Arquivo mensal: agosto 2016

Apego, desapego, amparo, desamparo

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Os compradores compulsivos se enchem de coisas desnecessárias, e não se desapegam dos itens que acumulam. (Fotografei em Bruxelas)

O ser humano nasce desamparado, dependente, incapaz de sobreviver se não tiver alguém que cuide dele. Pouco a pouco, desenvolve autonomia: para isso, é necessário amparar os primeiros passos, mas também deixar a criancinha cair e aprender a se levantar sozinha. Na nutrição do vínculo, é sutil o equilíbrio entre o apego que fortalece a sensação de estar amparado e sendo amado e o desprendimento que evita a superproteção, a dependência excessiva e simbiótica.

O apego a bens materiais é a vã tentativa de suprir um vácuo na relação do amparo primordial, que transmite segurança e forma a base da autoestima e da autoconfiança. Todos nós precisamos do olhar do outro para nos sentirmos aceitos e reconhecidos.

Os compradores compulsivos se enchem de coisas desnecessárias, e não se desapegam dos itens que acumulam. Rodeados de objetos, criam a ilusão de completude, de que nada lhes falta. Porém, de nada podem abrir mão porque “um dia, posso precisar dessas coisas”.

Para combater o consumismo, muitos estão promovendo “sessões de desapego”, doando ou trocando objetos e expandindo a noção de que temos uma infinidade de coisas de que, na verdade, não precisamos.

Escolher o que é realmente essencial e o que é dispensável pode inspirar ações como a de Margot, que acumulou centenas de objetos que adquiriu em suas inúmeras viagens ao redor do mundo, além dos presentes que ganhou dos amigos. Para comemorar seus 70 anos, arrumou a maioria desses objetos em uma grande mesa, convidou os amigos e disse que poderiam levar com eles o que quisessem. Preferiu guardar as lembranças somente na memória.

Cultivar relações significativas de amor e de amizade é vital para a construção do bem-estar que nos possibilita enfrentar situações difíceis e celebrar a vida em suas diversas etapas. O abraço do aconchego, que ampara, conforta, acolhe nos momentos difíceis e nos inunda de alegria nos bons momentos de encontro.

Mas há quem cultive o desapego nos relacionamentos, pelo medo de amar e de ser abandonado, de precisar do outro e não poder contar com ele. E então se refugia na crença de que não precisa de ninguém.

E, para alguns, o mais difícil é se desapegar de ideias, de símbolos de status, do poder conferido pelo cargo que ocupam.

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Separação e novos amores na maturidade

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Na travessia do tempo, determinação e coragem para desbravar caminhos.(Fotografei no Museu de Arte Naif, em Zagreb, Croácia).

Esse foi o tema do debate em um programa de rádio do qual participei. Com um número crescente de pessoas vivendo mais tempo e com melhor qualidade de vida, há oportunidade de fazer novos projetos, expandir interesses, mudar de profissão, fazer novas amizades e iniciar relacionamentos amorosos após a separação ou a viuvez. Quando um ciclo termina, outro começa. Afinal, o amor é eterno, mas os amados podem mudar…

Não é fácil fazer a travessia das perdas, mas elas são inevitáveis na vida de todos nós. Vida que segue. O tempo necessário para digerir perdas importantes é muito variável. Porém, quando a separação resulta em descrença da possibilidade de ser feliz com outra pessoa torna-se ainda mais difícil abrir o coração. Isso acontece quando nos deixamos tomar pelas lembranças amargas da desilusão e da decepção. Reconhecer que, apesar das dificuldades que surgiram e resultaram na separação, essa relação teve bons aspectos e “deu certo por um certo tempo”.

Amores e desamores fazem parte da nossa história e contribuíram para o que somos hoje. Apesar de ser mais fácil acusar o outro e responsabilizá-lo pelos problemas, reconhecer o que fizemos nos aspectos bons e ruins do relacionamento que terminou é essencial para nosso desenvolvimento pessoal.

O preconceito social contra o envelhecimento, juntamente com a excessiva valorização do corpo jovem, faz com que muitas pessoas (sobretudo as mulheres) se sintam invisíveis (“Ninguém mais olha para mim”). Isso inibe e desencoraja possíveis aproximações. No entanto, amar  é possível em qualquer idade – rugas e pele flácida não impedem a atração e o desejo para os que ousam perceber a beleza essencial.

A sexualidade madura pode ser ainda mais prazerosa do que na juventude quando nos libertamos da tirania do desempenho (a “transa como deve ser”) e da vergonha do corpo “imperfeito”. Isso possibilita um autoconhecimento mais refinado dos próprios caminhos do prazer e a percepção mais acurada do corpo sensível da pessoa amada. Quando atingimos essa etapa, descobrimos que a pele de todo o corpo é uma grande zona erógena que pode revelar novos matizes do prazer pela exploração da sensualidade e do erotismo, com criatividade, ternura e capacidade de brincar.