Arquivo mensal: maio 2018

Renovação

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No ciclo da vida, precisamos nos renovar para desabrochar (Fotografei em Amsterdam).

As células de nosso organismo passam por ciclos de renovação, cujos períodos variam de acordo com a função que exercem nos diversos órgãos. No desenvolvimento pessoal, precisamos nos renovar para abrir caminhos de vida ou para expandir e atualizar os que queremos manter.

Conversando sobre esse tema com um grupo de amigos, um deles, com 30 anos de casado, comentou: “Meu casamento continua ótimo porque vivo me casando com a mesma mulher e ela comigo. Nem eu nem ela somos exatamente os mesmos de quando nos conhecemos. As experiências da vida, a chegada dos filhos, os problemas que enfrentamos, o amadurecimento, tudo contribui para nossas mudanças. Mas sempre escolhemos ficar um com o outro”.

Acompanhar o desenvolvimento de cada filho também nos renova. “Criei todos os filhos da mesma maneira” é um mito, porque com a chegada de cada um toda a rede de relacionamentos da família se modifica. Como trabalhei por alguns anos acompanhando famílias de bebês internados em UTI Neonatal, vi a importância da renovação da esperança, nos ciclos de melhora-piora das condições clínicas em situações de maior gravidade.

Uma participante comentou: “Trabalho há mais de 30 anos como professora universitária. Estou sempre me renovando nesse contato com os alunos, ensinando e aprendendo com eles. Com a avalanche de informações disponíveis, a função do professor precisa ser profundamente renovada: de transmissor de conhecimentos para consultor, orientador, que contribui para que os alunos utilizem ferramentas de pesquisa com espírito crítico para filtrar o que é relevante e integrar as diversas fontes de informação.

Na época em que vivemos, quem não renova e atualiza constantemente seus conhecimentos corre o risco de ficar fora do mercado de trabalho. É preciso inovar, renovar, ousar, empreender. Diversos psicoterapeutas que participaram da conversa comentaram sobre a renovação do olhar sobre acontecimentos presentes e passados, estimulada pelo processo terapêutico para “reescrever” histórias e descobrir novos significados.

Para mim, uma das palestras mais surpreendentes foi em um evento para 1200 pessoas entre 50 e 90 anos, participantes de projetos de qualidade de vida. Falei sobre mudança do olhar e de projetos de vida e convidei o público para dar depoimentos sobre renovação de projetos. Vários falaram sobre a oportunidade de desenvolver novas habilidades após a aposentadoria que resultaram em trabalhos completamente diferentes dos anteriores ou que abriram espaço de lazer criativo. Com isso, muitos saíram da depressão e encontraram um novo sentido na vida. Como disse uma participante: “Agora a farmácia tem prejuízo comigo! Depois que passei a frequentar esses grupos, nunca mais fiquei doente”.

Com o aumento da expectativa de vida, podemos viver várias vidas em uma só. No entanto, há pessoas que, por insegurança e por medo da mudança, não se renovam: cristalizam padrões de comportamento e de relacionamento que se repetem indefinidamente. Neles ficam aprisionadas e, com isso, tornam-se pessoas entediadas e entediantes. Pouco evoluem, sufocam a curiosidade que renova nossa busca por conhecimentos e até mesmo por aventuras. Vida é mudança e renovação!

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Maternidades

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Alegria, felicidade, preocupação, raiva, tristeza: tudo faz parte desse amor profundo e transformador que pavimenta as trilhas das maternidades (Fotografei em Ilha Grande, RJ).

O psicanalista inglês Donald Winnicott escreveu sobre o conceito de “mãe suficientemente boa”. Eu costumo dizer que maternidade e paternidade é uma balança de créditos e débitos. Os filhos não precisam de pais perfeitos, e sim de pais humanos e amorosos, em constante processo de aprendizagem, e os erros fazem parte do caminho.

No entanto, há décadas observo milhares de mães prisioneiras do sentimento de culpa e de exigências cruéis impostas a si mesmas. Não se sentem “mães suficientemente boas” por não estarem “sempre” com os filhos porque trabalham e/ou estudam, porque não contam com a contribuição (financeira ou de presença) do pai, porque acham entediante sentar para brincar com os filhos pequenos e por muitos outros motivos. Olham com lente de aumento para suas supostas deficiências e sentem dificuldade de valorizar os aspectos positivos de seus vínculos. Por outro lado, há as que não se dão conta das reais necessidades de seus filhos, que anseiam por um olhar atencioso de seus pais mergulhados em seus celulares mesmo quando tentam fazer uma refeição em conjunto ou quando saem para passear.

De onde vem esse ímã de culpa e de exigência que grudam em tantas mães? As pesquisadoras Kniebiehler e Fouquet mostram que a exaltação da imagem materna liga-se à Virgem Maria, que concebeu sem pecado, ou seja, sem sexo. Desse modo, a noção de pureza, caridade, humildade, renúncia e dedicação vincula-se à imagem de maternidade santificada. No entanto, no século XVI, na Europa, predominava o costume de confiar o recém-nascido a uma ama, que ama­mentava e cuidava de crianças durante os primeiros anos de vida. No século XVII, ter um filho fora do casamento acarretava grandes problemas e, com isso, muitas mulheres recorriam ao aborto, ao abandono e ao infanticídio. Pesquisadores como Ariès e Badinter concluíram que o amor materno não é um instinto, mas um sentimento que, como todos os demais, está sujeito a imperfeições, oscilações e modifica­ções.

No final do século XVIII, a exaltação do amor materno entrou no discurso filosófico, médico e político. Assim iniciou-se o processo intimidar e culpar as jovens mães: a recusa de amamentar e a tentativa de abortar passaram a ser consideradas condutas criminosas. No século XX, especialmente sob a influência da psi­canálise, reforçou-se a tendência a responsabilizar a mãe pelas dificuldades e problemas dos filhos.

Mas o que observamos, na prática? As maternidades acontecem de várias formas e evoluem por caminhos diversos. O filho pode ser fruto do amor entre um homem e uma mulher que engravidam com o desejo; pode vir “por acaso” em adolescentes ou em decorrência de um relacionamento passageiro; pode surgir a partir do amor entre duas mulheres que recorrem à inseminação; o vínculo amoroso pode ser tecido por mulheres que adotam crianças e adolescentes ou pelas que assumem o compromisso de amar e de cuidar dos filhos de parceiros/as nas “famílias mosaico”.

Acompanhar o crescimento dos filhos revela possibilidades e dificuldades das maternidades. A emoção de perceber a evolução das crianças, mesmo as que apresentam problemas graves, a alegria de constatar que os filhos são capazes de fazer boas escolhas em seus caminhos de vida, e a apreensão de constatar que nem sempre essas escolhas correspondem aos desejos dos pais. Alegria, felicidade, preocupação, raiva, tristeza: tudo faz parte desse amor profundo e transformador que pavimenta as trilhas das maternidades.