Arquivo mensal: agosto 2019

É preciso liberar o poder masculino de cuidar!

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Essa é uma das ideias centrais do Relatório do estado da paternidade no mundo (2019), organizado pela ONG Promundo que lidera a campanha MenCare, , cujo objetivo é promover o desenvolvimento de meninos e homens como cuidadores, estimular o envolvimento ativo com a paternidade positiva, a prevenção da violência e o cuidado com a saúde da família, para atingir uma equidade completa entre homens e mulheres na casa e no trabalho. Selecionei os trechos que considerei mais importantes:

  • No mundo, as mulheres ainda gastam até dez vezes mais tempo do que os homens no trabalho doméstico não remunerado. Embora muitos homens estejam participando mais nos cuidados com a casa e com a família, em 23 países a diferença do tempo gasto nessas tarefas por homens e mulheres diminuiu somente sete minutos por dia no decorrer de 15 anos. Apenas 48% dos países dão licença-paternidade remunerada, que varia entre três semanas e apenas alguns dias. E, mesmo assim, ainda é pequena a proporção de homens que pegam essa licença.

Relato de um pai chinês: “A licença-paternidade é necessária. Percebi isso pela minha própria experiência: ao estar presente no nascimento de meu filho senti a grandeza das mães e isso desenvolveu meu senso de responsabilidade”.

  • Em todo o mundo ainda predomina a ideia de que cuidar da casa e da família é tarefa da mulher e o homem provedor pode se isentar de participar desses cuidados. As mulheres ainda são consideradas cuidadoras “naturais”. É preciso mudar essa ideia urgentemente, para alcançar a equidade entre homens e mulheres.  O trabalho não remunerado de cuidar inclui as tarefas da casa (lavar, passar, cozinhar, limpar), assim como cuidar de membros da família (crianças, idosos, pessoas com necessidades especiais).

Relato de uma mulher do Nepal: “Quando meu marido me ajuda a lavar a louça, até minha sogra o critica. Outras pessoas também me depreciam por isso. Os homens que querem ajudar ficam com medo de serem ridicularizados pela comunidade”.

  • O maior envolvimento dos homens nas tarefas cotidianas beneficia todos, inclusive a saúde das mulheres. Melhora a relação entre o casal e reduz a incidência de violência intrafamiliar. O envolvimento do pai traz benefícios para o desenvolvimento de meninas e meninos. Para os homens, há melhoras na saúde física, mental e sexual. Em sete países, 85% dos homens disseram que fariam qualquer coisa para conseguirem cuidar mais de seus filhos, biológicos ou adotivos, nas primeiras semanas e meses de vida.

 

  • Essa grande mudança precisa encontrar respaldo nas políticas públicas, no gerenciamento das empresas e no ativismo da sociedade, para liberar o grande poder do cuidado masculino e terminar com a desigualdade do tempo dedicado ao trabalho doméstico não remunerado. A educação de meninos e meninas precisa transmitir o valor da capacidade de cuidar. As empresas precisam criar um ambiente de trabalho que apoia o envolvimento no cuidado tanto para homens quanto para mulheres. ONGs, influenciadores da mídia e a imprensa precisam apoiar campanhas que valorizem a capacidade masculina de cuidar. É um trabalho a ser feito pela sociedade como um todo.

 

  • É preciso haver um esforço coletivo para estimular os homens a assumirem 50% da tarefa de cuidar da casa e da família. Abandonar a ideia do homem que “ajuda” para marcar a importância de compartilhar o cuidado igualmente. Por isso, os homens precisam ser incluídos nos grupos de trabalho com bebês e crianças pequenas para promover autoconfiança e desenvolvimento de habilidades. O ato de cuidar é muito importante e, por isso, é preciso liberar o poder masculino de cuidar.

 

  • Líderes religiosos e comunitários podem desempenhar um importante papel para promover a equidade de gênero e a prevenção da violência, atuando como modelos de referência para muitos homens. Os profissionais de saúde precisam incluir ativamente os homens na assistência à mulher e à criança em suas rotinas de atendimento, por exemplo, nas consultas de pré-natal. Os educadores podem sensibilizar as crianças desde cedo para o poder de cuidar e de desenvolver empatia, como no programa Raízes da Empatia, que envolve a observação de bebês e sua interação com a família. A mídia pode veicular matérias mostrando homens sendo cuidadores competentes.

