Arquivo mensal: fevereiro 2017

Conheça a vida selvagem: tenha filhos!

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Passear com crianças que não conseguem aceitar limites dá um trabalho danado!

Sempre achei graça ao ver esse adesivo colado no vidro traseiro de alguns carros. Mas, como terapeuta de famílias, cuidei de algumas famílias caóticas, em que as crianças faziam o que queriam com pais e avós impotentes, com dificuldades de colocar qualquer tipo de limite.

Recentemente, ao fazer trilhas em uma pequena cidade do interior, conversei com uma condutora ambiental que aceitava famílias com crianças para fazer alguns passeios. Enérgica e firme, ela me relatou algumas situações em precisou ser incisiva com crianças rebeldes e descontroladas.

“Estávamos fazendo uma trilha margeando um rio encachoeirado, dentro da mata. No meio do caminho, a menina de 12 anos empacou e disse que não iria mais andar, que eu a teria de carregá-la no colo. A mãe, com voz suave e nada convincente, implorava que a filha continuasse a caminhar. A menina, sentada em uma pedra com os braços cruzados e a cara amarrada, nem se movia. Nessa trilha, cada trecho do rio entre pequenas quedas d´água tinha uma placa com o nome de um animal. Por acaso, a menina empacou em frente ao “Rio da Onça”. Não tive dúvidas: cheguei perto dela e falei baixinho que iríamos continuar a caminhada e ela ficaria lá, correndo o risco de ver uma onça chegar para beber água. Comecei a andar devagar e fiz sinal para a família me seguir. Imediatamente, a menina se levantou e foi conosco. No final da caminhada a mãe perguntou o que eu tinha feito para a filha me atender tão prontamente”…

Em outra situação, uma família com os pais, a avó e dois meninos com bastões de madeira nas mãos entrou na agência onde ela trabalha para decidir qual passeio fariam. Pouco depois, os dois anunciaram que iriam quebrar uma das cadeiras. “A avó suspirou conformada, disse que eles já haviam quebrado muitas coisas em sua casa e que ninguém conseguia controlá-los. Os pais se entreolharam sem saber o que fazer, enquanto os dois meninos começaram a atacar uma cadeira. Eu me levantei, olhei sério para eles, e disse com a voz bem firme que eles não poderiam fazer isso, caso contrário, eu não os atenderia e todos ficariam sem passeio. Eles ficaram tão surpreendidos que nem ofereceram resistência quando eu tirei os bastões das mãos deles e os coloquei em cima da minha mesa, dizendo que, no final da conversa, eu os devolveria”.

Tenho um casal de filhos, mas nunca me senti vivendo uma vida selvagem. Fui criada com amor e disciplina e fiz o mesmo. Como terapeuta de família, já atendi muitos pais perdidos e confusos com crianças tirânicas e descontroladas. Inseguros, temendo serem vistos como autoritários, não conseguiam exercer a necessária autoridade parental. Para muitas crianças, aprender a controlar a impulsividade e a discernir entre ações adequadas e inaceitáveis é um longo processo. Para isso, precisam construir o freio interno do respeito pelo território alheio e perceber que nem sempre é possível fazer o que queremos na hora ou do jeito que desejamos. No início desse caminho, é essencial contar com o freio externo dos limites colocados com firmeza, coerência e consistência.

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“Não há mais o que fazer”…

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No ciclo da vida, viver cada dia em plenitude (Fotografei na Patagônia chilena).

Fiquei emocionada ao assistir “A morte é um dia que vale a pena viver”, palestra TED com a médica Ana Cláudia Quintana Arantes, que se dedica a oferecer cuidados paliativos para as pessoas que estão no fim da vida, a partir do momento em que muitos profissionais dizem que não há mais nada a ser feito.

Ela esclarece que “paliativo” vem de “pallium”, um manto que era colocado nas costas dos cavaleiros das Cruzadas para protegê-los das intempéries. E, nesse sentido, cuidados paliativos significa proteger do sofrimento, tratar do controle dos sintomas aliviando ao máximo o sofrimento físico para cuidar melhor das demais dimensões do sofrimento (emocional, familiar, social, espiritual). Visto dessa forma, há muito a fazer para cuidar de pessoas mesmo quando a doença não tem cura e segue seu curso inevitável.

Eu trabalhei em hospitais com equipes de saúde e coordenei muitos grupos de relacionamento médico-cliente-família. O final da vida breve de alguns bebês internados em UTI Neonatal e os últimos dias de uma vida mais longa de adultos e idosos me fizeram ver que há muito a ser feito na assistência a pessoas que estão morrendo e a suas famílias. Todos nós temos muito a aprender sobre a vida quando a olhamos pela perspectiva da morte.

Já tendo passado dos sessenta, tenho acompanhado o fim da vida de muitas pessoas queridas, da família e do grupo de amigos. Quando a morte não chega repentinamente, como em um acidente fatal, é possível aprofundar a percepção do sentido da vida, rever a própria trajetória, expressar gratidão, refazer vínculos, aproveitar da melhor forma o tempo que resta.

Mas, independentemente da idade que temos, não sabemos quanto tempo temos pela frente. Qual o sentido que estamos encontrando para nossa vida? Como estamos nutrindo nossos vínculos afetivos? Como estamos aproveitando o privilégio de viver?