Arquivo mensal: julho 2018

Comunidades no coração da Amazônia

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A pousada Uacari, em Mamirauá.

Cinco dias em Mamirauá , a primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável brasileira, criada em 1996, me fizeram mergulhar em cenário de extrema beleza na época da cheia, em que a locomoção só é possível por barcos e canoas.

Com cerca de um milhão de hectares, a 600 km a oeste de Manaus, Mamirauá é também um centro de pesquisas sobre a biodiversidade, coordenado pelo Instituto Mamirauá, em Tefé (AM). Com pouco menos de uma hora de lancha, chega-se à Pousada Uacari, flutuando no Médio Solimões, que gera emprego e renda para as pessoas das comunidades situadas dentro da Reserva. Parte da renda gerada pela pousada destina-se ao financiamento de projetos comunitários e da vigilância ambiental da área.

Incrível ver a capacidade de adaptação ao contexto: formigas e cupins fazem suas casas no alto das árvores porque, na cheia, o rio sobe até 12 metros. Nas saídas de barco foi possível observar preguiças, diversos tipos de macacos, mucura xixica (marsupial que come as flores da munguba), iguanas, botos, jacarés, inúmeros pássaros e aves (martim-pescador, maritacas, periquitos, papagaios, surucunã de coleira, alicorne, jaçanã, arirana vermelha, cigana, gaviões).

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A floresta alagada, nos seis meses de cheia.

Lamentei não poder nadar no rio, cheio de jacarés, piranhas e outros seres. Mas gostei de, nas canoas, tomar banho de chuva que cai torrencialmente por pouco tempo. E de entrar de canoa pela floresta alagada, com cipós enormes formando esculturas naturais, um santuário. É emocionante sair de barco à noite, ouvindo os sons da floresta, contemplando o céu estrelado e reverenciando toda essa grandeza.

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O guia comunitário João, falando sobre o vida na comunidade São José.

Uma das saídas foi para visitar a comunidade São José. João, o guia comunitário, falou sobre a história e o estilo de vida do grupo, composto por treze famílias, sendo 27 crianças. Na década de 1970, “vieram os padres para estimular a gente a construir as casas próximas umas das outras para a gente se organizar” – conta ele. Cada comunidade tem um estatuto e elege um presidente por quatro anos. As decisões são tomadas pelo grupo.

Para cuidar da saúde, plantas medicinais. Uma agente de saúde visita semanalmente as comunidades e encaminha os casos que necessitam de atendimento especializado para um hospital em uma cidade que fica a meia hora de barco. As parturientes também são atendidas lá, não há mais a tradição de partos assistidos por parteiras.

Coletam água da chuva e a tratam com cloro para beber. A água do rio é para cozinhar, lavar, tomar banho. Não há tratamento de esgoto, nem internet, nem celular. Há um gerador a diesel, que funciona das 18 às 22hs.

Desde cedo, as crianças aprendem a nadar, remar e pescar. A comunidade conta com uma escola com uma única sala em que o professor dá aulas para crianças de 4 a 10 anos.

Sabedoria de um menino de sete anos, referindo-se ao grupo de visitantes: “Vocês falam demais! A gente precisa ouvir os pássaros, os bichos, as árvores”…

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O fantástico pôr do sol no Lago Mamirauá, com sinfonia de pássaros.

No último dia, a saída de barco foi para contemplar o pôr do sol no lago Mamirauá, que tem dez quilômetros de extensão, cerca de 35 metros de profundidade e 280 metros de largura. Nunca seca, e a pesca é proibida. Foi onde se implantou uma Estação Ecológica, em 1986. Contemplar o pôr do sol neste lago é um espetáculo de cores e de canto dos pássaros.

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Paternidade participativa

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Um dos muitos bons momentos com meus pais.

Fui criada no modelo tradicional de pai provedor/mãe cuidadora. Meu pai era amoroso e sensível, ouvia mais do que falava e foi muito importante para minha formação.

Trabalhando com famílias há mais de quatro décadas, acompanho as transformações não só das formas de constituir uma família como também do entendimento crescente da importância de partilhar as funções de prover e de cuidar.

Por muitas décadas, a ênfase na relação mãe-filho colocou o pai em segundo plano ou, então, lhe atribuiu o papel de “agente da lei” na educação das crianças. Porém, os estudos mais recentes mostram a importância fundamental do homem que participa do dia a dia do bebê e da criança pequena com ternura e acolhimento nos momentos de trocar fraldas, dar banho, brincar, cantar. Esses pequenos grandes acontecimentos do cotidiano constroem os alicerces do vínculo seguro, que repercute positivamente no desenvolvimento no decorrer da infância e da adolescência. Não é mais o homem que “ajuda” a mulher (como se fosse um favor), mas o pai que participa ativamente da criação de filhos e filhas.

Profissionais de saúde e economistas estão mostrando com maiores detalhes a prioridade que precisa ser dada à primeira infância (da gestação aos seis anos de idade) para promover um desenvolvimento saudável. A inclusão do homem em consultas do pré-natal e nos grupos de “famílias grávidas”, a lei que garante o direito a um acompanhante no trabalho de parto (Lei do Acompanhante – 11.108/2005), a licença-paternidade estendida são exemplos de políticas públicas que priorizam o foco na família e não apenas na gestante.

O envolvimento paterno desde a gestação fortalece o vínculo e reduz a incidência de violência intrafamiliar, negligência e abandono. Isso vale também para o pai adolescente. Nem todas as gestações na adolescência resultam em experiências negativas mas, para favorecer uma experiência positiva de parentalidade, é preciso uma assistência de boa qualidade das equipes de saúde, família e comunidade. No acompanhamento ao parto humanizado, onde a mulher tem liberdade de se movimentar e escolher as posições mais confortáveis no trabalho de parto, a presença do homem bem orientado (que participa ativamente oferecendo massagens e acolhimento à parturiente) dá o suporte essencial e a oportunidade de mergulhar na emoção de presenciar o nascimento da criança.

Igualmente importante é o apoio do pai no período da amamentação, dividindo a responsabilidade dos cuidados e das tarefas domésticas para que a mulher tenha a necessária tranquilidade para amamentar o bebê.

O Relatório de 2017 sobre a Situação da Paternidade no Mundo revela que, em nenhum país, a participação dos homens nos cuidados com a prole é igual à das mulheres, porém é crescente o número de homens que se abrem para a experiência da paternidade participativa, que resulta em um novo modelo de masculinidade e uma experiência de desenvolvimento pessoal na tecelagem do vínculo com os filhos, em qualquer tipo de organização familiar.

Campanhas globais (como as do Instituto Promundo e MenCare ) que promovem o envolvimento de homens e meninos como cuidadores equitativos e não-violentos, assim como grupos em redes sociais que permitem a troca de ideias sobre a experiência da paternidade e suas emoções, são recursos que constroem o modelo necessário de masculinidade baseado no afeto e no cuidado.

Links sobre o tema:

https://docs.google.com/viewerng/viewer?url=http://promundo.org.br/wp-content/uploads/sites/2/2018/05/sumario_situacaodapaternidade2017_01d_baixa.pdf

 

http://desenvolvimento-infantil.blog.br/uma-nova-geracao-de-pais-revoluciona-a-paternidade-no-mundo/

https://sowf.men-care.org/wp-content/uploads/sites/4/2015/07/The-State-of-Fatherhood-and-Caregiving-in-Brazil_Portuguese_web-1.pdf

https://promundo.org.br/wp-content/uploads/sites/2/2014/08/promundo_manualp_07i_web.pdf