 

  • A desigualdade na distribuição do tempo para as tarefas domésticas começa na infância: as meninas se envolvem cerca de 40% a mais do que os meninos, o que as deixa com menos tempo para estudo e lazer. De uma menina colombiana: “Lá em casa, eu tenho que varrer a casa, lavar a louça e as roupas do meu irmão. Ele pode aprender a fazer isso também”!

 

  • Até agora, nenhum país atingiu completamente a equidade em termos do trabalho não remunerado de cuidar, assim como na equiparação de salários pelo mesmo trabalho, de homens e mulheres. Da mesma forma, nenhum país colocou como meta que homens e meninos façam 50% do trabalho não remunerado de cuidar. O trabalho não remunerado de cuidar é extremamente importante e o fato de que são as mulheres e as meninas que fazem a maior parte desse trabalho está na raiz da falta de equidade de gênero, pois dificulta que as mulheres estejam em pé de igualdade no mercado de trabalho.

Para ler o Relatório completo: Van der Gaag, N., Heilman, B., Gupta, T., Nembhard, C., and Barker, G. (2019). State of the World’s Fathers: Unlocking the Power of Men’s Care. Washington, DC: Promundo-US.

Há também o link de acesso: https://s30818.pcdn.co/wp-content/uploads/2019/05/BLS19063_PRO_SOWF_REPORT_015.pdf

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Você vive na prisão das expectativas?

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“Percebi que vivi muito tempo da minha vida tentando preencher as expectativas dos outros. Consegui aprender a dizer Não e isso é libertador!”; “Como descobrir se uma expectativa é genuína ou imposta pela sociedade?”

Foram muitas perguntas e comentários sobre o que fazer com nossas expectativas, na Live que fiz com Josie Conti. O autoconhecimento, um processo que jamais termina porque somos todos uma “obra em progresso”, é a chave para conseguir diferenciar entre o que é nosso legítimo desejo (de ter ou não ter filhos, de escolher uma determinada profissão, de casar ou continuar na solteirice) e a “obrigação” de preencher expectativas dos outros (pais, amigos, a própria sociedade).

As expectativas impostas são um fardo pesado. Quando nos submetemos a elas tentando agradar os outros para sermos amados e reconhecidos não conseguimos nos sentir felizes, porque estamos traindo a nós mesmos. Por exemplo, quantas mulheres legitimamente não desejam ter filhos mas acabam engravidando porque são pressionadas pela crença de que a mulher só se realiza pela maternidade, pelo desejo do companheiro ou de sua própria mãe que quer ser avó?  Quantos jovens entram na universidade para preencher expectativas da família para que escolham uma determinada profissão que não corresponde ao seu legítimo desejo?

“Vivi 25 anos com o pai dos meus filhos, mas não me sentia feliz, estávamos juntos por causa das crianças, até que não aguentei mais e me separei”. Não é fácil romper essas amarras e gritar (sobretudo para si própria) “Não é isso o que eu quero”! A expectativa familiar/social de que o casamento deve durar “até que a morte vos separe”, a crença de que filhos de pais separados ficam traumatizados ou a ameaça de que é “ruim com ele, pior sem ele” dificultam um exame mais aprofundado da relação para chegar à conclusão de que está no fim do ciclo e que o melhor a fazer é se separar, para cada um seguir seu caminho, dissolvendo a relação conjugal e cuidando o melhor possível da relação parental.

É libertador desprender-se dessas expectativas para escolher o que realmente faz sentido para nós, mesmo que seja completamente fora do convencional.

“Estou há trinta anos em um relacionamento e é um ideal frustrado”; “Esperamos de uma pessoa algo que ela não pode nos dar”; “Paixão é tentar materializar em alguém nossas fantasias e depois descobrir que não era nada daquilo”; ”Esperamos o que jamais existiu”.  O que acontece é que às vezes nos aprisionamos tanto em nossas próprias expectativas que sobra pouco espaço para descobrir coisas boas e reais na outra pessoa. Para passar da paixão ou de um ideal fantasiado para o amor é preciso descobrir e gostar das semelhanças e das diferenças, da complementariedade que desenvolve o respeito e a aceitação das características de cada um.

“Sempre tendemos a colocar a felicidade em um ponto futuro”. Ao criar a expectativa intensa de alcançar o que ainda não temos,  não prestamos a devida atenção ao presente do presente, que é o que realmente temos. A felicidade está nos pequenos milagres do cotidiano, na capacidade de saborear os bons momentos e de cultivar a gratidão por tudo que chega até nós, inclusive os problemas, que nos permitem criar recursos para enfrentá-los.