Arquivo da categoria: desenvolvimento pessoal

Memórias afetivas e comemorações

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Revisitamos o passado nos voos da memória e da imaginação. (Fotografei em Peruíbe, SP).

O grupo de amigos que conversou sobre esse tema saboreou recordações que vão tecendo a história de vida de cada um.

  • Aos 68 anos, ainda preserva com nitidez as lembranças do lugar em que passou a infância, com a natureza preservada, rios com abundância de peixes, muitas árvores frutíferas e o avô que o levava para conhecer o canto dos pássaros. Hoje, o rio está poluído e sem peixes, mas quando ele retorna a esse lugar, recorre à memória para reconstruir o lugar mágico de outrora.
  • A caçula da família, com irmãos bem mais velhos, que não dispunha de muito espaço pessoal em casa, lembra com alegria da casa da avó em que havia um cantinho só para ela.
  • As férias na fazenda dos tios, em que podia andar a cavalo, correr à vontade, comer o que quisesse, enquanto em casa a mãe rígida e controladora cerceava seus passos. Hoje, com mais de 70, vivencia a mesma sensação de prazer e liberdade quando retorna a esse paraíso das férias da infância.
  • O quanto nossas memórias afetivas antigas tecem as escolhas de caminhos de vida? A lembrança dos pais que adoravam organizar refeições saborosas e o prazer que manifestavam ao ver a filha comer. E ela, há muitos anos, sente prazer ao ver pessoas saboreando a comida que oferece em seu restaurante.
  • As lembranças boas da fase de paixão e encantamento, as lembranças doloridas dos desentendimentos que conduziram ao desamor e ao rompimento da relação. Algumas pessoas preferem reforçar as boas lembranças e deixar passar os episódios amargos, outras reagem exatamente ao contrário.
  • Alguns relataram a importância das comemorações natalinas e de aniversário, celebrando a vida com os que estão próximos, mas recheadas de saudades dos que já partiram.
  • Refletimos sobre as vivências das crianças que crescem em comunidades em que predomina a violência e em famílias que não conseguem construir vínculos seguros e acolhedores. Memórias afetivas traumáticas surgem, recorrentes, em pesadelos e em ataques de pânico disparados por mínimos detalhes, fazendo reviver o terror.
  • Por outro lado, as imagens do cérebro em tempo real mostram como os circuitos neurais literalmente se iluminam quando buscamos ativamente as lembranças de bons momentos muito significativos, o que produz de novo a alegria e o bem-estar que age como um bálsamo.

Memórias afetivas são feitas de conexões, vínculos significativos que constroem nossa história de vida. E as comemorações congregam pessoas que se juntam para celebrar a vida.

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A arte de viver com arte

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Contemplar obras de arte e também a arte da natureza é um exercício do olhar (Fotografei em um museu em NY).

Podemos fazer da nossa vida uma obra de arte – assim definiu uma participante do grupo de conversa sobre esse tema. Como “esculpimos”, “pintamos” ou “compomos” cada dia?

Como despertamos a cada manhã? Com um mau-humor tenebroso, reclamando por ter de enfrentar mais um dia do trabalho ou da escola que odiamos? Como mais uma sequência de rotinas entediantes? Como mais um dia igual aos outros, depois que nos aposentamos, sem construir novos projetos ou interesses?

Consideramos cada dia como mais uma oportunidade? Para isso, é preciso nutrir a curiosidade, que nos permite explorar novas possibilidades, criar coisas novas, desenvolver talentos até então inexplorados.

Podemos desenvolver a atenção plena, segundo os princípios de “Mindfulness “: exercitar o foco de atenção no aqui e agora, evitando estragar o dia com ansiedades em relação ao futuro ou lamentações e frustração com o que passou. O que, na verdade, temos para viver é o momento presente. Podemos exercitar nosso olhar para captar a beleza das pequenas coisas do cotidiano, da natureza ao nosso redor, e não apenas para contemplar obras de arte nos museus.

Com o que estamos contribuindo para a coletividade? Há muitos jovens que, desde o início de sua vida profissional, buscam uma vida com propósito, para sentir que podem colaborar para que tudo funcione melhor. No mundo complexo, instável e imprevisível no qual estamos vivendo, é importante que famílias e escolas consigam educar as crianças desde cedo para a cooperação, promovendo a ética e os valores que sedimentam a boa convivência.

