Castigos ou consequências?

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Educar exige atenção amorosa aos pequenos momentos do cotidiano (Fotografei na exposição de Hiroshige, em Paris).

“Qual a diferença entre aplicar castigos e consequências na educação dos filhos”? – foi a primeira pergunta da jornalista que me entrevistou para uma revista portuguesa.

O objetivo das consequências é educar crianças e adolescentes (e até mesmo alguns adultos) para se responsabilizarem pelos próprios atos e fazer reparação de danos. É um modo de reconhecer as repercussões de nossas ações em outras pessoas. Há adultos que não conseguem perceber isso e culpam os outros por tudo que acontece. Não admitem que são, pelo menos em parte, responsáveis pelo ocorrido.

As consequências referem-se diretamente ao que deixou de ser feito ou ao comportamento inadequado: “ Primeiro acabe de fazer os deveres escolares, depois poderá brincar”; “Você rasgou a página do livro de propósito: agora vai ter que consertar o que fez”. Lembro-me de uma conversa com a diretora de uma escola em que vários alunos danificavam mesas e cadeiras das salas de aula. Os castigos tradicionais (advertência, suspensão) não funcionavam. Um dia, contratou um marceneiro para ensinar os “infratores” a consertar o que quebravam. No semestre seguinte, o índice de material danificado foi muito menor. O comentário predominante: “Quebrar é rapidinho, consertar dá um trabalho danado”!

Quando as consequências são aplicadas, a criança e o adolescente entendem melhor a ligação entre seu comportamento e a ação que precisará ser feita para reparar o erro. É também possível combinar antecipadamente com o filho quais as consequências que serão aplicadas: “Percebo que está difícil para você sair das redes sociais para estudar e dormir no horário certo. Nos dias em que você não conseguir fazer isso por conta própria, eu vou guardar seu celular até o momento adequado”. O apelo do prazer e do entretenimento é tão forte que, muitas vezes, é difícil tomar conta de si mesmo sem ajuda externa.

O comportamento inadequado dos filhos muitas vezes deixa os pais enraivecidos e, nessas ocasiões, o castigo costuma ser desproporcional: “Não fez os deveres escolares hoje, então vai ficar um mês sem jogos eletrônicos”. Quando a raiva acaba, o castigo costuma ser esquecido e, no dia seguinte, a criança está com seus jogos eletrônicos novamente. Mas o que ela percebe é que a palavra dos pais não tem credibilidade. Pior é quando o castigo envolve ameaças de perda de afeto: “Se você continuar se comportando mal, eu vou sumir de casa e nunca mais vou ver você”. Isso cria insegurança e medo de abandono.

Educar para a responsabilidade, a cooperação e a percepção de que precisamos contribuir para a coletividade, seja na família, na escola, no trabalho, na comunidade em que vivemos é cada vez mais importante para viver nesse mundo em rápida transição. Isso se solidifica por meio de pequenas ações no dia a dia. É preciso colocar em foco a ação desejada, e dizer isso com firmeza. Por exemplo, se a casa é de todos, todos precisam cooperar para a organização: “Você deixou sua toalha de banho no chão do banheiro. Coloque-a no lugar certo, agora!”; “Hoje é seu dia de lavar a louça do jantar. Faça isso antes de sair para se encontrar com os amigos”.

Aplicar consequências proporcionais ao que foi feito é uma questão de hábito, de criar uma disciplina, educar. Os castigos físicos ou desproporcionais podem estimular o medo, e não o respeito. Educar exige paciência, dá trabalho. Mas, se escolhemos ter filhos, é preciso criar tempo e disponibilidade para isso.

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12 ideias sobre “Castigos ou consequências?

  1. Celsa

    É exatamente o que penso! Perfeita colocação em castigos e consequências? E posso te dizer que educar sim da trabalho, mas é gratificante ter paciência, pois o resultado é muito prazeroso!
    Infelizmente não é a mesma conduta adotada pelo colégio.
    Foi o contrario que o ex-colégio do meu filho fez com os alunos!
    Mesmo com a sua palestra, sendo uma profissional qualificada, dando exemplos e orientações.
    Bjs,
    Celsa Marques.

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  2. Eliezer Andrade

    Isso mesmo, educar filhos exigem paciência disposição e amor.
    Tenho 03 filhos, 03 personalidades diferentes. Às vezes não é tão facil para a compreensão deles quando temos que proceder de maneira diferente…É uma lida..um abraço

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  3. Ruth Goldemberg

    Oi Maria Tereza, como é bom encontrar você no meu site….Faz lembrar os bons tempos de PUC, quando v. ainda era uma garotinha dando os primeiros passos…O Futuro já acenava pra você naquela época, dizendo que tudo ia dar Super-Certo! Beijos, Ruth

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  4. Ana Borges

    Boa tarde! Como agir com uma criança de.1 ano e dez meses? Aplico disciplina, tipo cantinho do pensamento, mas já li que não resolve. Estou mt desacreditada e desestimulada. O que fazer? Se deixar o dia todo vai p a disciplina. É mt cansativo p ele.

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  5. Maria Tereza Autor do post

    Ana, nessa idade a criança vive na lei do desejo: “eu quero agora”! A função do “cantinho do pensamento” é refletir sobre o que fez e dizer o que poderia ser feito em vez do comportamento inadequado. Nessa idade, esse recursos não funciona. Um recurso útil é olhar firme para ele, dizer que aquilo que ele quer não pode e propor outras coisas possíveis. Mas, como a força do desejo é muito forte na criança pequena, ela insistirá muitas outras vezes. É preciso ter paciência, conduzir para outras atividades, sabendo que irá encontrar resistência. Nessa idade, a criança adora explorar novidades e brincar. Será que você está tentando disciplinar acima das possibilidades dele em vez de dedicar tempo para brincar e se divertir com seu filho? Abraços

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    1. Ana Borges

      Oi Mª Tereza, mt obrigada por seus esclarecimentos!
      Vc tem razão, estamos nos equivocando mesmo nesse aspecto.
      Estou um pouco perdida na questão do tempo de qualidade, pois além do filho de um ano e dez, tenho outro bebê de 5 meses, as vezes parece impossível conciliar… Ambos mt dependentes.

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  6. Maria Tereza Autor do post

    Crianças pequenas são realmente dependentes, Ana! Veja o que é possível você deixar de fazer com relação a tarefas que podem ser delegadas a outras pessoas e pense outras possibilidades de criar tempo para conciliar tantos compromissos.

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