Arquivo mensal: setembro 2018

O impacto das tragédias em nossas vidas

093

Tragédias pessoais e coletivas refletem o ciclo de destruição-reconstrução.

Quase todos lembram onde estavam quando sofremos coletivamente o impacto do 11 de setembro, que inaugurou a era do medo dos ataques terroristas. Conversando com um grupo de amigos sobre o tema das tragédias, falamos também da campanha Setembro amarelo, do CVV, que alerta para a importância da prevenção ao suicídio. A atenção à mudança de comportamento da pessoa que progressivamente perde a esperança e acentua o desespero de não ver outra saída a não ser terminar com a própria vida pode motivar acolhimento e ações eficazes para prevenir essa tragédia.

Alguns participantes, eu inclusive, falaram do impacto do suicídio na família. Meu avô materno, em dificuldades financeiras, se suicidou quando minha mãe tinha apenas onze anos. Ela frequentemente falava sobre esse trauma nunca superado. Outros relembraram casos do noticiário em que uma pessoa matou toda a família e, em seguida, se suicidou. Não viu outra saída para solucionar seus problemas.

Por outro lado, falamos sobre muitas histórias de reconstrução e novo sentido da vida a partir de uma tragédia. Assisti, há algum tempo, a apresentação do Instituto Dimicuida para alertar crianças, adolescentes e famílias sobre as “brincadeiras perigosas” na internet. Esse trabalho foi iniciado pelo pai de um adolescente, que morreu asfixiado ao praticar o “jogo do desmaio”, com a missão de preservar a vida de outros jovens.

A reconstrução, junto com a solidariedade, surge também como resposta a tragédias que impactam um grande número de pessoas, como enchentes, furacões e outras catástrofes naturais ou provocadas pela ação humana. Alguns relembraram as ações de reconstrução no Japão, após a tragédia de Hiroshima e Nagasaki e, mais recentemente, da que aconteceu com o reator nuclear em Fukushima. Conversamos também sobre a tragédia do atual e crescente fluxo migratório de milhões de pessoas, que necessitam de acolhimento e compaixão dos países mais favorecidos.

A natureza também se reconstrói misteriosamente após grandes tragédias. Trinta anos após o acidente nuclear de Chernobyl, em que toda a população da cidade teve que ser evacuada devido à intensa radiação, a vida selvagem floresce, com plantas e o retorno de grandes animais e muitos pássaros. Fênix ressurge das cinzas!

As ações de prevenção são muito importantes, assim como a possibilidade de alertar populações para tragédias naturais iminentes. Proteger casas e estocar mantimentos quando um furacão se aproxima, construir prédios que oscilam levemente para não serem destruídos por terremotos são algumas ações que minimizam danos e motivam solidariedade para prestar socorro quando necessário.

Há tragédias que passam de uma geração a outra, perpetuando um ciclo de pobreza e carência de oportunidades, que deveriam inspirar políticas públicas mais eficazes. É o que acontece quando vemos a situação de muitas comunidades em que há alto índice de gravidez precoce e não planejada (por vezes em várias gerações das mesmas famílias), abandono, violência intrafamiliar, aliciamento de crianças e jovens para o tráfico de drogas e para a prostituição.

Diante das tragédias, além da solidariedade e da compaixão que precisam ser oferecidas, é preciso contar com a força da resiliência – pessoal, familiar, comunitária – que propicia a criação de recursos para enfrentar enormes adversidades.

Anúncios

Invejar, admirar, almejar

IMG_20180911_102545953

As “cores” do que sentimos se mesclam dentro de nós, e podem abrir ou fechar caminhos de vida.

Muitos casos de bullying são motivados pela inveja daqueles que, por acharem que não conseguirão se equiparar à pessoa invejada em termos de beleza, inteligência ou competência, a atacam impiedosamente, provocando grande sofrimento. Lembro-me de um caso em que a adolescente foi imobilizada por duas colegas no banheiro da escola enquanto uma terceira passava a tesoura no cabelo comprido que tanto despertava inveja. Em equipes de trabalho, a pessoa invejada por sua competência pode ser alvo de perseguição e ataques à sua reputação por meio de mensagens difamatórias amplamente compartilhadas nas redes sociais.

Na conversa com o grupo de amigos o tema invejar, almejar, admirar deu margem a reflexões interessantes, incluindo relatos de casos sobre a emissão de energia negativa que seca plantas invejadas – o “olho de seca-pimenteira”.

As fronteiras entre invejar, almejar e admirar são fluidas. Há quem fale em “admireja”, para se referir à dificuldade de demarcar o território entre admirar e invejar. Uma das participantes relatou que, quando menina, tinha uma amiga que estudava em escola americana. Ela se sentia inferiorizada porque não sabia falar inglês. Porém, passou a almejar a aprendizagem de idiomas. Atualmente, fala sete com fluência. Invejar passou a ser almejar e, com dedicação, superou a meta.

Quando a pessoa se enreda na teia da inveja paralisa o próprio progresso e destrói oportunidades de vida. Há alguns anos, passei por uma situação constrangedora. Quando menina, por ser a mais alta do grupo, sempre era escolhida para coroar a imagem de Nossa Senhora na festa da igreja, vestida de anjo. Quarenta anos depois, após ter participado de um programa de televisão, recebi um telefonema de uma mulher dizendo que passou a vida toda me invejando porque nunca conseguiu coroar Nossa Senhora. Fiquei pasma, sem saber o que dizer. Lamentei o quanto essa pessoa se prejudicou colocando essa inveja em lugar de destaque em sua vida…

Como terapeuta de casais e de família, vi muitos casos de inveja da mãe pela juventude da filha, revelando sua dificuldade de envelhecer. Entre irmãos, em que a inveja se mistura com ciúme e raiva, motivando ataques para derrubar o outro, como se estivessem brincando de gangorra. Em casais, quando um não suporta o crescimento do outro porque se sente inferior, inseguro e com medo de perda, e, então, tenta sabotar o progresso do outro em vez de cuidar de abrir seus próprios caminhos.

O exercício da gratidão inibe a inveja: valorizamos e agradecemos o que temos em vez de nos torturarmos porque não temos o que os outros possuem, estabelecendo comparações desfavoráveis, como acontece tão comumente quando passeamos pela linha do tempo das redes sociais.

Por outro lado, a admiração pode inspirar o esforço para trilhar caminhos semelhantes ao da pessoa admirada. “Quero ser tão competente como ele”. Muitos alunos elegem professores como figuras de referência. E há professores que admiram alguns alunos pela clareza de raciocínio ou pela capacidade de liderança.