Viver com arte é tecer conexões, incentivar a colaboração para o bem-estar coletivo, “bordar” cada dia com esmero, valorizando os detalhes, saboreando os bons momentos. É deixar florescer a sensibilidade, o afeto, a intuição, abrir outros canais da mente e dos sentimentos, perceber sutilezas e matizes, encontrar a poesia no cotidiano, “enfeitar” a rotina para que ela não se transforme em tédio e em “mais do mesmo”.

Os desafios da vida

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Para navegar pela vida, é bom usufruir os benefícios da tecnologia sem se deixar dominar por ela (Fotografei em Capitólio, MG).

Em entrevista para a rádio CBN, o tema foi o jogo Baleia Rosa com “desafios do bem” para se contrapor ao Baleia Azul, com desafios que estimulam automutilação e suicídio.

Superar desafios com crescimento pessoal, construção do sentido da vida e da contribuição para a coletividade. Não é fácil concretizar sonhos e metas. A força de superação depende da persistência e da construção passo a passo.

Muitos jovens sentem dificuldade de fazer esse investimento construtivo. Querem resultados imediatos e, quando isso não acontecem, sentem-se frustrados, desencorajados, desanimados. Em casos extremos, sentem que “se está tudo tão difícil, é melhor morrer”.

Como construir outro tipo de olhar para a vida nesse mundo conturbado? A internet abre um mundo espetacular de possibilidades e também um mundo tenebroso de riscos e perigos. Um dos maiores desafios para as famílias atuais é incentivar a percepção de risco e o uso responsável das redes sociais. A maioria das famílias não sabem o que crianças e adolescentes fazem no mundo virtual.

Com o uso excessivo da tecnologia, os contatos virtuais predominam sobre os presenciais e nada substitui o olho no olho, o carinho, o abraço. Além disso, muitos colocam o que percebem da vida dos outros nas redes sociais como referência e, nessa comparação suas próprias vidas saem perdendo. “Se não tenho tantas curtidas e compartilhamentos, não sou importante”, “minha vida é um horror, a dos outros é uma festa”.

A questão é como usufruir os benefícios da tecnologia sem se deixar dominar por ela, sem criar dependência do celular e da internet, como acontece com tantas pessoas que, desse modo, ficam em situação de vulnerabilidade.

Os desafios propostos pelo jogo Baleia Rosa enfatizam a construção de valores fundamentais do convívio, em linha com as pesquisas sobre os fatores que contribuem para a felicidade e o bem-estar: solidariedade, generosidade, gratidão, fazer em cada dia o melhor possível para que possamos nos aprimorar.

Vivemos uma angústia coletiva nesse mundo imprevisível, cheio de incertezas, oscilações econômicas e mudanças tão rápidas que mal conseguimos acompanhar. Na fase final da adolescência e no início da idade adulta, a vulnerabilidade aumenta: é a época de construir seu lugar na vida, ter coragem para enfrentar os desafios do mundo de hoje. Muitos dos sonhos e dos projetos não darão certo, é preciso batalhar em outras frentes, criar recursos para enfrentar os desafios e estar alerta para as oportunidades.

O poder do perdão

 

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Deixar florescer a capacidade de perdoar dá mais cor e leveza em nossa vida (Fotografei no Saco do Mamanguá, RJ).

Esse é o título de um ótimo livro de Fred Luskin. Gostei das imagens que ele criou para ilustrar o espaço que damos aos sentimentos em nosso interior. Se imaginarmos nosso eu como uma casa, quantos cômodos alugamos para a mágoa, a alegria, a preocupação? Se imaginarmos nossa mente como um aparelho de TV, quais os canais que selecionamos com mais frequência? Para algumas pessoas, o controle remoto emperra no canal da mágoa, do rancor, do desejo de retaliar como vingança.

Conversei sobre esse tema na conversa com um grupo de amigos, que inspirou boas reflexões:

