Arquivo mensal: março 2018

Submissão

 

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O quanto nos dobramos carregando o peso da submissão? (Fotografei no MAM, na exposição das esculturas de Ron Mueck).

No caleidoscópio da submissão, é possível ver diversas imagens, que revelam o medo de desagradar, de ser rejeitado ou de sofrer violências e sanções.

O grupo de amigos que escolheu esse tema para conversar teceu boas reflexões sobre o que nos conduz a comportamentos de submissão em relacionamentos familiares, sociais, no trabalho e até entre nações.

De concessão em concessão, a pessoa acaba na submissão – disse uma das participantes. Entre casais, quando um faz muitas concessões, a outra pessoa acaba impondo seus desejos e tomando a maior parte das decisões que poderiam ser compartilhadas. Na maioria dos casos de violência intrafamiliar, a submissão funciona como proteção para evitar agressões pesadas. Apesar disso, ainda é assustadoramente elevado o número de mulheres agredidas e até assassinadas por parceiros e ex-parceiros.

Há também a violência disfarçada de “carinho” ou “zelo” – “Querida, você não precisa mais trabalhar fora”, “Fico enciumado quando você usa roupa decotada”. Em casos extremos, a pessoa deixa de saber quem realmente é e se torna a sombra do outro.

“Mas a submissão pode encobrir um poder secreto” – agregou outra participante, comentando a tática comumente utilizada por um dos cônjuges e também por filhos que evitam questionar abertamente os comandos dos pais: “Vou fazer de conta que faço o que você quer mas, sem que você perceba, vou fazer o que eu quero”.

O temor de ser abandonado motiva comportamentos de submissão: “Se eu fizer o que ela quer, não sofrerei rejeição” na relação amorosa ou pela amiga “popular” que a incluiu em seu grupo na escola, desde que aceite seus comandos.

A submissão também é motivada por dependência emocional/financeira: a pessoa não se sente capaz de prover o próprio sustento, teme não conseguir tomar conta de si mesma, não quer perder os benefícios materiais que lhe são proporcionados.

Como preenchemos os buracos internos? O grupo refletiu sobre a submissão ao álcool e outras drogas, que oferecem a muitas pessoas a esperança de se sentir melhor, pelo menos por alguns instantes, ou dá ao adolescente tímido mais confiança para abordar as garotas.

É difícil perceber como nos submetemos à propaganda subliminar: Sinto-me mais feliz quando bebo determinada marca de refrigerante? Compro sapatos de bico finíssimo para não ficar fora de moda, embora eles machuquem meus pés? “Preciso” comprar o modelo de celular mais avançado para não me sentir desprestigiado perante meus colegas de trabalho?

Em cenários mais amplos, observamos muitos moradores de comunidades que se submetem à lei do silêncio ou do recolhimento compulsório, segundo as ordens do chefe do tráfico. Ou pagam sem ousar reclamar os preços abusivos do gás e de outros serviços prestados pelas milícias.

E há os casos extremos de líderes carismáticos, políticos ou religiosos, aos quais os seguidores se submetem por acreditarem nos ideais que pregam, mesmo quando a realidade mostra que as promessas feitas não serão cumpridas.

A submissão às normas sociais aprisiona a liberdade. Pensamos sobre sociedades que impedem as mulheres de saírem desacompanhadas ou impõem severas restrições a seu modo de vestir.

Não há como escapar de todas as possibilidades de submissão. Mas é possível refletir, rever e mudar os comportamentos submissos que nos trazem prejuízos evitáveis.

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Mulher: Tempo de criar, espaço de viver, liberdade de amar

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Que as etapas do ciclo da vida nos façam florescer. Quando chegar o momento final, voltaremos a fertilizar o solo. (Fotografei em Sydney, Austrália)

Mulher,

nas profundezas do seu ser

estão a transcendência,

o milagre,

a grande alquimia,

a própria noção do infinito.

 

É preciso que você

honre seu corpo,

com seus ritmos, ciclos e passagens

que vão deixando os registros

dos tempos vividos.

 

Que você, mulher, deixe crescer

asas e raízes,

para ter firmeza e consistência

e, ao mesmo tempo, a leveza

para fluir pela vida,

ligada com a terra e com o céu.

 

Mulher, acredite

que quase nada está sob controle;

o tempo flui, passa e faz passar.

Nas emoções, nos sentimentos,

nos fluidos humores

estão incrustados perpétuos movimentos,

as fases da lua,

o vaivém das marés,

a grandiosidade dos mares.

 

Que você, mulher,

possa amar e se deixar amar,

respeitar e se fazer respeitar,

apreciando e sendo apreciada,

deixando expandir,

dentro e ao redor de si,

a chama amorosa.

 

Gestar-se,

nascer de si mesma,

infinitas vezes,

em múltiplos seres

dentro do mesmo ser.

 

Que você encontre, mulher,

no mergulho interior,

a sabedoria que sugere caminhos

mesmo em tempos de dúvidas,

incertezas e encruzilhadas,

em que você se vê partida

entre escolhas e dores,

entre o impulso do desejo

e a consciência da ponderação.

 

Cataclismo, reviravolta, reversão.

Mergulho em águas densas, turvas,

no desmoronamento do mundo

até então construído.

Desilusões, traições, decepções,

gerando mudanças e revisões.

 

Deixar morrer para renascer,

encontrar sentido

em sofrimentos sem sentido.

Que você possa, mulher,

também pela dor

criar algo novo,

a partir das rupturas,

das perdas,

de passagens e travessias.

 

Quando parece que nada sobrou,

alguma coisa renasce;

quando parece que a força acabou,

uma nova força aparece.

No mergulho fundo na dor,

algo se cria.

Não precisa ser amargura,

nem rancor,

nem mágoas eternas.

 

 

É bom deixar passar,

atravessar dores e lutas,

demolir e reconstruir.

Sofrimento eterno

não é destino de ninguém.

 

Saber esperar, aguardar,

domar a pressa e os impulsos,

suportar privações e provações.

E ter fé.

Mesmo de cabeça para baixo,

na beira do abismo,

há saídas.

 

Mulher, cada qualidade

pode expandir-se

na harmonia e na distorção.

O poder

Não precisa se vestir de tirania;

a raiva

não precisa se pintar de violência.

Não maltrate,

não se deixe maltratar.

Nem por você mesma.

 

Mulher, que você se complemente,

com seus pares e parceiros,

que encontre as trocas

fora do domínio

da dominação e da submissão,

neutralizando e transcendendo

a inveja, a rixa,

a competição crua e cruel.

Companheira e cúmplice,

solidária, sem ser servil.

 

E, então, surge o equilíbrio

fluido, delicado e sutil,

porém forte e resistente.

É a maturidade, a sabedoria,

é a força da delicadeza

a firmeza da serenidade.

Na experiência acumulada,

a capacidade de ver mais longe,

mesmo quando os olhos já precisam de auxílio.

 

Mulher, o mundo é seu,

você é do mundo.

A vida é sua,

você é da Vida.

Celebrar a criação,

a eterna busca

de evolução,

com as mulheres irmanadas,

pelo mundo afora.

 

Que cada mulher encontre

dentro de si

A Mulher e O Homem

Para lutar por direitos iguais

respeitando as diferenças,

descobrindo o poder de combinar

suavidade e força,

levando paz, harmonia e beleza

na grande viagem da vida.

 

É preciso ser amiga do tempo,

para conquistar o espaço.