Arquivo mensal: novembro 2016

Micro autocuidado

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Mesmo com pouco tempo disponível, é possível cultivar o bem-estar. (Fotografei na Finlândia).

Respirar fundo três vezes algumas vezes por dia; prestar atenção no prazer de ensaboar e enxaguar as mãos; dois minutos de pausa para contemplar as nuvens; um minuto com os olhos fechados, prestando atenção na respiração; alongar braços e pernas após um tempo mergulhado em e-mails; fazer movimentos para relaxar pescoço e ombros, regiões do corpo que mais acumulam tensões. Pequenas ações, feitas com frequência no decorrer do dia, para se consolidarem em hábitos. Esse é o conceito de micro autocuidado, para quem diz que não dispõe de tempo para cuidar de si mesmo.

Profissionais de saúde podem fazer isso entre um cliente e outro, assim como mães de crianças pequenas que demandam muita dedicação, professores com grande carga horária de aulas, advogados estressados com prazos de processos. Enfim, todos nós. Para cuidar bem dos outros é preciso cuidar bem de si mesmo! Principalmente quando somos nosso próprio instrumento de trabalho.

Em neurociência, o conceito de neuroplasticidade autodirigida sugere que é possível criar novos caminhos neuronais em nosso cérebro fazendo repetidamente essas pequenas ações. A qualidade dos vínculos que temos com os outros e conosco mesmos modelam e remodelam as redes neuronais. Em termos de micro autocuidado, menos é mais.

Mesmo quando conseguimos criar tempo para saborear com calma o que comemos, tirar uma soneca depois do almoço, conversar descontraidamente com pessoas da família e amigos, dar uma longa caminhada ou fazer uma aula de dança, aproveitar as pequenas janelas de tempo para cultivar o hábito do micro autocuidado traz enormes benefícios para descarregar o estresse, renovar a energia e a disposição e estimular a sensação de bem-estar.

E você? O que pode fazer para ampliar seu repertório de micro autocuidado? Se ainda nem pensou nisso, que tal começar?

Sugestões de artigos sobre o tema:

http://www.courtneypinkerton.com/2012/09/27/micro-self-care/

http://www.goodtherapy.org/blog/no-time-for-self-care-simple-micro-practices-to-the-rescue-0601154

http://www.mindfulreturn.com/micro-self-care-a-necessity-for-new-mamas/

https://psychotherapynetworker.org/blog/details/993/who-says-self-care-has-to-be-monumental?utm_source=Silverpop&utm_medium=email&utm_campaign=111216_pn_i_rt_WIR_8amSTO

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“Sou um deficiente eficiente”!

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Há circunstâncias que nos impelem a atravessar caminhos difíceis. (Fotografei no Grand Canyon, Califórnia).

Foi assim que M. (58) se definiu, ao dizer que teve que abrir mão de muitas coisas por ser deficiente físico. De família de baixa renda, passou por múltiplas cirurgias na infância, e é cadeirante. Para ele, felicidade não é ficar rico, é se dar bem com as pessoas e acordar sempre sorrindo, mesmo quando sente dores físicas. Nesses momentos, o melhor a fazer é pegar seu violão e compor ou, então, escrever alguma coisa.

Eu o entrevistei para minha pesquisa sobre construção da felicidade. Em vários momentos, M. revelou ter muita autonomia em seu cotidiano, uma enorme alegria de viver e de transmitir sua arte.

O cineasta e fotógrafo Yann Arthus-Bertrand entrevistou duas mil pessoas em sessenta países para compor o maravilhoso documentário Humano, em que apresenta um painel sobre a diversidade e as semelhanças entre o que as pessoas sentem sobre temas tais como amor, felicidade, guerra, trabalho, pobreza, relações familiares, deficiências. Um depoimento impressionante foi o de um homem que perdeu as pernas. Ele diz: “Com isso, acabei aprendendo a ver melhor, a ouvir melhor e a perceber o mundo de outra forma a partir da perspectiva da minha cadeira de rodas. Se Deus aparecesse e me dissesse que me daria duas pernas novas de presente, eu agradeceria e diria que me sinto muito bem como estou agora”.

Como lidamos com nossas dificuldades, deficiências (todos nós temos algumas), desafios, problemas? O que é possível desenvolver a partir de uma grave limitação?

Os dois casos que mencionei são de limitações físicas. No entanto, o mesmo se aplica a outros contextos. Nessa época de recessão da economia, muitos estão se defrontando com graves limitações de orçamento, desemprego ou cortes/atrasos de salários. Desenvolver a flexibilidade mental para se ajustar às circunstâncias difíceis, reprogramar a vida, buscar alternativas possíveis para enfrentar a deficiência de recursos, aprender a viver melhor com menos. Estes são caminhos necessários para navegar pela crise sem se afundar no desânimo ou na amargura.

O depoimento que vi no documentário Humano está em: https://www.youtube.com/watch?v=w0653vsLSqE