  • Nem sempre conseguimos impedir que alguém nos faça mal. Mas sempre podemos escolher que espaço daremos para isso em nosso interior.
  • Convivemos com ótimas pessoas, que nos dão apoio, que contribuem para nossa felicidade. Por que dar tanta importância a quem nos magoou?
  • Dependendo da gravidade da ofensa, ser capaz de perdoar é um longo processo porque há ações que efetivamente nos causam prejuízo, por exemplo, no trabalho.
  • A arte da felicidade: quando examinamos o problema sobre outra perspectiva podemos até compreender quem nos atacou. Um dos tipos de meditação budista sugere que a gente primeiro visualize uma pessoa de quem gostamos para desejar que ela fique bem. Em seguida, fazer o mesmo visualizando alguém que a gente conhece superficialmente e, por último, alguém de quem a gente não gosta ou com quem se tem um relacionamento difícil para, apesar de tudo, desejar que essa pessoa seja feliz e fique bem. Uau…
  • A gente se sente mais leve ao perdoar em vez de ficar se torturando ao remoer cenas do passado. Perdoar não é esquecer, mas é não se prender ao que aconteceu e nem à pessoa que nos feriu.
  • Como ninguém é perfeito, também já ferimos os sentimentos de outras pessoas.
  • Além de aprender a perdoar, também é importante aprender a pedir perdão. Há quem sequer consiga pedir desculpas: acha que isso é humilhante, que equivale a se rebaixar ou a se submeter. Ou, então, pede desculpas justificando-se do próprio erro. Pior ainda é quando acusa o outro de tê-lo provocado. Isso mostra a dificuldade de reconhecer seus erros e fazer a reparação necessária para tentar restaurar o relacionamento.
  • Verdade, perdão, reparação e reconciliação também são caminhos de reconstrução da sociedade. Isso aconteceu na África do Sul com o fim do regime opressor do apartheid, a partir da iniciativa de Nelson Mandela ao sair da prisão. Em vez de buscar vingança e retaliação pelas atrocidades cometidas, houve um esforço de transformar um país desunido em uma democracia multirracial.

Criando um emaranhado de problemas

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Às vezes, nos enredamos em problemas criados por nossa imaginação. Foi o que pensei ao ver essa “cama de cipós” que fotografei em Gonçalves (MG)

Alguns problemas são inevitáveis, muitos outros são criados ou agravados por nossos filtros seletivos de escuta e de memória ou de interpretação das ações de outras pessoas. Na psicoterapia, trabalhamos para desfazer emaranhados de mal-entendidos na comunicação e clarear os temas predominantes que colorem os filtros seletores da percepção.

Quando rejeição e abandono é um tema predominante em nós, interpretamos inúmeras ações em diversos contextos usando esse filtro seletivo: percebemos como rejeição quando amigos não retornam as mensagens de imediato, quando o grupo conversa sobre assuntos diferentes do que gostaríamos de propor, quando o parceiro não faz exatamente o que queremos do jeito que achamos melhor, quando a ideia que propusemos na reunião de trabalho não é aceita, quando só lembramos do que os outros deixaram de fazer por nós e esquecemos o que recebemos de bom.

Circunstâncias como essas confirmam dolorosamente a sensação de sermos rejeitados, embora haja outras interpretações possíveis para as mesmas ações (os amigos estavam ocupados com outros afazeres, a conversa do grupo evoluiu por outros caminhos, o parceiro fez o que foi possível dentro da perspectiva dele, havia ideias melhores no grupo de trabalho, não dá para ninguém atender 100% de nossas expectativas).

Usando esse filtro seletor, não conseguimos ver o que fazemos para que os outros se afastem, como nos excluímos das conversas, como recusamos as ideias dos outros, como praticamos tão pouco o reconhecimento e a gratidão, ao fazermos tantas queixas, cobranças e reclamações. O resultado é um emaranhado de problemas de relacionamento, insatisfação, frustração, infelicidade: “Minha vida é um horror, ninguém gosta de mim, nada acontece como eu gostaria”.

Cultivar pensamentos catastróficos é outro modo de fabricar um emaranhado de problemas e acabar com a nossa paz interior. Quando a filha se atrasa e o celular não responde, isso é sinal de que aconteceu uma tragédia. O sistema de alarme é ativado, o corpo da mãe se inunda de hormônios do estresse, ela entra em pânico, não consegue se concentrar em coisa alguma, só imagina o pior. Não pensa que a bateria do celular descarregou ou que a filha estava se divertindo com amigos em um lugar barulhento, não ouviu o telefone e nem checou as mensagens. Quando ela finalmente chega, encontra a mãe estressada, desesperada e, em seguida, enraivecida por ter se assustado à toa.

Se pode complicar, por que facilitar? Parece que isso norteia a vida de alguns de nós. Cultivar a gratidão, apreciar o que a vida e as pessoas nos oferecem, pensar em hipóteses menos trágicas é um trabalho a ser feito para seguir as trilhas do bem-estar. Podemos estabelecer diálogos internos produtivos para questionar “certezas” criadas por nossas carências e temores, reorganizar nossas emoções, escolher que tipos de pensamentos vamos nutrir e encarar destemidamente nossas sombras.

