Arquivo da categoria: desenvolvimento pessoal

“Não quero que meu filho se frustre!”

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Para desenvolver habilidades como a de quem fez essa gravura japonesa é preciso, além de talento, paciência e persistência.

Ao colocar a criança na redoma da superproteção, perde-se a noção não só da inevitabilidade como do valor da frustração para fortalecer a resiliência e a capacidade de criar alternativas quando aquilo que desejamos não se concretiza.

Aprender a lidar com a frustração fortalece a persistência para não desistir facilmente diante dos obstáculos. Isso também ajuda a valorizar o erro como fonte de aprendizagem, e não como uma ameaça à autoconfiança.

Em conversa com os professores de uma escola, ouvi que muitos pais não querem que o filho se frustre, nem que perca nos jogos, tire uma nota baixa ou sinta ciúmes do bebê que nasceu. Talvez isso decorra da falsa noção de que felicidade é sinônimo de ausência de problemas. No entanto, os estudos sobre o tema mostram que a construção da felicidade tem mais a ver com a capacidade de consolidar uma serenidade interior até mesmo em épocas turbulentas.

No decorrer da vida, é inevitavelmente frustrante cair quando se tenta dar os primeiros passos, quando começa a andar de bicicleta sem as rodinhas de apoio, quando escreve as primeiras letras, quando leva um fora do primeiro amor, quando estuda para o vestibular e não consegue se classificar, quando a empresa encolhe a equipe e a pessoa está entre os demitidos.

Lidar com a frustração ajuda a valorizar os pequenos progressos no caminho de construir novas habilidades que demandam paciência para treinar ao praticar um esporte ou tocar um instrumento musical. É impossível ter o mesmo desempenho dos “ídolos” do futebol ou da guitarra sem percorrer um longo caminho para desenvolver essas habilidades. Manter a automotivação para não desistir diante das dificuldades é indispensável ao progresso.

Há pais que questionam os professores quando os colegas do filho já aprenderam a ler ou fazem desenhos mais elaborados. Essa comparação constante angustia os pais e os impedem de considerar as variações da normalidade e a diversidade das competências. Ninguém é supercompetente em tudo. Faz parte do autoconhecimento perceber em que áreas somos mais capazes para investir em expandi-las e em que áreas somos incompetentes para aceitar essas limitações.

Perguntas reflexivas são úteis no diálogo entre professores e pais: “Como vocês aprenderam a lidar com as frustrações”? “Que benefícios o filho de vocês teria caso fosse possível evitar frustrações”? “Considerando que as frustrações são inevitáveis e até mesmo necessárias, como vocês lidam com isso com seus filhos”?

Essas perguntas reflexivas são um convite para que as famílias se esforcem para aprimorar a parceria com a escola, em vez criar expectativas e fazer cobranças de que a equipe escolar seja a principal responsável pela educação de crianças e adolescentes.

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Desenvolvendo a competência socioemocional

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É preciso cultivar as competências socioemocionais com carinho, paciência e persistência, como para fazer um belo jardim como esse que fotografei na Holanda.

Querem que seus filhos e alunos façam boas escolhas, tomem decisões com responsabilidade, saibam resolver problemas e conflitos que surgem, consigam cultivar bons relacionamentos, lidem bem com suas emoções, tenham persistência para vencer obstáculos, se comuniquem com clareza e respeitem as pessoas?

Essas são as principais competências socioemocionais. E por que desenvolver tudo isso é indispensável para viver bem no século XXI?

Estamos na era da grande transição, delineando um futuro ainda imprevisível, com rápida evolução da tecnologia e da inteligência artificial. Muitas das profissões que hoje existem deixarão de existir ainda não sabemos que profissões existirão em duas décadas. Por isso, é preciso preparar as crianças desde cedo para a capacidade de ajustar-se às mudanças, construir a resiliência para lidar com frustrações e cenários adversos e ter flexibilidade mental para criar alternativas viáveis.

