Arquivo mensal: agosto 2017

É possível blindar a dor?

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A vida é efêmera: aproveite o melhor de cada dia!

Essa foi uma das perguntas da entrevista que dei para uma revista. Não é possível blindar eficazmente a dor, e nem é necessário, porque é a capacidade de sentir dor e sofrimento que abre a possibilidade de sentir alegria e prazer. Quem tenta se anestesiar para a dor, também fica frio para os demais sentimentos. Não adianta se proteger com uma carapaça para blindar o sofrimento. Muitos tentam fazer isso recorrendo às drogas ou se se aprisionando em compulsões para aliviar a angústia, mesmo que por um breve tempo. Mas é preciso buscar suas raízes.

Não adianta sufocar nenhum sentimento dentro de nós, porque eles sempre encontrarão caminhos para se expressarem, inclusive por doenças em nosso corpo. Na letra de “Revelação”, música composta por Clodô e Clésio, vemos que o “sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar”, expressão poética do conceito freudiano “retorno do reprimido”.

Dores, perdas e sofrimento fazem parte do caminho da vida de todos nós. Alguns carregam fardos mais pesados do que outros, mas é importante saber que tudo isso são oportunidades de aprender a fortalecer a fé e a espiritualidade, a criar recursos para superar os obstáculos, a buscar o sentido mais profundo da vida. As diferentes experiências abrem novas dimensões em nossa maneira de ser e de entender o mundo.

A morte de uma pessoa querida nos coloca diante do desafio de compreender que cada um tem seu tempo de vida, que às vezes é muito breve, como acontece quando morre um bebê ou uma criança pequena. Essa pessoa vem com uma mensagem de amor para a família. E continuará viva no amor de todos aqueles que conviveram com ela, mesmo quando sua passagem por esse mundo foi muito breve. É preciso entender também que essa vida terrena é apenas uma parte de uma vida maior, que continua após o término da “embalagem” do corpo físico.

Doenças graves ou crônicas: quando acontecem conosco, precisamos entender que, por mais fortes que pensamos ser, também temos fragilidades, somos perecíveis. É uma oportunidade de rever orgulho, vaidade, arrogância para aceitar a ajuda e a dedicação de quem está disposto a oferecer cuidados. Se a enfermidade acontece com um ente querido, é a oportunidade de oferecer presença amorosa e reconfortante, generosidade, aproveitar o tempo de convivência que às vezes falta quando todos estão assoberbados de tarefas e compromissos.

No cenário atual, a perda do emprego atinge milhões de pessoas e suas famílias. O desafio é enfrentar o medo, a insegurança, o desânimo e até o desespero. Isso ajuda a encontrar forças para buscar novas oportunidades, muitas vezes em áreas totalmente diferentes daquelas em que a pessoa trabalhava, superar os sentimentos de vergonha e humilhação para aceitar ofertas que julgava  “inferiores”, ampliar competências, desenvolver novos talentos, fortalecer os laços com a família para pensar soluções em conjunto e reorganizar o orçamento doméstico, perceber a diferença entre o que é realmente essencial e o que passa a ser supérfluo, para conseguir viver melhor com menos recursos materiais.

Há pessoas que entendem com mais facilidade que o sofrimento é parte inevitável da vida. Por outro lado, há os que “fabricam” sofrimento: não conseguem sentir gratidão pelo que a vida lhes oferece, reclamam de tudo e de todos, prestam atenção somente ao que não conseguem obter, cultivam mágoas e não conseguem compreender os benefícios do perdão. Por isso, vemos pessoas que se sentem felizes apesar de enfrentarem inúmeros problemas e pessoas que se sentem péssimas mesmo quando, aos olhos dos outros, vivem com “tudo para serem felizes”.

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Ganhadores, perdedores e os benefícios do fracasso

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Fracassos fazem parte da caminhada pelas trilhas da vida (Fotografei em Ilha Grande-RJ)

Conversei sobre esse tema com um grupo de amigos, após assistir ao emocionante vídeo do discurso de J.K.Rowling, a autora de Harry Potter, para formandos de Harvard abordando os benefícios do fracasso em sua vida e refletindo sobre o poder da imaginação para o cultivo da empatia.

O que é sucesso, o que é fracasso? Há ocasiões em que ganhamos algo sem perceber o que perdemos com esse ganho. Há momentos em que parece que perdemos algo que muito desejamos e não percebemos o ganho que essa perda permitirá em futuro próximo. Muitas pessoas que são um sucesso comercial são medíocres, ao passo que muitos são talentosos nas sombras, jamais chegam a ser reconhecidos. Muitos pintores hoje famosos eram considerados fracassados quando ainda vivos.