“Não há mais o que fazer”…

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No ciclo da vida, viver cada dia em plenitude (Fotografei na Patagônia chilena).

Fiquei emocionada ao assistir “A morte é um dia que vale a pena viver”, palestra TED com a médica Ana Cláudia Quintana Arantes, que se dedica a oferecer cuidados paliativos para as pessoas que estão no fim da vida, a partir do momento em que muitos profissionais dizem que não há mais nada a ser feito.

Ela esclarece que “paliativo” vem de “pallium”, um manto que era colocado nas costas dos cavaleiros das Cruzadas para protegê-los das intempéries. E, nesse sentido, cuidados paliativos significa proteger do sofrimento, tratar do controle dos sintomas aliviando ao máximo o sofrimento físico para cuidar melhor das demais dimensões do sofrimento (emocional, familiar, social, espiritual). Visto dessa forma, há muito a fazer para cuidar de pessoas mesmo quando a doença não tem cura e segue seu curso inevitável.

Eu trabalhei em hospitais com equipes de saúde e coordenei muitos grupos de relacionamento médico-cliente-família. O final da vida breve de alguns bebês internados em UTI Neonatal e os últimos dias de uma vida mais longa de adultos e idosos me fizeram ver que há muito a ser feito na assistência a pessoas que estão morrendo e a suas famílias. Todos nós temos muito a aprender sobre a vida quando a olhamos pela perspectiva da morte.

Já tendo passado dos sessenta, tenho acompanhado o fim da vida de muitas pessoas queridas, da família e do grupo de amigos. Quando a morte não chega repentinamente, como em um acidente fatal, é possível aprofundar a percepção do sentido da vida, rever a própria trajetória, expressar gratidão, refazer vínculos, aproveitar da melhor forma o tempo que resta.

Mas, independentemente da idade que temos, não sabemos quanto tempo temos pela frente. Qual o sentido que estamos encontrando para nossa vida? Como estamos nutrindo nossos vínculos afetivos? Como estamos aproveitando o privilégio de viver?

Treine sua mente, mude seu cérebro!

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Esse objeto me fez pensar como é importante cuidar bem da delicada rede neuronal do nosso cérebro.

“O cérebro está sempre em mutação, a maior parte do tempo sem nossa participação consciente”. “O bem-estar é uma habilidade que pode ser cultivada” – Essas frases me chamaram a atenção quando assisti palestras de Richard Davidson, psicólogo e neurocientista, que comanda um laboratório de pesquisas na Universidade de Wisconsin.

A construção do bem-estar se fundamenta em alguns pilares:

  • Neuroplasticidade – Podemos modelar nosso cérebro para cultivar o bem-estar, podemos meditar para, voluntariamente desenvolver a compaixão. Nossos pensamentos, experiências e relacionamentos fazem e refazem os circuitos neuronais.
  • Epigenética – Como os genes se expressam, ligam ou desligam sob a influência das experiências de vida e dos relacionamentos. Cada gene tem uma espécie de controle de volume que pode ser mudado e regulado por nossas experiências. Temos predisposições genéticas, mas a meditação, por exemplo, pode modular a expressão dos genes.
  • Há uma via de mão dupla entre cérebro e corpo – mudanças em um causam impacto no outro. É possível cultivar o bem-estar praticando atividades físicas e focalizando as emoções positivas.
  • Expandir a generosidade, fortalecer a resiliência (a rapidez com que nos recuperamos das adversidades, cultivando emoções positivas), aprimorar o foco da atenção para estar integralmente no momento presente são outros elementos fundamentais para a construção do bem-estar.

No laboratório, cuja equipe é liderada por Davidson, o estudo da atividade cerebral de monges tibetanos com mais de dez mil horas de prática de meditação revelou circuitos cerebrais ativados pela compaixão, especialmente a ínsula e a amígdala. Descobriu-se também uma forte conexão entre o cérebro e o coração, quando a compaixão é desenvolvida. E tudo isso está ligado à construção do bem-estar.

Em outro experimento, sujeitos não praticantes tiveram duas semanas de treinamento em meditação, durante meia hora por dia, e viram que, mesmo com tão pouco tempo de prática, ocorriam mudanças no cérebro. Esses e outros estudos mostram a importância de trabalhar nossa mente positivamente para promover a saúde física e mental.