A neurociência nos mostra que a arquitetura cerebral é fortemente influenciada pela qualidade dos vínculos com pessoas significativas. Desde o início da vida, esses vínculos formam uma base sólida ou frágil que terá repercussões no desenvolvimento futuro, refletindo em aprendizagem, comportamento e saúde.

As inúmeras situações do dia a dia na família e na escola são oportunidades de desenvolver as competências socioemocionais, consideradas como recursos essenciais para enfrentar os desafios deste século.

Alguns exemplos práticos:

  • Empatia – reforçar a percepção do impacto de ações da criança sobre os outros: “Quando você arranca o brinquedo da mão do seu amigo, ele fica chateado e zangado com você”.
  • Criar soluções – estimular a criança e o adolescente a assumir responsabilidade e criar automotivação, em vez de logo aplicar castigos (“Vou tirar do futebol e confiscar o celular”) que intensificam a raiva e podem fortalecer a resistência: “Você não está indo bem na escola, tem estudado pouco. O que fazer para melhorar seu rendimento? Vamos pensar e fazer um plano de estudos mais eficiente”?
  • Gerenciamento de conflitos – nas brigas entre irmãos, em vez de se colocar no papel de juiz que aplicará as “sentenças”, convidar a criar alternativas para encontrar soluções satisfatórias para ambas as partes: “Se um começou, o outro continuou. Então a briga é dos dois. Vamos criar boas ideias para resolver o problema”!
  • Segunda oportunidade – diante de respostas grosseiras, estimular a conduta de reparação e a reflexão sobre a forma equivocada de se comunicar: “Aposto que você consegue dizer a mesma coisa de modo mais respeitoso”.
  • Revisão de comportamento inadequado – passada a “tempestade emocional”, reconstruir o ocorrido para imaginar desfechos mais adequados: “Ontem de manhã, você perdeu o controle, me xingou e me tratou de um modo inaceitável. E eu também perdi a paciência e me irritei muito com você. Vamos pensar como poderíamos ter conduzido melhor o que aconteceu”.

As competências socioemocionais podem ser desenvolvidas por toda a vida. Sempre há a possibilidade de aprimorar o autoconhecimento, perceber nossos pontos fracos e fortes, reconhecer o que sentimos e como reagimos. Desse modo, aprendemos com os erros e selecionamos a expressão adequada do que sentimos, possibilitando a construção de bons relacionamentos.

O convívio cotidiano com filhos e alunos nos oferecem oportunidades valiosas de desenvolvimento pessoal.

 

Paternidade participativa

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Um dos muitos bons momentos com meus pais.

Fui criada no modelo tradicional de pai provedor/mãe cuidadora. Meu pai era amoroso e sensível, ouvia mais do que falava e foi muito importante para minha formação.

Trabalhando com famílias há mais de quatro décadas, acompanho as transformações não só das formas de constituir uma família como também do entendimento crescente da importância de partilhar as funções de prover e de cuidar.

Por muitas décadas, a ênfase na relação mãe-filho colocou o pai em segundo plano ou, então, lhe atribuiu o papel de “agente da lei” na educação das crianças. Porém, os estudos mais recentes mostram a importância fundamental do homem que participa do dia a dia do bebê e da criança pequena com ternura e acolhimento nos momentos de trocar fraldas, dar banho, brincar, cantar. Esses pequenos grandes acontecimentos do cotidiano constroem os alicerces do vínculo seguro, que repercute positivamente no desenvolvimento no decorrer da infância e da adolescência. Não é mais o homem que “ajuda” a mulher (como se fosse um favor), mas o pai que participa ativamente da criação de filhos e filhas.

Profissionais de saúde e economistas estão mostrando com maiores detalhes a prioridade que precisa ser dada à primeira infância (da gestação aos seis anos de idade) para promover um desenvolvimento saudável. A inclusão do homem em consultas do pré-natal e nos grupos de “famílias grávidas”, a lei que garante o direito a um acompanhante no trabalho de parto (Lei do Acompanhante – 11.108/2005), a licença-paternidade estendida são exemplos de políticas públicas que priorizam o foco na família e não apenas na gestante.