A sociedade nos impõe critérios de sucesso que nem sempre se encaixam em nossa essência – diz Rowling, que passou por muitos fracassos em sua trajetória: foi demitida de vários empregos, passou por um casamento traumático, viveu um período dependente da assistência social, sozinha com a filha pequena, teve o original de Harry Potter recusado por várias editoras. Para ela, os benefícios do fracasso foram: despojar-se do que não é essencial, desenvolver a determinação de concretizar o sonho de ser escritora; ver o fundo do poço como alicerce para reconstruir a vida; autoconhecimento, que permitiu desenvolver força de vontade e confiança na própria capacidade de sobreviver às adversidades.

É impossível viver sem passar por fracassos. Com 40 livros publicados, também já tive originais recusados por algumas editoras, e alguns que não passaram da primeira edição. Na vida pessoal, alguns relacionamentos afetivos que desandaram. Persistência, esperança de melhores oportunidades e flexibilidade para encontrar novos caminhos sempre me ajudaram a conviver com as frustrações.

O que representa “chegar ao topo”? Há artistas ou esportistas que se deprimem após receber o “prêmio máximo”. O que vem depois de toda essa glória? Muitos se paralisam pelo medo de não conseguir superar a própria marca, como acontece com escritores que se bloqueiam após escrever um livro de grande sucesso.

Não é fácil confrontar-se com a própria sombra, para olhar de perto aspectos menos apreciáveis em nós mesmos, especialmente quando nos regulamos por padrões sociais que definem sucesso como acúmulo de bens materiais que simbolizam status ou reconhecimento maciço da mídia, incluindo milhares (ou, de preferência, milhões) de seguidores nas redes sociais.

Por outro lado, há pessoas que não conseguem suportar o sucesso. Sentem-se oprimidas, sobrecarregadas com as próprias exigências e pela obrigação de corresponder às altas expectativas da família ou da sociedade. E há os que caem frequentemente na teia da autossabotagem, e fazem de tudo para que nada dê certo. Até por conta de aceitar inconscientemente o “carimbo” que a família lhe reservou (“você não vai dar para nada”). O olhar da família e da sociedade tem o poder de validar ou de invalidar, influenciando a autoimagem.

A questão é como podemos evoluir para ser o melhor de nós mesmos, sem necessariamente se medir com os outros ou internalizar sem análise crítica as definições de sucesso e de fracasso impostas pela sociedade.

O vídeo mencionado pode ser acessado pelo link:

https://www.google.com.br/search?q=rowling+harvard+speech&oq=rowling+harvar&gs_l=psy-ab.1.0.0j0i22i30k1l3.2671.13005.0.15086.24.23.1.0.0.0.125.2148.20j3.23.0….0…1.1.64.psy-ab..0.24.2148…0i10k1j0i131k1j0i67k1.HUCq_xSou7Y

Eu quero agora!

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Quando vejo o ímpeto das águas de uma cachoeira lembro-me da força do desejo (Fotografei na Chapada das Mesas, no Maranhão).

Nativos digitais desde cedo mergulham na velocidade da internet banda larga. Mas, na vida, não basta um clique para as coisas acontecerem. Um dos temas que mais atormentam os pais é ver os filhos com dificuldade de esperar, de ouvir “agora não” ou “pare de jogar porque é hora de dormir”.

“Quer ver um vídeo engraçado”? – pergunta o menino para a mãe que insiste em dizer que é hora de tomar banho. O fascínio pelos “youtubers” ressalta o desejo de entretenimento perene. Como se motivar para fazer as tarefas escolares ou estudar para as provas? “Eles não respeitam a empregada e a gente trabalha o dia inteiro. Não sei o que fazer para limitar o uso da internet” – lamenta-se a mãe.

“Mas vocês usam o celular até tarde. Se vocês podem, por que a gente não? Temos os mesmos direitos”! – argumenta o filho que ainda nem chegou à adolescência. Difícil perceber a relação entre conquistar mais direitos na medida em que se tem maior carga de responsabilidade e de deveres. É grande a resistência a cumprir ordens e os questionamentos são incessantes: “Por que tenho que fazer o que você manda”? “Eu sou o dono da minha vida”! “Não vou fazer, e daí”?

Muitos pais, acuados diante da força do desejo dos filhos imediatistas, sentem-se sem recursos de ação. “Minha mãe me batia, mas não quero fazer isso com meus filhos”; “Bastava um olhar duro do meu pai e eu me recolhia, agora eu não sei o que fazer quando meus filhos me enfrentam”.

Educar dá trabalho. O processo de entender que nem sempre podemos fazer o que queremos na hora em que desejamos é longo e, muitas vezes, penoso. Limites claros, consistentes e repetidos são necessários, aplicar as consequências devidas quando os combinados não são cumpridos é indispensável. A autoridade parental (que não deve ser confundida com autoritarismo) exercida com firmeza e carinho oferece segurança e contenção para a força dos desejos que tantas vezes transbordam as fronteiras do razoável.