Arquivo mensal: junho 2019

“Pai de rodinhas” ativo e amoroso

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Conheci Sérgio Nardini, o “Pai de rodinhas”, em um encontro de escritores e gostei de ouvir seu relato amoroso sobre sua transformação desencadeada pela paternidade, descrita em detalhes em seu livro. Ele tem uma patologia neuromuscular progressiva, o que o torna dependente de cuidados, inclusive para se alimentar. Mas isso não o impediu de estudar, trabalhar como artista plástico, nutrir boas amizades, casar-se e ter uma filha.

“Ser pai tem sido mergulhar de cabeça num admirável e apaixonante mundo desconhecido”. “Na verdade, eu quero e tento exercer a paternidade exatamente como eu acho que ela deve ser exercida: com responsabilidade e participação ativa”.

A força de vida que o impulsiona, juntamente com o bom humor, faz de Sérgio uma pessoa carismática, que inspira muita gente.  Extraí de seu livro algumas frases que convidam à reflexão:

  • A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional – serenidade nos dias de tormenta e alegria nos dias de sol.
  • Se não for possível ser feliz, esteja feliz!
  • Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.
  • A maior alquimia da vida é transformar simples momentos em grandes experiências.
  • Só há uma circunstância na vida em que você só segue adiante dando um passo para trás. É quando você está à beira de um abismo.

A questão é: Como é possível florescer como pessoa, mesmo em situações adversas?

Há tempos, li uma frase interessante: Diante das crises, você vai chorar ou vender lenços? O que fazemos com o que vida nos apresenta? Transformar dificuldades em oportunidades depende, fundamentalmente, da nossa atitude mental. Em síntese: não esmorecer diante das dificuldades.

Há uma grande diferença entre a postura de queixa/reclamação (“A vida foi injusta comigo”; “ninguém me dá oportunidades”) e a disposição de estar alerta para descobrir oportunidades, fazer novos projetos e criar recursos para realizá-los (“está difícil, mas não é impossível”).

“Depois que perdi tudo, o que me deixou no fundo do poço por um tempo, vi que preciso de pouco para viver bem” – ouvi de um ex-publicitário que atualmente trabalha como artista plástico em uma cidade do interior. Essa foi uma das dezenas de histórias de “crescimento pessoal pós-traumático”, que coletei no decorrer de dois anos, ao entrevistar 190 pessoas em mais de 20 cidades brasileiras para escrever meu livro “Construindo a felicidade”. O que há de comum nessas histórias? A capacidade de superação, o fortalecimento da resiliência para enfrentar as adversidades com disposição para buscar novos caminhos, utilizar habilidades para gerar trabalho quando se perde o emprego. Em síntese: fazer do limão uma saborosa limonada.

E mais: a atitude de fazer o melhor possível nas circunstâncias adversas melhora não apenas a vida da própria pessoa, mas de todos os que fazem parte do seu círculo de relações. Voltando ao “Pai de rodinhas”: sua filha, aos oito anos, cria mil jeitos de brincar com ele, de partilhar com alegria as atividades possíveis, e mostra a outras crianças como é se relacionar com um pai sem mobilidade física mas com plena capacidade de dar e receber amor.

Recomendo a leitura do livro! Pai de Rodinhas, de Sérgio Nardini, ed. Mogiana, 2019.

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A relação com os filhos na linha do tempo

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É interessante acompanhar o processo que se inicia com cuidar do bebê, evolui para a reciprocidade de cuidados entre pais e filhos adultos até, eventualmente, entrar na fase de os pais precisarem receber  cuidados dos filhos, quando adoecem já em idade avançada.

Como esse processo nem sempre evolui tão favoravelmente, é importante ver quais aspectos dos relacionamentos, além do amor, precisam ser nutridos na linha do tempo para que isso aconteça.

A relação com cada filho é única, não só pelas diferenças entre eles como também porque chegam em momentos distintos da vida dos pais, modificados inclusive pelas experiências com os filhos anteriores. Mas, em geral, o que os pais mais desejam é que seus filhos cresçam sendo capazes de tomar conta de si mesmos e de fazer boas escolhas. O que nem sempre acontece…

Na grandeza dos pequenos momentos do cotidiano é feita a tecelagem dos vínculos na família, em suas diversas composições (pais casados ou não, separados, em novas uniões, etc) a estimular o respeito pelos outros, o autoconhecimento, a empatia, a cooperação. Todos aprendem uns com os outros, quando se aprimora a qualidade de escuta que incentiva o hábito de “decidir em conjunto” sempre que surgem divergências de desejos, necessidades e pontos de vista.

Os limites necessários podem convidar a criar alternativas possíveis (“Isso que você quer não dá, mas vamos descobrir o que você pode fazer”), os “combinados” promovem o respeito pelos acordos (“Lembre que você me disse que faria os deveres assim que acabasse esse vídeo! Então…”).

Na conversa com adolescentes em uma escola, conversávamos sobre respeito, e uma aluna me perguntou: “E quando os pais não respeitam os filhos?” De fato, respeito precisa ser uma via de mão dupla! Como psicoterapeuta de famílias, vejo famílias em que há excesso de crítica, depreciação, agressões verbais e físicas chegando ao ponto de inviabilizar um bom convívio. Muitas questões emocionais estão envolvidas nesses relacionamentos tão conflituados. Por exemplo: insegurança da mãe ao se ver envelhecer, ao passo que a filha desabrocha em beleza. A mistura de ciúme e inveja resulta em ataques maciços à autoestima da filha, em um contexto social que glorifica a beleza jovem. O pai que ataca impiedosamente o filho adolescente que se aliou à mãe após a separação do casal.

Canais de conversa preciosos se fecham quando predomina a dificuldade de “abrir o coração” para, desde que os filhos são pequenos, falar sobre o que percebemos que eles sentem e dizer o que sentimos com clareza, evitando as “palavras que batem” quando nos irritamos ou discordamos de alguns comportamentos. Na linha do tempo do relacionamento familiar, conhecer os outros e se conhecer é um processo interminável. Colocar limites, fazer “combinados”, decidir em conjunto são ações que nos levam a fazer revisões de nós mesmos e a nos modificarmos, na medida em que os filhos crescem e nos ensinam a lidar com eles.