Arquivo do autor:Maria Tereza

Invejar, admirar, almejar

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As “cores” do que sentimos se mesclam dentro de nós, e podem abrir ou fechar caminhos de vida.

Muitos casos de bullying são motivados pela inveja daqueles que, por acharem que não conseguirão se equiparar à pessoa invejada em termos de beleza, inteligência ou competência, a atacam impiedosamente, provocando grande sofrimento. Lembro-me de um caso em que a adolescente foi imobilizada por duas colegas no banheiro da escola enquanto uma terceira passava a tesoura no cabelo comprido que tanto despertava inveja. Em equipes de trabalho, a pessoa invejada por sua competência pode ser alvo de perseguição e ataques à sua reputação por meio de mensagens difamatórias amplamente compartilhadas nas redes sociais.

Na conversa com o grupo de amigos o tema invejar, almejar, admirar deu margem a reflexões interessantes, incluindo relatos de casos sobre a emissão de energia negativa que seca plantas invejadas – o “olho de seca-pimenteira”.

As fronteiras entre invejar, almejar e admirar são fluidas. Há quem fale em “admireja”, para se referir à dificuldade de demarcar o território entre admirar e invejar. Uma das participantes relatou que, quando menina, tinha uma amiga que estudava em escola americana. Ela se sentia inferiorizada porque não sabia falar inglês. Porém, passou a almejar a aprendizagem de idiomas. Atualmente, fala sete com fluência. Invejar passou a ser almejar e, com dedicação, superou a meta.

Quando a pessoa se enreda na teia da inveja paralisa o próprio progresso e destrói oportunidades de vida. Há alguns anos, passei por uma situação constrangedora. Quando menina, por ser a mais alta do grupo, sempre era escolhida para coroar a imagem de Nossa Senhora na festa da igreja, vestida de anjo. Quarenta anos depois, após ter participado de um programa de televisão, recebi um telefonema de uma mulher dizendo que passou a vida toda me invejando porque nunca conseguiu coroar Nossa Senhora. Fiquei pasma, sem saber o que dizer. Lamentei o quanto essa pessoa se prejudicou colocando essa inveja em lugar de destaque em sua vida…

Como terapeuta de casais e de família, vi muitos casos de inveja da mãe pela juventude da filha, revelando sua dificuldade de envelhecer. Entre irmãos, em que a inveja se mistura com ciúme e raiva, motivando ataques para derrubar o outro, como se estivessem brincando de gangorra. Em casais, quando um não suporta o crescimento do outro porque se sente inferior, inseguro e com medo de perda, e, então, tenta sabotar o progresso do outro em vez de cuidar de abrir seus próprios caminhos.

O exercício da gratidão inibe a inveja: valorizamos e agradecemos o que temos em vez de nos torturarmos porque não temos o que os outros possuem, estabelecendo comparações desfavoráveis, como acontece tão comumente quando passeamos pela linha do tempo das redes sociais.

Por outro lado, a admiração pode inspirar o esforço para trilhar caminhos semelhantes ao da pessoa admirada. “Quero ser tão competente como ele”. Muitos alunos elegem professores como figuras de referência. E há professores que admiram alguns alunos pela clareza de raciocínio ou pela capacidade de liderança.

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“Não quero que meu filho se frustre!”

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Para desenvolver habilidades como a de quem fez essa gravura japonesa é preciso, além de talento, paciência e persistência.

Ao colocar a criança na redoma da superproteção, perde-se a noção não só da inevitabilidade como do valor da frustração para fortalecer a resiliência e a capacidade de criar alternativas quando aquilo que desejamos não se concretiza.

Aprender a lidar com a frustração fortalece a persistência para não desistir facilmente diante dos obstáculos. Isso também ajuda a valorizar o erro como fonte de aprendizagem, e não como uma ameaça à autoconfiança.

Em conversa com os professores de uma escola, ouvi que muitos pais não querem que o filho se frustre, nem que perca nos jogos, tire uma nota baixa ou sinta ciúmes do bebê que nasceu. Talvez isso decorra da falsa noção de que felicidade é sinônimo de ausência de problemas. No entanto, os estudos sobre o tema mostram que a construção da felicidade tem mais a ver com a capacidade de consolidar uma serenidade interior até mesmo em épocas turbulentas.

No decorrer da vida, é inevitavelmente frustrante cair quando se tenta dar os primeiros passos, quando começa a andar de bicicleta sem as rodinhas de apoio, quando escreve as primeiras letras, quando leva um fora do primeiro amor, quando estuda para o vestibular e não consegue se classificar, quando a empresa encolhe a equipe e a pessoa está entre os demitidos.