O envolvimento paterno desde a gestação fortalece o vínculo e reduz a incidência de violência intrafamiliar, negligência e abandono. Isso vale também para o pai adolescente. Nem todas as gestações na adolescência resultam em experiências negativas mas, para favorecer uma experiência positiva de parentalidade, é preciso uma assistência de boa qualidade das equipes de saúde, família e comunidade. No acompanhamento ao parto humanizado, onde a mulher tem liberdade de se movimentar e escolher as posições mais confortáveis no trabalho de parto, a presença do homem bem orientado (que participa ativamente oferecendo massagens e acolhimento à parturiente) dá o suporte essencial e a oportunidade de mergulhar na emoção de presenciar o nascimento da criança.

Igualmente importante é o apoio do pai no período da amamentação, dividindo a responsabilidade dos cuidados e das tarefas domésticas para que a mulher tenha a necessária tranquilidade para amamentar o bebê.

O Relatório de 2017 sobre a Situação da Paternidade no Mundo revela que, em nenhum país, a participação dos homens nos cuidados com a prole é igual à das mulheres, porém é crescente o número de homens que se abrem para a experiência da paternidade participativa, que resulta em um novo modelo de masculinidade e uma experiência de desenvolvimento pessoal na tecelagem do vínculo com os filhos, em qualquer tipo de organização familiar.

Campanhas globais (como as do Instituto Promundo e MenCare ) que promovem o envolvimento de homens e meninos como cuidadores equitativos e não-violentos, assim como grupos em redes sociais que permitem a troca de ideias sobre a experiência da paternidade e suas emoções, são recursos que constroem o modelo necessário de masculinidade baseado no afeto e no cuidado.

Links sobre o tema:

https://docs.google.com/viewerng/viewer?url=http://promundo.org.br/wp-content/uploads/sites/2/2018/05/sumario_situacaodapaternidade2017_01d_baixa.pdf

 

http://desenvolvimento-infantil.blog.br/uma-nova-geracao-de-pais-revoluciona-a-paternidade-no-mundo/

https://sowf.men-care.org/wp-content/uploads/sites/4/2015/07/The-State-of-Fatherhood-and-Caregiving-in-Brazil_Portuguese_web-1.pdf

https://promundo.org.br/wp-content/uploads/sites/2/2014/08/promundo_manualp_07i_web.pdf

Maratonas da vida

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É necessário um bom preparo e muita persistência para enfrentar as maratonas da vida (Fotografei em Copacabana).

Observei maratonistas encarando 42 km e tenho uma amiga maratonista. Nunca pensei em fazer isso, gosto de caminhar e nadar no mar, sem entrar em competições. Mas pensei sobre as maratonas que enfrentamos no decorrer da vida e sobre a preparação necessária.

Desde criança eu gostava de escrever. Na adolescência, decidi ser psicóloga e entrei na maratona do vestibular com muita dedicação. Mas foi a partir publicação do meu primeiro livro (Psicologia da gravidez, que foi minha tese de Mestrado) que desejei escrever outros. Gostei da experiência e, pouco a pouco, aumentei o tempo dedicado à escrita. Já publiquei mais de quarenta livros, e isso envolve, até hoje, enfrentar as maratonas do mercado editorial.

Minha amiga maratonista conta que, para alcançar o objetivo maior de correr 42 km é preciso fracionar o preparo em etapas e 5, 10, 15 km para, gradualmente aumentar a resistência física e emocional. A meta que parecia quase impossível de alcançar torna-se possível com planejamento e persistência para enfrentar obstáculos. Inclui renúncias a prazeres imediatos e capacidade de lidar com frustrações e decepções.

