Arquivo mensal: janeiro 2017

O convívio com os filhos pré-adolescentes

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A escultura hiper-realista de Ron Mueck, que fotografei no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, em 2014.

Muitos pais se surpreendem com as mudanças que percebem em seus filhos e filhas entre nove e doze anos. Uma crescente habilidade para argumentar e defender seus próprios pontos de vista quando os pais colocam limites que contrariam seus desejos. A maior proximidade e influência do grupo de amigos. A necessidade de serem mais independentes. O humor que oscila. Enfim, grandes mudanças no corpo, nas emoções, no comportamento, no modo de expressar o que sentem e o que pensam. Eles próprios se estranham diante dessas rápidas e intensas transformações.

Construir um relacionamento familiar sólido também nessa etapa do desenvolvimento é a melhor maneira de evitar problemas na turbulência da adolescência.

Algumas décadas de prática no atendimento de famílias (além de ser mãe de um casal de filhos que já passaram por essa etapa) me mostram as questões mais frequentes:

  • Necessidade de ser escutado e compreendido – essa etapa é de grandes descobertas em relação ao mundo e às pessoas. Desenvolvem visão crítica sobre os acontecimentos e sobre o que as pessoas fazem, ampliam seus interesses e exploram novos temas. Pais curiosos e interessados em conhecer melhor essas descobertas escutam com atenção, fazem perguntas (e não interrogatórios) para entender os pontos de vista dos filhos e, com isso, conseguem expandir os temas de conversa em família. Pais que se apressam em dar sermões, criticar na base do “você está errado, não tem experiência de vida”, restringem o diálogo e promovem o afastamento.
  • Tempo de convívio – mesmo com as agendas cheias de compromissos, é possível criar tempo para conversas em particular ou com todos (na ida para a escola, no lanche de fim de semana em que todos vão para cozinha, em um programa que atraia o interesse de todos).
  • A dificuldade de equilibrar deveres e prazeres – a atração por videogames, redes sociais e outras brincadeiras é poderosa.  Quase sempre, o tempo reservado para o estudo e demais tarefas é invadido por essas atividades. É preciso haver acordos e limites bem claros para desenvolver hábitos de estudo, responsabilidade com os próprios pertences e cooperação com as tarefas domésticas.
  • Hábitos de autocuidado – em geral, os pré-adolescentes ainda não sabem cuidar bem de si mesmos com autonomia e, portanto, a orientação sobre tempo adequado de sono, alimentação, exercícios físicos e higiene pessoal continua sendo necessária, mesmo quando aparentemente eles se rebelem quanto a isso.

 

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Riscos globais 2017 e a educação

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O fluxo da água das cachoeiras me faz lembrar da mutação incessante do mundo (Fotografei na Chapada das Mesas, MA).

A cada mês de janeiro, gosto de ler o relatório do Fórum Econômico Mundial sobre os riscos globais e pensar como famílias e escolas podem preparar crianças e adolescentes para viver nesse mundo. Em anos recentes, a ênfase tem sido na necessidade de fortalecer a resiliência para enfrentar as múltiplas transições que chegam com inúmeras incertezas. Este ano, a ênfase é na necessidade de fortalecer a cooperação.

Sobre as múltiplas e complexas transições o relatório destaca: a migração para uma economia de baixo carbono; a mudança tecnológica cada vez mais acelerada; o equilíbrio geopolítico, com a questão da desigualdade e da polarização da sociedade em termos étnicos, religiosos e culturais.

Para lidar com essas transições, é preciso pensar em investimentos a longo prazo e fortalecer a cooperação internacional. Até mesmo porque há áreas globais em comum (oceanos, qualidade do ar, mudanças climáticas) que causam impacto em todo o planeta. Por exemplo, a escassez de água ou eventos climáticos extremos ocasionam a migração involuntária de milhões de pessoas que vivem em áreas mais vulneráveis.

Embora as mudanças climáticas extremas estejam crescendo mais rapidamente do que as ações destinadas a mitiga-las, o relatório destaca o aumento significativo do uso de energias renováveis (cujo custo está se reduzindo) e do manejo sustentável de florestas.

A chamada Quarta Revolução Industrial está delineando enormes mudanças na maneira de trabalhar e de viver. Com o avanço acelerado da automação, da robótica e da inteligência artificial, muitos postos de trabalho estão desaparecendo, os estilos de trabalho estão mudando, assim como a proteção ao emprego, e a tendência crescente é o aumento do trabalho autônomo, temporário ou em tempo parcial.

Nesse cenário, nas famílias e nas escolas, é essencial estimular a cooperação e o trabalho em conjunto, propostas para pensar coletivamente soluções inovadoras para problemas em comum, o consumo consciente, a flexibilidade para se ajustar a grandes variações do orçamento doméstico e o desenvolvimento de múltiplos talentos e habilidades para poder atuar em diferentes áreas, que nem sempre estarão diretamente relacionadas com a formação acadêmica escolhida.

Para ler o resumo do relatório:

https://www.weforum.org/agenda/2017/01/global-risks-in-2017

Para ler o relatório completo:

http://www3.weforum.org/docs/GRR17_Report_web.pdf

Eles se odeiam, mas não se separam!

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Há relações que ferem com fogo e com gelo (Fotografei em Pucón, Chile).

“O amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões” e “o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões” são duas frases pinçadas de As aparências enganam, composição de Tunai e Sérgio Natureza, que gosto de ouvir na magnífica interpretação de Elis Regina.

Como terapeuta já vi muitas pessoas atravessarem décadas unidas por essa mescla de raiva, desprezo, ódio, amor e cumplicidade. Padrões trançados de dependência em que as respectivas loucuras se complementam. Casais, pais e filhos, irmãos. Relacionamentos rompidos, às vezes refeitos. Raiva quente e raiva gelada. Brigas violentas, explosivas ou a geleira da indiferença, do afastamento, do abandono. Uma capa de indiferença (“não quero mais nada com meu pai”) escondendo a mágoa doída pela percepção da ausência quando precisava de presença.

Casais que se separam, mas permanecem casados pelo ódio, pelos ataques recíprocos, os filhos no meio do tiroteio com os pais que se desqualificam e cobram lealdade (“se continuar defendendo sua mãe estará contra mim”). Pessoas imobilizadas pelo ressentimento, culpando o outro por sua própria infelicidade. O outro pode ter feito coisas que nos machucaram, mas somos nós que escolhemos nutrir a permanência dessa dor ou transformá-la.

Giovani, 42 anos diz: “Desde pequeno ouço minha mãe gritar que não aguenta mais meu pai, que vai se separar e viver a vida. Eles se odeiam, é briga o tempo todo, xingamento, agressões pesadas. Não entendo como ainda estão casados!”

O que liga esses casais? Às vezes, a briga é combustível para um bom sexo. Às vezes, é a distância segura que protege do medo da intimidade. E há os que gostam de “brincar de gangorra”, desqualificando o outro para se sentir superior. Muita gente sente medo da solidão (“ruim com ele, pior sem ele”), difícil aprender a curtir a própria companhia. Ou medo de mudar, sair da “zona de conforto” por mais desconfortável que esteja.

Os caminhos do amor e do desamor são complexos e misteriosos (até mesmo para terapeutas de família)!