Lidar com a frustração ajuda a valorizar os pequenos progressos no caminho de construir novas habilidades que demandam paciência para treinar ao praticar um esporte ou tocar um instrumento musical. É impossível ter o mesmo desempenho dos “ídolos” do futebol ou da guitarra sem percorrer um longo caminho para desenvolver essas habilidades. Manter a automotivação para não desistir diante das dificuldades é indispensável ao progresso.

Há pais que questionam os professores quando os colegas do filho já aprenderam a ler ou fazem desenhos mais elaborados. Essa comparação constante angustia os pais e os impedem de considerar as variações da normalidade e a diversidade das competências. Ninguém é supercompetente em tudo. Faz parte do autoconhecimento perceber em que áreas somos mais capazes para investir em expandi-las e em que áreas somos incompetentes para aceitar essas limitações.

Perguntas reflexivas são úteis no diálogo entre professores e pais: “Como vocês aprenderam a lidar com as frustrações”? “Que benefícios o filho de vocês teria caso fosse possível evitar frustrações”? “Considerando que as frustrações são inevitáveis e até mesmo necessárias, como vocês lidam com isso com seus filhos”?

Essas perguntas reflexivas são um convite para que as famílias se esforcem para aprimorar a parceria com a escola, em vez criar expectativas e fazer cobranças de que a equipe escolar seja a principal responsável pela educação de crianças e adolescentes.

Desenvolvendo a competência socioemocional

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É preciso cultivar as competências socioemocionais com carinho, paciência e persistência, como para fazer um belo jardim como esse que fotografei na Holanda.

Querem que seus filhos e alunos façam boas escolhas, tomem decisões com responsabilidade, saibam resolver problemas e conflitos que surgem, consigam cultivar bons relacionamentos, lidem bem com suas emoções, tenham persistência para vencer obstáculos, se comuniquem com clareza e respeitem as pessoas?

Essas são as principais competências socioemocionais. E por que desenvolver tudo isso é indispensável para viver bem no século XXI?

Estamos na era da grande transição, delineando um futuro ainda imprevisível, com rápida evolução da tecnologia e da inteligência artificial. Muitas das profissões que hoje existem deixarão de existir ainda não sabemos que profissões existirão em duas décadas. Por isso, é preciso preparar as crianças desde cedo para a capacidade de ajustar-se às mudanças, construir a resiliência para lidar com frustrações e cenários adversos e ter flexibilidade mental para criar alternativas viáveis.

A neurociência nos mostra que a arquitetura cerebral é fortemente influenciada pela qualidade dos vínculos com pessoas significativas. Desde o início da vida, esses vínculos formam uma base sólida ou frágil que terá repercussões no desenvolvimento futuro, refletindo em aprendizagem, comportamento e saúde.

As inúmeras situações do dia a dia na família e na escola são oportunidades de desenvolver as competências socioemocionais, consideradas como recursos essenciais para enfrentar os desafios deste século.

Alguns exemplos práticos:

  • Empatia – reforçar a percepção do impacto de ações da criança sobre os outros: “Quando você arranca o brinquedo da mão do seu amigo, ele fica chateado e zangado com você”.
  • Criar soluções – estimular a criança e o adolescente a assumir responsabilidade e criar automotivação, em vez de logo aplicar castigos (“Vou tirar do futebol e confiscar o celular”) que intensificam a raiva e podem fortalecer a resistência: “Você não está indo bem na escola, tem estudado pouco. O que fazer para melhorar seu rendimento? Vamos pensar e fazer um plano de estudos mais eficiente”?
  • Gerenciamento de conflitos – nas brigas entre irmãos, em vez de se colocar no papel de juiz que aplicará as “sentenças”, convidar a criar alternativas para encontrar soluções satisfatórias para ambas as partes: “Se um começou, o outro continuou. Então a briga é dos dois. Vamos criar boas ideias para resolver o problema”!
  • Segunda oportunidade – diante de respostas grosseiras, estimular a conduta de reparação e a reflexão sobre a forma equivocada de se comunicar: “Aposto que você consegue dizer a mesma coisa de modo mais respeitoso”.
  • Revisão de comportamento inadequado – passada a “tempestade emocional”, reconstruir o ocorrido para imaginar desfechos mais adequados: “Ontem de manhã, você perdeu o controle, me xingou e me tratou de um modo inaceitável. E eu também perdi a paciência e me irritei muito com você. Vamos pensar como poderíamos ter conduzido melhor o que aconteceu”.

