Arquivo mensal: janeiro 2018

Leonardo: curiosidade e paixão

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Protótipos de “máquinas voadoras” construídos a partir dos desenhos de Leonardo em seus cadernos (Fotografei na exposição que vi em Paris, 2013).

Gostei muito de ler a biografia de Leonardo da Vinci (1452-1519), considerado o gênio mais criativo da história, escrita por Walter Isaacson basicamente a partir de mais de 7000 páginas de seus cadernos cheios de rascunhos, anotações, desenhos e projetos. Alguns pontos que me chamaram a atenção:

  • Curiosidade insaciável e paixão para aprender- Leonardo gostava de saber “tudo o que há para se saber sobre o mundo” (técnicas de pintura, luz e sombra, estudos de anatomia, engenharia, ciências). Isso o motivou a mergulhar fundo em suas pesquisas.
  • Múltiplas competências – Leonardo atuou como produtor cultural, organizando apresentações teatrais com cenários surpreendentes (os “efeitos especiais” da época), em que anjos pareciam voar e Cristo ressuscitado subia para o céu; tocava lira, cantava e era um ótimo contador de histórias; projetou “máquinas voadoras”, armas de guerra e vários tipos de máquinas; em seus estudos de anatomia, desenhou com detalhes impressionantes o corpo humano (músculos, nervos, artérias e veias) a partir da dissecação de cadáveres; fez esculturas, pintou obras-primas com perfeição (Virgem dos rochedos, A última ceia, Mona Lisa).
  • Criatividade, inovação, ousadia – cientista autodidata, sem medo de errar, Leonardo não se se intimidava com projetos que não davam certo. Alguns foram abandonados, outros não puderam ser executados por falta de recursos. Era livre para voar em sua imaginação, aguçar seu senso de observação (como o voo das libélulas ou o funcionamento do coração de um porco), desenhar objetos que só puderam ser executados séculos depois, sempre buscando integrar ciência e arte.
  • Asas e raízes – com uma grande capacidade de comunicação, Leonardo conseguia convencer governantes e diversos patronos a financiar seus projetos, além de lhe oferecer moradias suficientemente amplas para trabalhar e abrigar assistentes e companheiros amorosos. Asas para imaginar e criar, raízes para equilibrar receitas e despesas, anotando minuciosamente em seus cadernos o que recebia e o que gastava pagando assistentes, comprando roupas para si mesmo e para seus amados, gastos com materiais para seus trabalhos. Além disso, escrevia listas minuciosas do que precisava ou queria fazer e aprender.

E, como se não bastassem tantas qualidades, era descrito como um homem carismático e gentil, extremamente belo e gracioso, com cabelos cacheados, corpo musculoso, elegante em suas roupas de cores fortes. Uau!

 

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Por que comemos?

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Festa de cores e sabores nessa feira que fotografei em Campina Grande (PB).

Comemos para viver ou vivemos para comer? O que nos motiva a ingerir alimentos, nem sempre saudáveis? Comemos quando estamos com fome, mas também por sentir prazer ao saborear uma deliciosa refeição, selecionamos alimentos que beneficiam a saúde ou comemos o que nos apetece mesmo que nos faça mal. Comemos para aliviar a ansiedade ou quando estamos entediados, para celebrar ocasiões especiais, para conversar com as pessoas de quem gostamos.

No curso online “The Science of Nutrition”, oferecido por Future Learn,  em parceria com The Open University, “Por que comemos e o que comemos” é o primeiro tópico abordado. Na interação, com pessoas de diversos países, há comentários interessantes sobre os diversos motivos que nos levam a comer, além da necessidade biológica: “Meu grande problema é comer para aliviar o estresse. Há fases em que sinto que só a comida me faz sentir bem”. “Para mim, é um acontecimento de família: gosto de preparar o jantar para conversar sobre como foi o dia de cada um e sobre vários temas que surgem, com TV e celulares desligados”. “Todos os meus colegas se reúnem na sala dos professores na hora do recreio. É a hora para rir um pouco ou desabafar problemas que temos em sala de aula”.

Outro item abordado por este curso é o apelo aos sentidos, que desperta o apetite e estimula a gula: nos supermercados, a padaria ocupa uma posição estratégica para que o cheiro de pão fresco e outras iguarias se espalhe por toda a loja. Livros de culinária e embalagens de produtos, assim como a divulgação de restaurantes, mostram pratos tentadores que nos induzem a consumi-los. O som do churrasco sendo preparado também pode ser irresistível. Portanto, estimular olfato, visão, audição e tato conduz ao paladar. “Antes de colocar a comida na boca, costumo comer com os olhos. Por isso, capricho no visual das refeições que preparo, mesmo quando vou comer sozinha”.

