundar o autoconhecimento contribui para dissolver a mágoa: O que aconteceu para isso me atingir desse modo? Por que estou dando tanta importância para essa pessoa a ponto de permitir que ela me magoe tanto?

Há outras teias que nos aprisionam, como o ciúme que nasce do medo da perda e gera a necessidade de tudo controlar. E a da inveja, que paralisa nosso crescimento pessoal, consumindo energia em ver apenas o que o outro conquistou e o que nos falta. Com isso, muitos deixam de batalhar pelas próprias conquistas. Essas teias de relacionamento são tóxicas, fazem mal à nossa saúde física e mental.

Felizmente, há teias que nos trazem alegria e dão sustentação em momentos difíceis, como as da amizade, da solidariedade e do amor. Essa tecelagem, feita na base do respeito, da compreensão e da aceitação das diferenças, beneficia o crescimento de todos.