As competências socioemocionais podem ser desenvolvidas por toda a vida. Sempre há a possibilidade de aprimorar o autoconhecimento, perceber nossos pontos fracos e fortes, reconhecer o que sentimos e como reagimos. Desse modo, aprendemos com os erros e selecionamos a expressão adequada do que sentimos, possibilitando a construção de bons relacionamentos.

O convívio cotidiano com filhos e alunos nos oferecem oportunidades valiosas de desenvolvimento pessoal.

 

Medo de compromisso

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Essa imagem, da edição original de meu livro Histórias da vida inteira, corresponde a um texto sobre o medo de amar.

Os encontros românticos se sucedem, ambos parecem felizes e apaixonados. De repente ele diz: “Estamos nos vendo muito, e eu não quero compromisso”. E desaparece.

Ela, perplexa. “Como assim?! A gente gostava das mesmas coisas! A conversa era boa, o sexo era ótimo, e de repente… Será que ele arranjou outra”?

Com tanta oferta, inclusive dos aplicativos de encontros, muita gente pensa: “Se eu ficar estável com uma pessoa, quantas oportunidades vou perder”? Mas nem sempre é o medo de perder a liberdade de usufruir de tantas escolhas. É o medo de sofrer de novo se gostar muito. As marcas de desilusões anteriores, as histórias de rejeição e abandono pesam mais do que a esperança de reencontrar o amor.

Nas redes sociais, o número de “amigos” conta mais do que o que se ganha aprofundando relacionamentos em menor quantidade. Nos aplicativos de encontros também vale esse conceito de “quanto mais, melhor”? O celular cheio de contatos para a troca de mensagens é que dá popularidade e aumenta a autoestima? Ao final de um período em que vários encontros se sucedem e nenhum vai adiante, surge a frustração do vazio afetivo.

Na conversa com um grupo de amigos sobre esse tema, comentamos sobre o livro “Amores líquidos”, de Z. Bauman. Para ele, o modelo da sociedade de consumo que considera descartáveis objetos com pouco uso ou programados para durar pouco foi transferido para os relacionamentos amorosos que também se tornaram descartáveis e rapidamente substituídos por “modelos mais novos”.

Uma das participantes ironizou: “Os amores já passaram de líquidos, estão quase gasosos”…

Outra participante comentou que sua sobrinha, de 19 anos, que mora nos Estados Unidos, lhe contou que, na faculdade em que estuda, ninguém namora, só fica. Namoro é só quando está terminando os estudos: “Quando em uma festa um rapaz se aproxima e percebe que eu não quero ficar, a conversa acaba rápido e ele procura outra”.

Por outro lado, uma participante, com 63 anos, disse: “Minha vida está muito estruturada, tenho meus hábitos e uma casa com a minha cara. Meus filhos já saíram de casa e eu gosto de morar sozinha. Chego a pensar que seria bom ter um companheiro, mas não quero fazer concessões, quero que minha vida fique do jeito que está”.

Construir um casamento ou uma união estável requer acordos e ajustes de ambos os lados. Quando a relação é boa, os ganhos são maiores do que as renúncias. Mas a vida segue, como disse uma participante. Citou o caso de um amigo que, após mais de 20 anos de casado, vivia um “casamento morno” e se perguntou: “É isso o que eu quero para o resto da minha vida”? Não era. Sem medo de desfazer um compromisso de longa duração, apaixonou-se e há anos vive feliz com a atual companheira. Sem medo de compromisso.

 

Comunidades no coração da Amazônia

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A pousada Uacari, em Mamirauá.

Cinco dias em Mamirauá , a primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável brasileira, criada em 1996, me fizeram mergulhar em cenário de extrema beleza na época da cheia, em que a locomoção só é possível por barcos e canoas.

Com cerca de um milhão de hectares, a 600 km a oeste de Manaus, Mamirauá é também um centro de pesquisas sobre a biodiversidade, coordenado pelo Instituto Mamirauá, em Tefé (AM). Com pouco menos de uma hora de lancha, chega-se à Pousada Uacari, flutuando no Médio Solimões, que gera emprego e renda para as pessoas das comunidades situadas dentro da Reserva. Parte da renda gerada pela pousada destina-se ao financiamento de projetos comunitários e da vigilância ambiental da área.

Incrível ver a capacidade de adaptação ao contexto: formigas e cupins fazem suas casas no alto das árvores porque, na cheia, o rio sobe até 12 metros. Nas saídas de barco foi possível observar preguiças, diversos tipos de macacos, mucura xixica (marsupial que come as flores da munguba), iguanas, botos, jacarés, inúmeros pássaros e aves (martim-pescador, maritacas, periquitos, papagaios, surucunã de coleira, alicorne, jaçanã, arirana vermelha, cigana, gaviões).