Quando converso com estudantes que leram meus livros paradidáticos, muitos me perguntam quanto tempo, em média, foi preciso para eu escrever aquele livro que leram em poucas horas. Eles se surpreendem quando respondo que, em média, preciso de um a dois anos para pesquisar sobre o tema, fazer um planejamento detalhado, reescrever o que não achei bom, fazer inúmeras revisões até entregar os originais. Em síntese, disciplina, persistência e paixão pela escrita.

Quando quem sonha em ser escritor me pergunta o que é preciso fazer para publicar um livro, respondo que é preciso gostar muito de ler para poder escrever e não desistir dos inúmeros obstáculos que surgem: editoras que demoram até dois anos para dizerem se querem publicar o livro (quando dão resposta), distribuição e divulgação insuficientes que resultam em decepção com a venda, originais recusados por diversas editoras.

Paralelamente à carreira de escritora, enfrento a maratona de trabalhar como palestrante. Para melhor me preparar, fiz alguns anos de cursos de teatro e de trabalho com a voz, além de aprender a construir apresentações visualmente atraentes e com conteúdo interessante  para vários públicos. Minha amiga maratonista me diz que para alcançar metas é preciso se esforçar, superar a preguiça e a acomodação, treinar constantemente, cuidar bem da alimentação e do sono. Mas o prazer de se sentir competente e superar limites anteriores compensa sacrifícios e frustrações.

Digo o mesmo sobre os trabalhos que faço nas maratonas da vida. E acrescento: é muito bom compartilhar o que aprendo!

Renovação

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No ciclo da vida, precisamos nos renovar para desabrochar (Fotografei em Amsterdam).

As células de nosso organismo passam por ciclos de renovação, cujos períodos variam de acordo com a função que exercem nos diversos órgãos. No desenvolvimento pessoal, precisamos nos renovar para abrir caminhos de vida ou para expandir e atualizar os que queremos manter.

Conversando sobre esse tema com um grupo de amigos, um deles, com 30 anos de casado, comentou: “Meu casamento continua ótimo porque vivo me casando com a mesma mulher e ela comigo. Nem eu nem ela somos exatamente os mesmos de quando nos conhecemos. As experiências da vida, a chegada dos filhos, os problemas que enfrentamos, o amadurecimento, tudo contribui para nossas mudanças. Mas sempre escolhemos ficar um com o outro”.

Acompanhar o desenvolvimento de cada filho também nos renova. “Criei todos os filhos da mesma maneira” é um mito, porque com a chegada de cada um toda a rede de relacionamentos da família se modifica. Como trabalhei por alguns anos acompanhando famílias de bebês internados em UTI Neonatal, vi a importância da renovação da esperança, nos ciclos de melhora-piora das condições clínicas em situações de maior gravidade.

Uma participante comentou: “Trabalho há mais de 30 anos como professora universitária. Estou sempre me renovando nesse contato com os alunos, ensinando e aprendendo com eles. Com a avalanche de informações disponíveis, a função do professor precisa ser profundamente renovada: de transmissor de conhecimentos para consultor, orientador, que contribui para que os alunos utilizem ferramentas de pesquisa com espírito crítico para filtrar o que é relevante e integrar as diversas fontes de informação.

Na época em que vivemos, quem não renova e atualiza constantemente seus conhecimentos corre o risco de ficar fora do mercado de trabalho. É preciso inovar, renovar, ousar, empreender. Diversos psicoterapeutas que participaram da conversa comentaram sobre a renovação do olhar sobre acontecimentos presentes e passados, estimulada pelo processo terapêutico para “reescrever” histórias e descobrir novos significados.

