Arquivo mensal: agosto 2018

“Não quero que meu filho se frustre!”

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Para desenvolver habilidades como a de quem fez essa gravura japonesa é preciso, além de talento, paciência e persistência.

Ao colocar a criança na redoma da superproteção, perde-se a noção não só da inevitabilidade como do valor da frustração para fortalecer a resiliência e a capacidade de criar alternativas quando aquilo que desejamos não se concretiza.

Aprender a lidar com a frustração fortalece a persistência para não desistir facilmente diante dos obstáculos. Isso também ajuda a valorizar o erro como fonte de aprendizagem, e não como uma ameaça à autoconfiança.

Em conversa com os professores de uma escola, ouvi que muitos pais não querem que o filho se frustre, nem que perca nos jogos, tire uma nota baixa ou sinta ciúmes do bebê que nasceu. Talvez isso decorra da falsa noção de que felicidade é sinônimo de ausência de problemas. No entanto, os estudos sobre o tema mostram que a construção da felicidade tem mais a ver com a capacidade de consolidar uma serenidade interior até mesmo em épocas turbulentas.

No decorrer da vida, é inevitavelmente frustrante cair quando se tenta dar os primeiros passos, quando começa a andar de bicicleta sem as rodinhas de apoio, quando escreve as primeiras letras, quando leva um fora do primeiro amor, quando estuda para o vestibular e não consegue se classificar, quando a empresa encolhe a equipe e a pessoa está entre os demitidos.

Lidar com a frustração ajuda a valorizar os pequenos progressos no caminho de construir novas habilidades que demandam paciência para treinar ao praticar um esporte ou tocar um instrumento musical. É impossível ter o mesmo desempenho dos “ídolos” do futebol ou da guitarra sem percorrer um longo caminho para desenvolver essas habilidades. Manter a automotivação para não desistir diante das dificuldades é indispensável ao progresso.

Há pais que questionam os professores quando os colegas do filho já aprenderam a ler ou fazem desenhos mais elaborados. Essa comparação constante angustia os pais e os impedem de considerar as variações da normalidade e a diversidade das competências. Ninguém é supercompetente em tudo. Faz parte do autoconhecimento perceber em que áreas somos mais capazes para investir em expandi-las e em que áreas somos incompetentes para aceitar essas limitações.

Perguntas reflexivas são úteis no diálogo entre professores e pais: “Como vocês aprenderam a lidar com as frustrações”? “Que benefícios o filho de vocês teria caso fosse possível evitar frustrações”? “Considerando que as frustrações são inevitáveis e até mesmo necessárias, como vocês lidam com isso com seus filhos”?

Essas perguntas reflexivas são um convite para que as famílias se esforcem para aprimorar a parceria com a escola, em vez criar expectativas e fazer cobranças de que a equipe escolar seja a principal responsável pela educação de crianças e adolescentes.

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Desenvolvendo a competência socioemocional

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É preciso cultivar as competências socioemocionais com carinho, paciência e persistência, como para fazer um belo jardim como esse que fotografei na Holanda.

Querem que seus filhos e alunos façam boas escolhas, tomem decisões com responsabilidade, saibam resolver problemas e conflitos que surgem, consigam cultivar bons relacionamentos, lidem bem com suas emoções, tenham persistência para vencer obstáculos, se comuniquem com clareza e respeitem as pessoas?

Essas são as principais competências socioemocionais. E por que desenvolver tudo isso é indispensável para viver bem no século XXI?

Estamos na era da grande transição, delineando um futuro ainda imprevisível, com rápida evolução da tecnologia e da inteligência artificial. Muitas das profissões que hoje existem deixarão de existir ainda não sabemos que profissões existirão em duas décadas. Por isso, é preciso preparar as crianças desde cedo para a capacidade de ajustar-se às mudanças, construir a resiliência para lidar com frustrações e cenários adversos e ter flexibilidade mental para criar alternativas viáveis.

A neurociência nos mostra que a arquitetura cerebral é fortemente influenciada pela qualidade dos vínculos com pessoas significativas. Desde o início da vida, esses vínculos formam uma base sólida ou frágil que terá repercussões no desenvolvimento futuro, refletindo em aprendizagem, comportamento e saúde.

As inúmeras situações do dia a dia na família e na escola são oportunidades de desenvolver as competências socioemocionais, consideradas como recursos essenciais para enfrentar os desafios deste século.

Alguns exemplos práticos:

  • Empatia – reforçar a percepção do impacto de ações da criança sobre os outros: “Quando você arranca o brinquedo da mão do seu amigo, ele fica chateado e zangado com você”.
  • Criar soluções – estimular a criança e o adolescente a assumir responsabilidade e criar automotivação, em vez de logo aplicar castigos (“Vou tirar do futebol e confiscar o celular”) que intensificam a raiva e podem fortalecer a resistência: “Você não está indo bem na escola, tem estudado pouco. O que fazer para melhorar seu rendimento? Vamos pensar e fazer um plano de estudos mais eficiente”?
  • Gerenciamento de conflitos – nas brigas entre irmãos, em vez de se colocar no papel de juiz que aplicará as “sentenças”, convidar a criar alternativas para encontrar soluções satisfatórias para ambas as partes: “Se um começou, o outro continuou. Então a briga é dos dois. Vamos criar boas ideias para resolver o problema”!
  • Segunda oportunidade – diante de respostas grosseiras, estimular a conduta de reparação e a reflexão sobre a forma equivocada de se comunicar: “Aposto que você consegue dizer a mesma coisa de modo mais respeitoso”.
  • Revisão de comportamento inadequado – passada a “tempestade emocional”, reconstruir o ocorrido para imaginar desfechos mais adequados: “Ontem de manhã, você perdeu o controle, me xingou e me tratou de um modo inaceitável. E eu também perdi a paciência e me irritei muito com você. Vamos pensar como poderíamos ter conduzido melhor o que aconteceu”.

As competências socioemocionais podem ser desenvolvidas por toda a vida. Sempre há a possibilidade de aprimorar o autoconhecimento, perceber nossos pontos fracos e fortes, reconhecer o que sentimos e como reagimos. Desse modo, aprendemos com os erros e selecionamos a expressão adequada do que sentimos, possibilitando a construção de bons relacionamentos.

O convívio cotidiano com filhos e alunos nos oferecem oportunidades valiosas de desenvolvimento pessoal.