Arquivo mensal: setembro 2019

Você sabe o que é agilidade emocional?

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É preciso desenvolver flexibilidade de pensamentos e sentimentos para reagir da melhor forma possível ao que a vida nos apresenta. Para isso, apesar das tensões, pressões e exigências da vida complexa e de mudanças rápidas que caracterizam o século XXI, precisamos aprender a relaxar e a encontrar o propósito de estarmos nesse mundo, nesse momento.

Com isso, fortalecemos a resiliência para enfrentar desafios e dificuldades, entendendo que tudo isso faz parte do “pacote” de existir. E decidir seguir em frente mesmo quando sofremos decepções e desilusões significativas.

Mas, antes de “seguir em frente”, é preciso ”olhar de frente” sem negar ou minimizar as dificuldades e o que sentimos diante das situações. Fragilidade, raiva, insegurança, medo do fracasso e da rejeição coexistem com nossa força, coragem e esperança. Aprender a “surfar nas ondas” dos sentimentos, em vez de combatê-los ou criticá-los é um modo eficaz de desenvolver autoconhecimento e autocompaixão. Nosso lado sombrio faz parte do “pacote” de nossa humanidade. Olhar tudo isso de frente, com curiosidade, em vez de negar ou combater, liberta e transforma. Não há mudança possível sem reconhecimento e aceitação do nosso “eu inteiro”.

Os sentimentos são o que são e se transformam uns nos outros no fluxo da vida. Não podemos “escolher” sentir isso ou aquilo, mas podemos decidir o que faremos a partir do que sentimos. E também aprofundar o autoexame para entender as “camadas” dos sentimentos. Por exemplo, sob muitos ataques de raiva, encontramos tristeza e frustração. Sob manifestações de ciúme e possessividade, encontramos medo de perda, insegurança. Crie o hábito de perguntar a si mesmo: “O que esse sentimento está querendo me dizer?”

Por isso, para que nossos filhos e netos desenvolvam agilidade emocional desde cedo, é importante reconhecer, nomear, aceitar e entender o que está sendo sentido para que percebam que não é necessário reprimir sentimentos, embora, muitas vezes, seja preciso refrear algumas ações (“estou sentindo raiva, mas não vou bater na minha irmãzinha”). E aprender a lidar com frustrações, estresse, desconforto – as “dores do crescimento”.

Podemos ainda escolher como olhar para a situação difícil: se a vemos como um problema insolúvel, intensificamos o medo e nos paralisamos; se a vemos como uma oportunidade, ficaremos mais flexíveis para buscar recursos, encarar o desafio e aceitar que os erros fazem parte da aprendizagem de viver. Agilidade emocional é aprender a surfar nas ondas da vida, ajustar as lentes para buscar o melhor ângulo do olhar e se considerar como uma “obra em progresso”, como agente da própria transformação e do próprio crescimento.

No decorrer da vida, fazemos planos, estabelecemos metas, determinamos onde queremos chegar. Alguns desses planos se concretizam, outros não. Novas metas, novos planos, lucidez para decidir o quanto ainda vale a pena insistir (em um campo de trabalho, ou em um relacionamento amoroso) e quando é para decretar “fim de ciclo” e sair. A agilidade emocional nos permite pesar melhor os prós e os contras para tomar a melhor decisão e seguir novos rumos que legitimamente desejamos. Com coragem e determinação.

Nas palavras de Susan David, cujo livro “Agilidade emocional” (ed. Cultrix, 2016) inspirou esse texto:

“Coragem não é ausência de medo. Coragem é caminhar no medo”.

“ A beleza da vida é inseparável da sua fragilidade. Somos jovens até que deixamos de ser. Somos saudáveis até que deixamos de ser. Estamos com aqueles que amamos até deixarmos de estar.”

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Relacionamento abusivo entre crianças

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De uma mãe preocupada: “Percebo que minha filha de oito anos está estressada com uma amiga da escola que não a deixa em paz: não quer que ela converse com outras meninas, liga várias vezes por dia, ameaça de acabar com a amizade se ela lhe desobedecer. Minha filha gosta dessa menina, mas não gosto de vê-la se submetendo a essas exigências. Não sei bem o que fazer, dá vontade de interferir, mas não sei como”.

O comportamento de possessividade, ciúme, desejo de exclusividade acontece basicamente por insegurança e medo de perda de quem age assim, e se expressa por mensagens de ameaça e intimidação. A pessoa que se deixa intimidar (criança, adolescente ou adulto) também sente medo da perda, de ser atacada e prejudicada de algum modo. E, muitas vezes, não consegue se desvencilhar desse relacionamento ou colocar os limites apropriados.

Ações de bullying, com seu típico padrão de repetição e desigualdade de poder, constroem relações abusivas. Envolvem não só agressões físicas mas também agressões verbais, intimidação, chantagem, ameaças. Essas ações às vezes acontecem de forma velada (não somente na sala de aula mas também no pátio, no banheiro, no transporte escolar), a ponto de não serem percebidas pela equipe escolar. E a criança atingida, com pavor de que a situação possa piorar se falar sobre isso com alguém, muitas vezes pensa que não há saída a não ser sofrer em silêncio.

Como todos nós – crianças, adolescentes e adultos – temos forças e fragilidades é importante reconhecer nossos “pontos fracos” e fortalecer a resiliência para lidar com situações difíceis sem se deixar abater por elas, cultivando a autoproteção para detectar sinais de condutas abusivas, assertividade para colocar os limites devidos (“eu vou, sim, continuar a falar com outras meninas, você não pode mandar em mim”) ou se afastar da pessoa que se comporta de modo indevido.

É claro que os relacionamentos abusivos entre crianças precisam da intervenção de adultos, tanto na família quanto na escola, por meio de recursos para modificar as interações nessas redes de relacionamentos. Por isso, os programas de prevenção ao bullying abrangem ações de sensibilização de toda a equipe escolar e das famílias, assim como o trabalho com alunos que praticam, sofrem e presenciam esses comportamentos abusivos. Os que presenciam, quando bem conscientizados, promovem uma efetiva rede de inibição desses comportamentos, mostrando que a popularidade e a liderança devem ser desenvolvidas por outros meios que não a intimidação e a dominação.

Com crianças e adolescentes enredados em relacionamentos abusivos, as perguntas reflexivas são recursos para estimular outros tipos de ação. Por exemplo: “Que outras crianças podem ser suas amigas sem querer mandar tanto em você?”  (reduzir o poder da criança “mandona” ampliando o círculo de amizades). Fortalecer a criança para perceber e reagir com assertividade aos sinais de relacionamentos abusivos contribuirá para, poucos anos mais tarde, ela se posicionar diante de exigências abusivas de ciúme e possessividade, disfarçadas de zelo e proteção ( “Eu disse a ele que vou continuar usando as roupas que eu quiser e sem essa de eu dar as senhas das minhas redes sociais”).