As emoções exercem grande influência no ato de comer. Há quem coma compulsivamente na tentativa de preencher buracos internos de carência amorosa, para aliviar tristeza, desconsolo, frustração. “Acabo abusando dos doces, a vida está tão amarga”…

A qualidade das interações e a influência da propaganda também influem não só na quantidade quando na escolha do que comemos. O documentário “Muito além do peso”, da Maria Farinha Filmes apresenta entrevistas com famílias de crianças obesas mostrando um padrão de relação familiar marcado pela permissividade com relação aos desejos de consumo das crianças, que ficam furiosas quando contrariadas. O Instituto Alana, parceiro deste filme, trabalha o tema da influência nociva dos anúncios dirigidos às crianças que, por sua vez, insistem com os adultos da família para comprarem os produtos desejados (cheios de corantes, gorduras e calorias, sem o menor valor nutritivo). Esse é um problema de saúde pública: é grande o número de crianças brasileiras que estão acima do peso e aumenta a incidência de diabetes e doenças cardiovasculares nessa etapa da vida.

É preciso comer para viver. Mas, entre escolhas e renúncias, podemos aprender a saborear refeições deliciosas que mantenham nossa saúde e bem-estar!

 

Muito além do peso – documentário produzido por Maria Farinha Filmes e Instituto Alana: https://www.youtube.com/watch?v=8UGe5GiHCT4

 

“The Science of Nutrition”, curso oferecido por Future Learn,  em parceria com The Open University:

https://www.futurelearn.com/courses/the-science-of-nutrition/

Estresse: o que é bom, o que é ruim

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Cientistas japoneses recomendam “banho de floresta” como terapia antiestresse. (Fotografei na Costa Rica).

No decorrer da vida, todos nós passamos por situações de estresse. Quando percebemos perigo ou ameaça, nosso corpo automaticamente se prepara para lutar ou fugir: os batimentos cardíacos se aceleram, há maior liberação de adrenalina e cortisol, mais sangue disponível para os músculos e para o cérebro. Isso é indispensável para nossa sobrevivência.

O “bom estresse” é o “friozinho na barriga” que ajuda a concentração para enfrentar uma apresentação em público, a prova para o vestibular ou a entrevista de seleção para um emprego. Em doses altas, pode prejudicar o desempenho e “dar um branco” que nos paralisa. Quando termina a situação estressante, o organismo volta ao estado normal.

O “estresse ruim” é o que se prolonga, mesmo quando o fator estressante não está mais presente. Isso acontece no estresse pós-traumático, em que o fato passado invade o presente e a pessoa revive o episódio traumático continuamente. O estresse crônico também se estabelece quando a situação estressante é contínua. Isso acontece em relacionamentos abusivos, infelizmente tão comuns nos casos de violência intrafamiliar.

O estresse ruim ou crônico prejudica a saúde: há pessoas que passam a ter insônia, baixa da imunologia, perturbações digestivas, dores de cabeça frequentes, dificuldades de concentração, irritabilidade, pressão alta, depressão, síndrome do pânico. Com a situação estressante prolongada, o corpo não consegue retornar ao estado de não-estresse. Os níveis de adrenalina e cortisol, por exemplo, continuam elevados.

No entanto, como o corpo se prepara para lutar ou fugir do perigo ou ameaça que percebemos, é possível trabalhar nossa mente para perceber algumas situações estressantes como desafios e não como ameaças. Quando conseguimos mudar nosso olhar, o medo transforma-se em motivação para desenvolver os recursos necessários para lidar com a situação.

Há casos em que é possível mudar de rumo fazendo outras escolhas como, por exemplo, abandonar um trabalho estressante ou reduzir a carga horária redimensionando o orçamento para viver com mais tranquilidade embora com menores rendimentos. Simplificar a vida, praticar a partilha das tarefas domésticas para evitar a sobrecarga, fazer uma revisão do cotidiano para melhor gerenciar o tempo para incluir a prática de atividades físicas, cuidar bem da qualidade do sono e da alimentação, criar o hábito de respirar fundo algumas vezes ao dia para aliviar a tensão, meditar e entrar em contato com a natureza, cultivar a alegria.

O depoimento de um motorista que entrevistei para meu livro “Construindo a felicidade” mostra como é possível evitar o estresse crônico: “Meu trabalho é cansativo, em média oito horas de estrada por dia, mas gosto de conversar com as pessoas que transporto de um lugar para outro. Além disso, procuro me reequilibrar apreciando a natureza: acordo bem cedo, pego a bicicleta até uma mata para ouvir o canto dos pássaros e contemplar as árvores. Aí volto, pego o carro e vou para a estrada com muita disposição”.