Arquivo mensal: outubro 2016

Construindo a própria vida

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A conversa com Amarildo, que fotografei em Igatu (BA), revelou uma trajetória de vida muito peculiar.

Como psicoterapeuta, sempre me fascinei acompanhando trajetórias de vida. Como construímos nossas vidas a partir de nossas escolhas e de como reagimos ao inesperado, ao imprevisível? O que fazemos com o que fazem conosco? Abandonamos um sonho ou um projeto por conta do medo de não dar certo? Em que extensão lamentamos nossos erros em vez de aprender com eles?

Ao entrevistar pessoas de várias cidades brasileiras para minha pesquisa sobre construção da felicidade e do bem-estar, tenho encontrado trajetórias de vida muito peculiares. A conversa com Amarildo, 52 anos, foi marcante. Ele mora em Igatu (BA), que, no dia em que o entrevistei, tinha 381 habitantes, mas, naquela noite, provavelmente nasceria o próximo morador. Há 21 anos, ele escreve (à mão, não gosta de computador nem de celular) sobre os acontecimentos do dia a dia dessa comunidade e, dessa forma, registra a história da cidade e de sua gente. Sabe quem nasce, quem morre, quem chega, quem sai, quem se casa, quem se separa.

Filho de um garimpeiro e de uma dona de casa, tem dez irmãos. Lutou contra a timidez para conseguir ser professor. Mora com a esposa e uma filha, e montou uma pequena loja em sua própria casa, em cuja porta está escrito “Entre e compre alguma coisa”. Faz questão de andar sempre bem arrumado para inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo. Metódico e perfeccionista, confecciona à mão relatos sobre sua vida, inclusive como fã ardoroso de Xuxa e de Roberto Carlos, e os vende para os interessados. Diz que é feliz porque faz o que gosta.

Cada escolha que fazemos e cada maneira de reagir ao que a vida nos apresenta define uma parte de nossa trajetória e exclui muitas outras possibilidades. Acho útil, de tempos em tempos, fazer uma reflexão sobre a trajetória que estou construindo. Onde quero chegar? O que ainda faz sentido e do que preciso abrir mão? O que realmente importa nessa etapa de vida em que me encontro? De que outras formas posso olhar para o meu passado e descobrir novos significados? São perguntas que estimulam a reflexão e aprofundam o autoconhecimento.

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“Estou estressada e exausta”!

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Contemplar a beleza é um dos caminhos para construir bem-estar. (Fotografei em Fernando de Noronha).

Sobrecarga de tarefas e compromissos, problemas na família e/ou no trabalho, preocupação com a economia em recessão, malabarismos com o orçamento doméstico. Sobram fontes de estresse na vida de muita gente. As pessoas que conversam comigo sobre sua exaustão, me perguntam: Como restaurar o equilíbrio?

Gosto de trabalhar com a estratégia de pequenas e progressivas mudanças no cotidiano, para construir o bem-estar mesmo em cenários turbulentos. Para algumas pessoas, é útil escrever quais são os problemas e criar estratégias para solucioná-los, começando por estabelecer prioridades. Por onde começar, por exemplo, a reorganizar o orçamento doméstico? Ou reduzir o tempo gasto em atividades que, na verdade, não são essenciais? Pensar também com quem seria útil trocar ideias. Se está com sobrecarga de tarefas, decidir o que pode deixar de fazer e como conseguir mais cooperação, por exemplo, das pessoas da casa (especialmente dos filhos que não costumam participar das tarefas domésticas).

Há quem pense que cuidar bem de si é egoísmo. Mas, para cuidar bem dos outros, não podemos nos abandonar ou nos colocarmos no último lugar da fila. Com múltiplas exigências e enfrentando várias dificuldades, acumulamos estresse e ficamos à beira da exaustão. Que atividades nos ajudam a descarregar estresse? “Não tenho tempo para fazer ginástica”, mas que tal dançar em casa, até com as crianças que adoram fazer isso? Alguns minutos contemplando o céu, nuvens, pássaros, árvores, agradecendo a vida. Em qualquer momento do dia, respirar fundo três vezes também é eficaz para relaxar. O importante é criar tempo e condições para expandir, pouco a pouco, ações eficazes para construir o bem-estar.

Alimentar preocupações e pensamentos catastróficos (imaginar que sempre acontecerá o pior) contribui para o estresse crônico que conduz à exaustão e nos adoece. Muita gente tece enredos tenebrosos de sua vida futura, como se tudo que é temido fosse realmente acontecer. “Morro de medo de ficar viúva, sou muito dependente dele, minha vida ficará um caos”. Esse caos é imaginado em detalhes, trazendo muito sofrimento. Ela pode morrer antes dele, ela pode desenvolver autonomia que fortalecerá a confiança de gerenciar a própria vida, entre outras possibilidades. É útil desenvolver uma conversa interna, em que seja possível questionar o medo e pensar em cenários mais favoráveis. Examinar a qualidade de nossos pensamentos pode abrir espaço para construir bem-estar.