Arquivo mensal: junho 2018

Disciplinar crianças à luz da neurociência

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O cérebro integrado nos permite navegar pelo meio do “rio do bem-estar”, longe das margens do caos e da rigidez (Fotografei em Peruíbe, SP).

Os recursos de manejo em situações do dia a dia com crianças e adolescentes em abordagens como a de Thomas Gordon (“Parent Effectiveness Training”) e de outros especialistas me inspiraram a escrever Comunicação entre pais e filhos, a partir de minha experiência com grupos de pais. É muito bom constatar a validação da eficácia desses recursos à luz dos estudos sobre a formação do cérebro na infância em livros como Disciplina sem drama, de Dan Siegel e Tina Bryson. Destaco os seguintes aspectos deste livro:

  • O cérebro está sempre se reprogramando a partir das experiências vividas. As ações de pais e educadores influenciam essa modelagem do cérebro.
  • Se considerarmos a construção do cérebro como uma casa, o “andar de baixo” é constituído pelo tronco cerebral e pelo sistema límbico e o “andar de cima” pelo córtex cerebral, que demora muito tempo para se consolidar.
  • Na criança pequena, predomina o “andar de baixo” (ataques de birra, explosões de raiva, recusa em fazer o que é preciso) que ela ainda não consegue controlar sozinha. Por isso, são momentos importantes para disciplinar no sentido de ensinar, e não de punir. Os limites precisam vir de fora até que, pouco a pouco, se fortaleçam os circuitos neuronais do “andar de cima”, que possibilita o autocontrole.
  • Nos episódios de mau comportamento, é essencial conectar-se com o que a criança sente (raiva, tristeza, frustração), reconhecer e validar seus sentimentos, mesmo quando não concordamos com o que ela fez. Só assim, ela poderá passar da reatividade para a receptividade e prestar atenção ao que dizemos. Em primeiro lugar, conectar-se com a criança para, depois, redirecionar seu comportamento.
  • Refletir os sentimentos faz com que a criança se sinta amada e compreendida. Então, poderá aceitar a ideia de uma “segunda oportunidade” para pensar o que poderia ter feito ao invés do que fez e, se possível, reparar o dano.
  • Para isso, é importante estimular o desenvolvimento da empatia para que ela perceba o impacto de suas ações sobre os outros. Todas essas ações constroem o “andar de cima” do cérebro: visão da própria mente e da dos outros, empatia, reparação.
  • Ao fortalecer as conexões entre o “andar de cima” e o “andar de baixo” ocorrerá a integração das diferentes regiões responsáveis por diversas funções no cérebro: “neurônios que disparam juntos se ligam juntos”. O cérebro integrado nos permite navegar pelo meio do “rio do bem-estar”, longe das margens do caos e da rigidez.
  • Ao disciplinar com firmeza, serenidade e muito amor, conectando-se com os sentimentos subjacentes ao comportamento para depois redirecionar, não é preciso utilizar com frequência o “cantinho do pensamento”, castigos e consequências.
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Maratonas da vida

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É necessário um bom preparo e muita persistência para enfrentar as maratonas da vida (Fotografei em Copacabana).

Observei maratonistas encarando 42 km e tenho uma amiga maratonista. Nunca pensei em fazer isso, gosto de caminhar e nadar no mar, sem entrar em competições. Mas pensei sobre as maratonas que enfrentamos no decorrer da vida e sobre a preparação necessária.

Desde criança eu gostava de escrever. Na adolescência, decidi ser psicóloga e entrei na maratona do vestibular com muita dedicação. Mas foi a partir publicação do meu primeiro livro (Psicologia da gravidez, que foi minha tese de Mestrado) que desejei escrever outros. Gostei da experiência e, pouco a pouco, aumentei o tempo dedicado à escrita. Já publiquei mais de quarenta livros, e isso envolve, até hoje, enfrentar as maratonas do mercado editorial.

Minha amiga maratonista conta que, para alcançar o objetivo maior de correr 42 km é preciso fracionar o preparo em etapas e 5, 10, 15 km para, gradualmente aumentar a resistência física e emocional. A meta que parecia quase impossível de alcançar torna-se possível com planejamento e persistência para enfrentar obstáculos. Inclui renúncias a prazeres imediatos e capacidade de lidar com frustrações e decepções.

Quando converso com estudantes que leram meus livros paradidáticos, muitos me perguntam quanto tempo, em média, foi preciso para eu escrever aquele livro que leram em poucas horas. Eles se surpreendem quando respondo que, em média, preciso de um a dois anos para pesquisar sobre o tema, fazer um planejamento detalhado, reescrever o que não achei bom, fazer inúmeras revisões até entregar os originais. Em síntese, disciplina, persistência e paixão pela escrita.

Quando quem sonha em ser escritor me pergunta o que é preciso fazer para publicar um livro, respondo que é preciso gostar muito de ler para poder escrever e não desistir dos inúmeros obstáculos que surgem: editoras que demoram até dois anos para dizerem se querem publicar o livro (quando dão resposta), distribuição e divulgação insuficientes que resultam em decepção com a venda, originais recusados por diversas editoras.

Paralelamente à carreira de escritora, enfrento a maratona de trabalhar como palestrante. Para melhor me preparar, fiz alguns anos de cursos de teatro e de trabalho com a voz, além de aprender a construir apresentações visualmente atraentes e com conteúdo interessante  para vários públicos. Minha amiga maratonista me diz que para alcançar metas é preciso se esforçar, superar a preguiça e a acomodação, treinar constantemente, cuidar bem da alimentação e do sono. Mas o prazer de se sentir competente e superar limites anteriores compensa sacrifícios e frustrações.

Digo o mesmo sobre os trabalhos que faço nas maratonas da vida. E acrescento: é muito bom compartilhar o que aprendo!