Para mim, uma das palestras mais surpreendentes foi em um evento para 1200 pessoas entre 50 e 90 anos, participantes de projetos de qualidade de vida. Falei sobre mudança do olhar e de projetos de vida e convidei o público para dar depoimentos sobre renovação de projetos. Vários falaram sobre a oportunidade de desenvolver novas habilidades após a aposentadoria que resultaram em trabalhos completamente diferentes dos anteriores ou que abriram espaço de lazer criativo. Com isso, muitos saíram da depressão e encontraram um novo sentido na vida. Como disse uma participante: “Agora a farmácia tem prejuízo comigo! Depois que passei a frequentar esses grupos, nunca mais fiquei doente”.

Com o aumento da expectativa de vida, podemos viver várias vidas em uma só. No entanto, há pessoas que, por insegurança e por medo da mudança, não se renovam: cristalizam padrões de comportamento e de relacionamento que se repetem indefinidamente. Neles ficam aprisionadas e, com isso, tornam-se pessoas entediadas e entediantes. Pouco evoluem, sufocam a curiosidade que renova nossa busca por conhecimentos e até mesmo por aventuras. Vida é mudança e renovação!

Maternidades

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Alegria, felicidade, preocupação, raiva, tristeza: tudo faz parte desse amor profundo e transformador que pavimenta as trilhas das maternidades (Fotografei em Ilha Grande, RJ).

O psicanalista inglês Donald Winnicott escreveu sobre o conceito de “mãe suficientemente boa”. Eu costumo dizer que maternidade e paternidade é uma balança de créditos e débitos. Os filhos não precisam de pais perfeitos, e sim de pais humanos e amorosos, em constante processo de aprendizagem, e os erros fazem parte do caminho.

No entanto, há décadas observo milhares de mães prisioneiras do sentimento de culpa e de exigências cruéis impostas a si mesmas. Não se sentem “mães suficientemente boas” por não estarem “sempre” com os filhos porque trabalham e/ou estudam, porque não contam com a contribuição (financeira ou de presença) do pai, porque acham entediante sentar para brincar com os filhos pequenos e por muitos outros motivos. Olham com lente de aumento para suas supostas deficiências e sentem dificuldade de valorizar os aspectos positivos de seus vínculos. Por outro lado, há as que não se dão conta das reais necessidades de seus filhos, que anseiam por um olhar atencioso de seus pais mergulhados em seus celulares mesmo quando tentam fazer uma refeição em conjunto ou quando saem para passear.

De onde vem esse ímã de culpa e de exigência que grudam em tantas mães? As pesquisadoras Kniebiehler e Fouquet mostram que a exaltação da imagem materna liga-se à Virgem Maria, que concebeu sem pecado, ou seja, sem sexo. Desse modo, a noção de pureza, caridade, humildade, renúncia e dedicação vincula-se à imagem de maternidade santificada. No entanto, no século XVI, na Europa, predominava o costume de confiar o recém-nascido a uma ama, que ama­mentava e cuidava de crianças durante os primeiros anos de vida. No século XVII, ter um filho fora do casamento acarretava grandes problemas e, com isso, muitas mulheres recorriam ao aborto, ao abandono e ao infanticídio. Pesquisadores como Ariès e Badinter concluíram que o amor materno não é um instinto, mas um sentimento que, como todos os demais, está sujeito a imperfeições, oscilações e modifica­ções.

No final do século XVIII, a exaltação do amor materno entrou no discurso filosófico, médico e político. Assim iniciou-se o processo intimidar e culpar as jovens mães: a recusa de amamentar e a tentativa de abortar passaram a ser consideradas condutas criminosas. No século XX, especialmente sob a influência da psi­canálise, reforçou-se a tendência a responsabilizar a mãe pelas dificuldades e problemas dos filhos.

Mas o que observamos, na prática? As maternidades acontecem de várias formas e evoluem por caminhos diversos. O filho pode ser fruto do amor entre um homem e uma mulher que engravidam com o desejo; pode vir “por acaso” em adolescentes ou em decorrência de um relacionamento passageiro; pode surgir a partir do amor entre duas mulheres que recorrem à inseminação; o vínculo amoroso pode ser tecido por mulheres que adotam crianças e adolescentes ou pelas que assumem o compromisso de amar e de cuidar dos filhos de parceiros/as nas “famílias mosaico”.