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A floresta alagada, nos seis meses de cheia.

Lamentei não poder nadar no rio, cheio de jacarés, piranhas e outros seres. Mas gostei de, nas canoas, tomar banho de chuva que cai torrencialmente por pouco tempo. E de entrar de canoa pela floresta alagada, com cipós enormes formando esculturas naturais, um santuário. É emocionante sair de barco à noite, ouvindo os sons da floresta, contemplando o céu estrelado e reverenciando toda essa grandeza.

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O guia comunitário João, falando sobre o vida na comunidade São José.

Uma das saídas foi para visitar a comunidade São José. João, o guia comunitário, falou sobre a história e o estilo de vida do grupo, composto por treze famílias, sendo 27 crianças. Na década de 1970, “vieram os padres para estimular a gente a construir as casas próximas umas das outras para a gente se organizar” – conta ele. Cada comunidade tem um estatuto e elege um presidente por quatro anos. As decisões são tomadas pelo grupo.

Para cuidar da saúde, plantas medicinais. Uma agente de saúde visita semanalmente as comunidades e encaminha os casos que necessitam de atendimento especializado para um hospital em uma cidade que fica a meia hora de barco. As parturientes também são atendidas lá, não há mais a tradição de partos assistidos por parteiras.

Coletam água da chuva e a tratam com cloro para beber. A água do rio é para cozinhar, lavar, tomar banho. Não há tratamento de esgoto, nem internet, nem celular. Há um gerador a diesel, que funciona das 18 às 22hs.

Desde cedo, as crianças aprendem a nadar, remar e pescar. A comunidade conta com uma escola com uma única sala em que o professor dá aulas para crianças de 4 a 10 anos.

Sabedoria de um menino de sete anos, referindo-se ao grupo de visitantes: “Vocês falam demais! A gente precisa ouvir os pássaros, os bichos, as árvores”…

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O fantástico pôr do sol no Lago Mamirauá, com sinfonia de pássaros.

No último dia, a saída de barco foi para contemplar o pôr do sol no lago Mamirauá, que tem dez quilômetros de extensão, cerca de 35 metros de profundidade e 280 metros de largura. Nunca seca, e a pesca é proibida. Foi onde se implantou uma Estação Ecológica, em 1986. Contemplar o pôr do sol neste lago é um espetáculo de cores e de canto dos pássaros.

Paternidade participativa

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Um dos muitos bons momentos com meus pais.

Fui criada no modelo tradicional de pai provedor/mãe cuidadora. Meu pai era amoroso e sensível, ouvia mais do que falava e foi muito importante para minha formação.

Trabalhando com famílias há mais de quatro décadas, acompanho as transformações não só das formas de constituir uma família como também do entendimento crescente da importância de partilhar as funções de prover e de cuidar.

Por muitas décadas, a ênfase na relação mãe-filho colocou o pai em segundo plano ou, então, lhe atribuiu o papel de “agente da lei” na educação das crianças. Porém, os estudos mais recentes mostram a importância fundamental do homem que participa do dia a dia do bebê e da criança pequena com ternura e acolhimento nos momentos de trocar fraldas, dar banho, brincar, cantar. Esses pequenos grandes acontecimentos do cotidiano constroem os alicerces do vínculo seguro, que repercute positivamente no desenvolvimento no decorrer da infância e da adolescência. Não é mais o homem que “ajuda” a mulher (como se fosse um favor), mas o pai que participa ativamente da criação de filhos e filhas.

Profissionais de saúde e economistas estão mostrando com maiores detalhes a prioridade que precisa ser dada à primeira infância (da gestação aos seis anos de idade) para promover um desenvolvimento saudável. A inclusão do homem em consultas do pré-natal e nos grupos de “famílias grávidas”, a lei que garante o direito a um acompanhante no trabalho de parto (Lei do Acompanhante – 11.108/2005), a licença-paternidade estendida são exemplos de políticas públicas que priorizam o foco na família e não apenas na gestante.

O envolvimento paterno desde a gestação fortalece o vínculo e reduz a incidência de violência intrafamiliar, negligência e abandono. Isso vale também para o pai adolescente. Nem todas as gestações na adolescência resultam em experiências negativas mas, para favorecer uma experiência positiva de parentalidade, é preciso uma assistência de boa qualidade das equipes de saúde, família e comunidade. No acompanhamento ao parto humanizado, onde a mulher tem liberdade de se movimentar e escolher as posições mais confortáveis no trabalho de parto, a presença do homem bem orientado (que participa ativamente oferecendo massagens e acolhimento à parturiente) dá o suporte essencial e a oportunidade de mergulhar na emoção de presenciar o nascimento da criança.

