Arquivo mensal: julho 2017

Memórias afetivas e comemorações

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Revisitamos o passado nos voos da memória e da imaginação. (Fotografei em Peruíbe, SP).

O grupo de amigos que conversou sobre esse tema saboreou recordações que vão tecendo a história de vida de cada um.

  • Aos 68 anos, ainda preserva com nitidez as lembranças do lugar em que passou a infância, com a natureza preservada, rios com abundância de peixes, muitas árvores frutíferas e o avô que o levava para conhecer o canto dos pássaros. Hoje, o rio está poluído e sem peixes, mas quando ele retorna a esse lugar, recorre à memória para reconstruir o lugar mágico de outrora.
  • A caçula da família, com irmãos bem mais velhos, que não dispunha de muito espaço pessoal em casa, lembra com alegria da casa da avó em que havia um cantinho só para ela.
  • As férias na fazenda dos tios, em que podia andar a cavalo, correr à vontade, comer o que quisesse, enquanto em casa a mãe rígida e controladora cerceava seus passos. Hoje, com mais de 70, vivencia a mesma sensação de prazer e liberdade quando retorna a esse paraíso das férias da infância.
  • O quanto nossas memórias afetivas antigas tecem as escolhas de caminhos de vida? A lembrança dos pais que adoravam organizar refeições saborosas e o prazer que manifestavam ao ver a filha comer. E ela, há muitos anos, sente prazer ao ver pessoas saboreando a comida que oferece em seu restaurante.
  • As lembranças boas da fase de paixão e encantamento, as lembranças doloridas dos desentendimentos que conduziram ao desamor e ao rompimento da relação. Algumas pessoas preferem reforçar as boas lembranças e deixar passar os episódios amargos, outras reagem exatamente ao contrário.
  • Alguns relataram a importância das comemorações natalinas e de aniversário, celebrando a vida com os que estão próximos, mas recheadas de saudades dos que já partiram.
  • Refletimos sobre as vivências das crianças que crescem em comunidades em que predomina a violência e em famílias que não conseguem construir vínculos seguros e acolhedores. Memórias afetivas traumáticas surgem, recorrentes, em pesadelos e em ataques de pânico disparados por mínimos detalhes, fazendo reviver o terror.
  • Por outro lado, as imagens do cérebro em tempo real mostram como os circuitos neurais literalmente se iluminam quando buscamos ativamente as lembranças de bons momentos muito significativos, o que produz de novo a alegria e o bem-estar que age como um bálsamo.

Memórias afetivas são feitas de conexões, vínculos significativos que constroem nossa história de vida. E as comemorações congregam pessoas que se juntam para celebrar a vida.

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A arte de viver com arte

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Contemplar obras de arte e também a arte da natureza é um exercício do olhar (Fotografei em um museu em NY).

Podemos fazer da nossa vida uma obra de arte – assim definiu uma participante do grupo de conversa sobre esse tema. Como “esculpimos”, “pintamos” ou “compomos” cada dia?

Como despertamos a cada manhã? Com um mau-humor tenebroso, reclamando por ter de enfrentar mais um dia do trabalho ou da escola que odiamos? Como mais uma sequência de rotinas entediantes? Como mais um dia igual aos outros, depois que nos aposentamos, sem construir novos projetos ou interesses?

Consideramos cada dia como mais uma oportunidade? Para isso, é preciso nutrir a curiosidade, que nos permite explorar novas possibilidades, criar coisas novas, desenvolver talentos até então inexplorados.

Podemos desenvolver a atenção plena, segundo os princípios de “Mindfulness “: exercitar o foco de atenção no aqui e agora, evitando estragar o dia com ansiedades em relação ao futuro ou lamentações e frustração com o que passou. O que, na verdade, temos para viver é o momento presente. Podemos exercitar nosso olhar para captar a beleza das pequenas coisas do cotidiano, da natureza ao nosso redor, e não apenas para contemplar obras de arte nos museus.

Com o que estamos contribuindo para a coletividade? Há muitos jovens que, desde o início de sua vida profissional, buscam uma vida com propósito, para sentir que podem colaborar para que tudo funcione melhor. No mundo complexo, instável e imprevisível no qual estamos vivendo, é importante que famílias e escolas consigam educar as crianças desde cedo para a cooperação, promovendo a ética e os valores que sedimentam a boa convivência.

Viver com arte é tecer conexões, incentivar a colaboração para o bem-estar coletivo, “bordar” cada dia com esmero, valorizando os detalhes, saboreando os bons momentos. É deixar florescer a sensibilidade, o afeto, a intuição, abrir outros canais da mente e dos sentimentos, perceber sutilezas e matizes, encontrar a poesia no cotidiano, “enfeitar” a rotina para que ela não se transforme em tédio e em “mais do mesmo”.