Acompanhar o crescimento dos filhos revela possibilidades e dificuldades das maternidades. A emoção de perceber a evolução das crianças, mesmo as que apresentam problemas graves, a alegria de constatar que os filhos são capazes de fazer boas escolhas em seus caminhos de vida, e a apreensão de constatar que nem sempre essas escolhas correspondem aos desejos dos pais. Alegria, felicidade, preocupação, raiva, tristeza: tudo faz parte desse amor profundo e transformador que pavimenta as trilhas das maternidades.

O poder do pensamento positivo

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Que tipo de pensamentos e sentimentos armazenamos dentro de nós? (Fotografei em Inhotim, MG).

A neurociência oferece uma nova perspectiva para o que antes era visto como autoajuda. Treine sua mente, mude seu cérebro. As conexões neuronais são feitas e refeitas “do berço ao túmulo”, como disse o neurocientista Dan Siegel ao escrever sobre “neuroplasticidade autodirigida”: o tipo de pensamentos que nutrimos e a qualidade de nossos relacionamentos modelam nosso cérebro.

Desde os primórdios da humanidade, por uma questão de sobrevivência, nosso cérebro está programado para registrar, primordialmente, as experiências negativas. É o que possibilita uma reação rápida de lutar ou fugir diante dos perigos. O neurocientista Rick Hanson usa uma imagem interessante para desenvolver esse conceito: as experiências negativas grudam na memória como velcro, as positivas escorregam como teflon. Porém, para construir um acervo de boas lembranças, é preciso saborear os bons momentos com muita intensidade. Isso nos prepara para manter serenidade e bem-estar mesmo em épocas difíceis da vida.

Na conversa com um grupo de amigos sobre esse tema, algumas reflexões se destacaram:

Cultivar pensamento positivo não é otimismo ingênuo, achar que sempre está tudo ótimo, que vai dar tudo certo e, então, deixar de se preparar para diversos cenários. Da mesma forma que resiliência não é se conformar com os problemas, é força para enfrentar as adversidades. É vislumbrar possibilidades e ser proativo na busca de recursos.

Pensar positivo é ter desejos, metas, pegar leve, cultivar alegria e bom humor, fazer acontecer, estar sempre disposto a aprender e a reformular o que for necessário.

Nesse grupo, alguns participantes estão com mais de oitenta anos e, portanto, enfrentaram períodos difíceis em suas vidas. Alguns comentários: não há dia sem noite, a vida se apresenta com desafios, dificuldades. É preciso ter força de superação, não se deixar abater por pensamentos negativos do tipo não vai dar certo mesmo, não tem jeito.

Pensamento positivo também vale para a coletividade. Diante da situação atual, não só no Brasil como no mundo, é grande o número de pessoas pensando que tudo está perdido, e que ficará cada vez pior. Esse modo de pensar paralisa, desanima, bloqueia ações construtivas. Que tal agir, em vez de se queixar e reclamar? Juntar- se com pessoas (na família, no trabalho, na comunidade) para gerar ideias para atacar os problemas.

Uma das participantes sugeriu criar um canal de notícias boas nas redes sociais. A repetição exaustiva de notícias “ruins” estimula um clima coletivo de desalento e desesperança. Como disse outra participante: “Não adianta brigar com a realidade, ela sempre vence”. O importante é agir, dentro do alcance de cada um, para modificar o que é possível.

Como usamos nossa energia vital? Para reclamar, se queixar, explodir de raiva e nutrir o ódio em mensagens intermináveis pelas redes sociais? Em vez de se exaurir desperdiçando essa energia preciosa, que tal planejar ações que possam contribuir positivamente para melhorar a própria vida e a de outras pessoas? Nas palavras do médico Jon Kabat-Zinn: Não é possível parar as ondas, mas podemos aprender a surfar.