Arquivo mensal: maio 2019

“Combinados” entre pais e avós

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Pergunta de uma participante da Live sobre Limites na educação: “Como colocar limites com os avós? Quando digo que não vou dar açúcar para meu filho até os dois anos minha mãe ri e me diz que eu comia açúcar de colher com nove meses e não morri por causa disso!”.

“Os pais educam, os avós deseducam”; “Em minha casa, meus netos fazem o que querem”; “Minha filha coloca regras muito rígidas, sinto pena da minha neta!” – ouço com frequência esses comentários por parte dos avós.

Por parte dos pais, escuto coisas do tipo: “Quando ele volta do final de semana com os avós, fica revoltado por ter que cumprir o que combinamos”; “Como minha sogra deixa minha filha ficar no Ipad o tempo todo, a menina diz que só a avó a ama de verdade”; “Moro com minha mãe e meu filho de três anos: ela diz que criou muito bem os cinco filhos e eu não posso dizer como eu gostaria que ela me ajudasse a educá-lo”.

Inevitavelmente, haverá discordâncias entre os próprios pais, assim como entre pais e avós, sobre como lidar com crianças e adolescentes em situações do dia a dia.  Embora todos desejem que filhos e netos cresçam bem, o modo de lidar com eles difere. A questão é: Como se concentrar nas semelhanças das abordagens e como aparar as arestas das diferenças?

Os conflitos surgem justamente a partir das diferentes opiniões, visões sobre educação, crenças e valores. Construir acordos demanda a habilidade de escutar respeitosamente os diversos pontos de vista, conseguir expressar com clareza os próprios pensamentos para, então, tecer em conjunto uma terceira via, que não será exatamente o que cada um propõe mas que poderá ser pelo menos razoável para ambas as partes.

A fronteira entre ajuda e interferência nem sempre é fácil de delimitar. Se é certo que os jovens pais são inexperientes para cuidar de seu primeiro filho, é certo também que só aprenderão com a prática. Há avós que desautorizam e/ou desqualificam os pais em função de terem mais experiência. Mas eles também foram inexperientes, e precisaram aprender!

É muito importante que as pessoas da família consigam construir uma boa qualidade de relação afetiva com crianças e adolescentes para que estes se sintam amados, acolhidos e bem cuidados. Diferenças e divergências são inevitáveis, mas a busca de consenso e a construção de “combinados” básicos é essencial. Isso não significa que os adultos responsáveis precisem atuar como “frente unida” o tempo todo. As crianças entendem que o que é permitido/proibido na casa da vovó, do papai, da titia e dos amigos tem variações e, desde cedo, desenvolvem estratégias para conseguir fazer o que querem nos diversos contextos. Mas é perfeitamente possível esclarecer, por exemplo, que “a vovó permite que você faça isso quando está com ela, mas aqui em casa a história é outra, acabou seu “tempo de tela” hoje. Escolha outra coisa para fazer”.

Mulher, mãe e profissional – O equilíbrio difícil, porém possível

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“Não tenho tempo para mim!” Muitas mulheres que não conseguem cuidar de si mesmas se queixam da sobrecarga de tarefas: ainda é forte a carga social que exige ótimo desempenho em suas múltiplas funções. Há quem acredite que “é da natureza da mulher servir os outros”.

Tradicionalmente, a mulher tinha essa “missão” de cuidar da casa, do marido e dos filhos. No livro “Correio para mulheres”, que reúne textos que Clarice Lispector escrevia para jornais da década de 1960, encontramos conselhos do tipo: “ Cuidado na maneira como trata seu marido! Pense no que será perdê-lo…e faça-lhe as vontades”( p.98). “Uma mulher que recebe o chefe do seu lar com um ar cansado, e desfiando a ele um rosário de lamúrias sobre seus problemas caseiros, brigas com as empregadas e as malcriações dos filhos está entediando o marido e só conseguirá que ele se aborreça” (p.111).

Ao trabalhar fora de casa, encara a “dupla jornada”. Dados coletados em lares brasileiros em 2019 pelo IBGE mostram que as mulheres gastam, em média, 21,3 horas semanais cuidando dos afazeres domésticos e de pessoas, ao passo que os homens gastam, em média, 10,9 por semana. A saída? Romper com os padrões tradicionais, repartir tarefas, delegar responsabilidades, inclusive com os filhos, para que homens e mulheres sejam cuidadores e provedores. Em outras palavras: é preciso incomodar os acomodados. Que, certamente, irão reclamar e acusá-la de egoísta. Para se manter firme na nova postura, é preciso resistir ao apelo do sentimento de culpa e da exigência cruel consigo mesma. O quanto desses deveres são realmente necessários? O que pode deixar de ser feito?

Nos circuitos da interação, o que um faz influencia o que o outro faz e vice-versa: a mudança firme de postura acaba resultando em mudança de comportamento dos outros. Como relatou uma mulher: “Foi preciso meu filho adolescente ficar indignado ao ver a gaveta de meias e cuecas completamente vazia para perceber que eu realmente não voltaria a cuidar de suas roupas sujas”.

Cada um de nós passa por diversas etapas do ciclo vital: infância, adolescência, idade adulta. A família também tem um ciclo vital: com filhos pequenos e maiores. No entanto, em muitas situações, o padrão de cuidados maternos fica “congelado”:  Solicitações do tipo “Mamãe, esquente a comida pra mim!”, “Cuide da minha roupa” continuam vigorando, mesmo quando adolescentes e jovens adultos já podem fazer tudo isso por conta própria. Os “acordos de convívio” precisam mudar, acompanhando o crescimento dos filhos, para estabelecer um padrão de parceria e compartilhamento justo dos afazeres domésticos. Se a casa é de todos, todos colaboram!

“Ninguém cuida da casa tão bem quanto eu”; “Gosto de me sentir necessária” – são algumas das raízes da manutenção desse padrão. “Ninguém se oferece para fazer coisa alguma” – mas ela tampouco solicita. Ou pede ajuda apenas para as filhas, mas não para os filhos e nem para o companheiro. A necessidade de agradar e de ser reconhecida conduz à frustração: quanto mais faz, quanto mais oferece, mais é exigida e menos recebe reconhecimento e gratidão. Como funciona a via de mão dupla nos relacionamentos? O que oferecemos? O que recebemos? O quanto há de reciprocidade em termos de cuidados e atenção?

É necessário examinar o quanto, sem perceber, contribuímos para reforçar, nos outros, padrões de comportamento dos quais nos queixamos. E em que proporção construímos a sobrecarga a partir de nossas múltiplas funções.