Arquivo mensal: outubro 2017

A coragem como base da vulnerabilidade

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Quando confundimos vulnerabilidade com fragilidade deixamos ver ligações e raízes mais profundas que sustentam nossas forças (Fotografei no Jardim Botânico-RJ).

Vulnerabilidade não é sinônimo de fraqueza. É um risco emocional, quando a pessoa decide se expor, e encarar a incerteza dos resultados. Nesse sentido, é a medida mais precisa da coragem de se revelar ao mostrar um novo trabalho, divulgar ideias próprias. É a base da inovação, da criatividade e da mudança. Criar e inovar é fazer algo que não havia sido feito antes. E reconhecer a própria vulnerabilidade ajuda a ter flexibilidade para se ajustar às mudanças.

Essas ideias estão contidas na excelente palestra TED de Brené Brown, da Universidade de Houston, que há anos faz pesquisas sobre vulnerabilidade e vergonha.

Concordo com ela. O “friozinho na barriga” antes de uma palestra ou do lançamento de um livro é uma expressão da vulnerabilidade, que estava ligada à coragem e ao prazer de criar algo não convencional (como, por exemplo, usar minhas composições musicais nas palestras ou encenar um dos meus livros). Como isso será recebido pelo público? A vulnerabilidade se aliou ao desejo de ser mãe. Nas duas gestações, a força e a alegria de abrigar a vida em meu corpo e a dúvida de como eu seria como mãe de cada um deles.

Mas há outros aspectos da vulnerabilidade que não dependem da nossa escolha em se expor e se aventurar em novos territórios. Li uma matéria na revista da United Airlines entrevistando diversos profissionais sobre o tema. Para a terapeuta de casais Esther Perel, a vulnerabilidade, além de existir dentro de nós, existe também na tecnologia e na sociedade (como por exemplo, perseguição e ataques a pessoas de religiões, etnias ou orientação sexual não aceitas pela maioria de um país). Sempre há a possibilidade de sermos atacados física ou emocionalmente. Entre os casais, é comum um ou ambos se sentirem vulneráveis quando revelam aspectos de si mesmos que os envergonham ou que não apreciam. Mas é justamente esse o caminho para aprofundar o relacionamento.

O escritor Tavis Smiley enfatiza que a maioria das pessoas vê a vulnerabilidade no sentido pejorativo, como fraqueza e não como força. Muitos se defendem para não correr o risco de serem rejeitados mas, desse modo, fecham muitas portas na vida e nos relacionamentos.

O termo “famílias em situação de vulnerabilidade social” é entendido, inclusive por muitos profissionais que prestam assistência a essa população, como sinônimo de desestruturação, precariedade, desequilíbrio. A habitação pode ser precária, a renda familiar pode ser insuficiente para prover o mínimo necessário, os relacionamentos podem ser conflituosos mas é muito importante reconhecer os recursos que as pessoas e as famílias utilizam para lidar com a “vulnerabilidade social” e trabalhar para fortalecer e expandir esses recursos. Isso eu aprendi no trabalho voluntário que tenho feito há décadas em algumas ONGs.

Que a gente consiga abraçar nossa vulnerabilidade para dela extrair a criatividade e a ousadia de viver!

A palestra TED de Brené Brown: https://www.ted.com/talks/brene_brown_listening_to_shame

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Viagem ao Japão

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A convivência entre a tradição e a tecnologia moderna (Fotografei em Tóquio, Japão).

 

Um convite do meu filho concretizou uma das minhas metas de vida: fazer uma viagem ao Japão. Compartilho alguma das coisas que mais me chamaram a atenção:

  • Organização, limpeza, respeito pela natureza – No xintoísmo, Deus está em todas as coisas. Para não despertar o “deus da sujeira”, tudo precisa estar rigorosamente limpo. É proibido jogar lixo no chão, fumar na rua, comer ou beber dentro das lojas. A água das torneiras é potável, não é preciso comprar água mineral. Como nas grandes cidades há milhões de pessoas, as filas para os ônibus são bem organizadas, assim como a direção para subir e descer as escadas do metrô.
  • Respeito pelos outros, gentileza – Dentre os mandamentos básicos do xintoísmo incluem-se o dever de não incomodar os outros, não mentir, não trapacear e se contentar com o que tem. Por isso, não há o hábito de dar gorjetas, o que se recebe por fazer um bom trabalho é o suficiente. Não é permitido falar alto em lugares públicos, as pessoas que atendem o público estão sempre sorridentes, tudo é entregue com as duas mãos e uma pequena reverência.
  • No térreo do Umeda Sky Building, em Osaka (em cujo observatório pode-se ter uma visão geral da cidade) há uma horta, em que as crianças das escolas plantam e podem acompanhar o crescimento dos vegetais para ter uma visão da “teia da vida”. Há grandes grupos de crianças e adolescentes visitando templos, santuários e museus.
  • Não há mendigos nas ruas, é proibido pedir esmolas. As Prefeituras oferecem uma renda mensal para quem precisa, mas tudo é rigorosamente acompanhado e controlado. Em grandes cidades, como Tóquio, com 12 milhões de habitantes, vi algumas pessoas dormindo sob viadutos.
  • A cidade de Kyoto, Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, tem cerca de dois mil templos. Os que pude visitar são belíssimos, com trabalhos refinados em madeiras e metais. Há também os santuários xintoístas e grande parte da população se define como budista-xintoísta. Nas orações, pede-se para os outros, não para si próprio.
  • Tradições milenares convivem com a mais avançada tecnologia. Está em moda para as moças alugarem quimonos para passear de riquixá enquanto falam nos celulares. Em alguns banheiros públicos, há sanitários no chão e outros em que é possível regular a temperatura do assento e a intensidade das duchas para higiene.
  • Cerca de 73% do Japão é montanhoso e há muitos vilarejos com casas centenárias, totalmente preservadas, como em Shiragawa-go, em um vale profundo com montanhas cobertas pela mata, com 50 casas com telhados feitos com palha de arroz. Há muita solidariedade e cooperação entre os habitantes.
  • Em Hakone, o passeio de barco pelo lago Ashi e a subida ao Monte Kamagatake pelo teleférico permite ver o Monte Fuji, o mais alto do Japão. Não é muito comum ele estar totalmente visível mas, por sorte, abriu uma pequena janela entre as nuvens e fotografei o topo, nessa época, sem neve.
  • Os jardins japoneses que pude ver em templos, santuários ou próximo ao hotel em Tóquio convidam à contemplação. Transmitem paz, beleza, serenidade, equilíbrio, harmonia. Um grande contraste com alguns bairros de Tóquio, como Shibuya, que achei aflitivos pela grande quantidade de anúncios luminosos e a multidão que se movimenta pelas ruas. Ninguém atravessa fora da faixa ou com o sinal de pedestres fechado.
  • Em Tóquio, gostei de ver uma apresentação no Teatro Kabuki e de visitar o Museu Nacional de Tóquio no Parque Ueno, onde me concentrei nas seções de tesouros nacionais e arte asiática.
  • Quero voltar ao Japão!