Igualmente importante é o apoio do pai no período da amamentação, dividindo a responsabilidade dos cuidados e das tarefas domésticas para que a mulher tenha a necessária tranquilidade para amamentar o bebê.

O Relatório de 2017 sobre a Situação da Paternidade no Mundo revela que, em nenhum país, a participação dos homens nos cuidados com a prole é igual à das mulheres, porém é crescente o número de homens que se abrem para a experiência da paternidade participativa, que resulta em um novo modelo de masculinidade e uma experiência de desenvolvimento pessoal na tecelagem do vínculo com os filhos, em qualquer tipo de organização familiar.

Campanhas globais (como as do Instituto Promundo e MenCare ) que promovem o envolvimento de homens e meninos como cuidadores equitativos e não-violentos, assim como grupos em redes sociais que permitem a troca de ideias sobre a experiência da paternidade e suas emoções, são recursos que constroem o modelo necessário de masculinidade baseado no afeto e no cuidado.

Links sobre o tema:

https://docs.google.com/viewerng/viewer?url=http://promundo.org.br/wp-content/uploads/sites/2/2018/05/sumario_situacaodapaternidade2017_01d_baixa.pdf

 

http://desenvolvimento-infantil.blog.br/uma-nova-geracao-de-pais-revoluciona-a-paternidade-no-mundo/

https://sowf.men-care.org/wp-content/uploads/sites/4/2015/07/The-State-of-Fatherhood-and-Caregiving-in-Brazil_Portuguese_web-1.pdf

https://promundo.org.br/wp-content/uploads/sites/2/2014/08/promundo_manualp_07i_web.pdf

Disciplinar crianças à luz da neurociência

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O cérebro integrado nos permite navegar pelo meio do “rio do bem-estar”, longe das margens do caos e da rigidez (Fotografei em Peruíbe, SP).

Os recursos de manejo em situações do dia a dia com crianças e adolescentes em abordagens como a de Thomas Gordon (“Parent Effectiveness Training”) e de outros especialistas me inspiraram a escrever Comunicação entre pais e filhos, a partir de minha experiência com grupos de pais. É muito bom constatar a validação da eficácia desses recursos à luz dos estudos sobre a formação do cérebro na infância em livros como Disciplina sem drama, de Dan Siegel e Tina Bryson. Destaco os seguintes aspectos deste livro:

  • O cérebro está sempre se reprogramando a partir das experiências vividas. As ações de pais e educadores influenciam essa modelagem do cérebro.
  • Se considerarmos a construção do cérebro como uma casa, o “andar de baixo” é constituído pelo tronco cerebral e pelo sistema límbico e o “andar de cima” pelo córtex cerebral, que demora muito tempo para se consolidar.
  • Na criança pequena, predomina o “andar de baixo” (ataques de birra, explosões de raiva, recusa em fazer o que é preciso) que ela ainda não consegue controlar sozinha. Por isso, são momentos importantes para disciplinar no sentido de ensinar, e não de punir. Os limites precisam vir de fora até que, pouco a pouco, se fortaleçam os circuitos neuronais do “andar de cima”, que possibilita o autocontrole.
  • Nos episódios de mau comportamento, é essencial conectar-se com o que a criança sente (raiva, tristeza, frustração), reconhecer e validar seus sentimentos, mesmo quando não concordamos com o que ela fez. Só assim, ela poderá passar da reatividade para a receptividade e prestar atenção ao que dizemos. Em primeiro lugar, conectar-se com a criança para, depois, redirecionar seu comportamento.
  • Refletir os sentimentos faz com que a criança se sinta amada e compreendida. Então, poderá aceitar a ideia de uma “segunda oportunidade” para pensar o que poderia ter feito ao invés do que fez e, se possível, reparar o dano.
  • Para isso, é importante estimular o desenvolvimento da empatia para que ela perceba o impacto de suas ações sobre os outros. Todas essas ações constroem o “andar de cima” do cérebro: visão da própria mente e da dos outros, empatia, reparação.
  • Ao fortalecer as conexões entre o “andar de cima” e o “andar de baixo” ocorrerá a integração das diferentes regiões responsáveis por diversas funções no cérebro: “neurônios que disparam juntos se ligam juntos”. O cérebro integrado nos permite navegar pelo meio do “rio do bem-estar”, longe das margens do caos e da rigidez.
  • Ao disciplinar com firmeza, serenidade e muito amor, conectando-se com os sentimentos subjacentes ao comportamento para depois redirecionar, não é preciso utilizar com frequência o “cantinho do pensamento”, castigos e consequências.