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Ô mãe, ô pai! O casal parental soterrou o homem e a mulher?

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Quantos casais passam a se chamar assim depois que os filhos nascem? Isso, na maioria das vezes, significa que a função de cuidar dos filhos passou a ser a prioridade número um, e a curtição do casal ficou em segundo (ou em terceiro) plano. A boa notícia é que isso não precisa acontecer! O desejo sexual não termina com a idade madura, desde que a nutrição do vínculo amoroso seja mantida.

Para início de conversa, por que isso acontece? As raízes da dissociação entre maternidade e sexualidade são milenares. Há dois arquétipos de figuras femininas que atuam no inconsciente coletivo: Eva e Maria. A primeira, a mulher que teve filhos mas é descrita como erotizada, sensual, pecadora, finalmente expulsa do Paraíso. A segunda, que “concebeu sem pecar” foi mãe sem fazer sexo.

Tradicionalmente, e isso acontece ainda com muitos homens, as mulheres são divididas entre “as para casar e ter filhos” e “as outras” (com quem podem desfrutar de diversas práticas sexuais). Além disso, o “corpo ideal” é o corpo magro, e, com isso, um grande número de mulheres sente dificuldade de conviver bem com seus corpos reais, tão diferentes das “blogueiras fitness” ou de outros ícones de beleza com suas fotos devidamente retocadas.

Com as mudanças do corpo grávido, muitas mulheres se sentem pouco atraentes, com o aumento do peso, do ventre, dos seios. Por outro lado, há as que se sentem plenas e poderosas, gestando uma vida em seu ventre, sensuais, erotizadas, integrando a mulher-fêmea com a mulher-mãe. E os homens, como olham para a mulher grávida? Muitos passam a tratá-la como “a mãe”, pela qual não sentem mais desejo e evitam o contato sexual. “Na medida em que minha barriga crescia, ele só me abraçava por trás, e não queria mais transar, dizendo que sentia medo de machucar o bebê com a penetração” – lamentou uma mulher no grupo de gestantes.

Porém, há homens que enxergam a companheira grávida como sensual e atraente, mantendo o desejo. Aproveitam as mudanças do corpo, especialmente no final da gravidez ou quando acontecem problemas que contraindicam a penetração, como oportunidades de desenvolver a criatividade para elaborar novas formas de fazer amor, expandindo a sensualidade e o erotismo, que poderão inspirá-los pela vida afora.

A família precisa fazer grandes adaptações para atender as necessidades do recém-nascido. Nas primeiras semanas após o parto, tradicionalmente chamado de “resguardo”, há profundas mudanças físicas e emocionais, em que o desejo sexual não fica em primeiro plano. Os primeiros passos para conhecer o bebê real, que pode ser bem diferente do bebê sonhado, domina o cenário. As adaptações e os ajustes são ainda maiores quando nascem gêmeos, bebês com questões especiais ou que precisam de internação em uma UTI Neonatal. O casal precisa nutrir o amor com carinho, colaboração, cumplicidade e contar com uma rede de apoio.

A natureza não dissocia maternidade e sexualidade: a ocitocina é um hormônio atuante nas contrações do trabalho de parto, na involução uterina pós-parto, na amamentação e no orgasmo feminino. Por isso, quando a mulher está amamentando é comum sair leite quando ela goza na transa sexual. Há homens que se constrangem com isso, pois dissociam o seio erótico do seio que nutre. Mas a natureza integra!

Com o passar do tempo, os filhos crescem, mas alguns pais conservam ações que se tornaram desnecessárias. Por exemplo, permitir que crianças maiores durmam na cama com os pais, ou manter a porta do quarto aberta “porque elas podem precisar de alguma coisa”. Como fica a intimidade do casal? Sim, há famílias que não dispõem de espaço físico para isso. E aí a criatividade precisa entrar em ação, juntamente com a nutrição do amor com companheirismo, gentileza, admiração, sedução.  Caso contrário, é grande o risco de cair na “burocracia doméstica” e na acomodação repetitiva (“é sempre do mesmo jeito”), em que a sexualidade e o erotismo ficam soterrados pela sobrecarga de trabalho e de cuidados com os filhos. Sobretudo, quando vem junto com cobranças, queixas e reclamações constantes. Isso mata o tesão!

Isso acontece em todos os tipos de organização familiar: mães solo que não contam com rede de apoio e precisam trabalhar ficam sobrecarregadas para cuidar de tudo, e algumas “arquivam” seu desejo sexual e a busca de parceria amorosa. Outras criam uma comunidade de mães solo que se revezam para cuidar dos filhos das outras, de modo que cada uma tenha um tempo reservado para ser mulher e não somente mãe. Nas “famílias-mosaico” com filhos moradores e visitantes, além dos ex-cônjuges, a nutrição amorosa do casal (hétero ou homoafetivo) é um desafio especial. “Combinados” para compartilhar os afazeres domésticos entre todos os que estão na casa é um modo de evitar a sobrecarga e a exaustão que atrapalham o encontro amoroso.

 

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“Pai de rodinhas” ativo e amoroso

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Conheci Sérgio Nardini, o “Pai de rodinhas”, em um encontro de escritores e gostei de ouvir seu relato amoroso sobre sua transformação desencadeada pela paternidade, descrita em detalhes em seu livro. Ele tem uma patologia neuromuscular progressiva, o que o torna dependente de cuidados, inclusive para se alimentar. Mas isso não o impediu de estudar, trabalhar como artista plástico, nutrir boas amizades, casar-se e ter uma filha.

“Ser pai tem sido mergulhar de cabeça num admirável e apaixonante mundo desconhecido”. “Na verdade, eu quero e tento exercer a paternidade exatamente como eu acho que ela deve ser exercida: com responsabilidade e participação ativa”.

A força de vida que o impulsiona, juntamente com o bom humor, faz de Sérgio uma pessoa carismática, que inspira muita gente.  Extraí de seu livro algumas frases que convidam à reflexão:

  • A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional – serenidade nos dias de tormenta e alegria nos dias de sol.
  • Se não for possível ser feliz, esteja feliz!
  • Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.
  • A maior alquimia da vida é transformar simples momentos em grandes experiências.
  • Só há uma circunstância na vida em que você só segue adiante dando um passo para trás. É quando você está à beira de um abismo.

A questão é: Como é possível florescer como pessoa, mesmo em situações adversas?

Há tempos, li uma frase interessante: Diante das crises, você vai chorar ou vender lenços? O que fazemos com o que vida nos apresenta? Transformar dificuldades em oportunidades depende, fundamentalmente, da nossa atitude mental. Em síntese: não esmorecer diante das dificuldades.

Há uma grande diferença entre a postura de queixa/reclamação (“A vida foi injusta comigo”; “ninguém me dá oportunidades”) e a disposição de estar alerta para descobrir oportunidades, fazer novos projetos e criar recursos para realizá-los (“está difícil, mas não é impossível”).

“Depois que perdi tudo, o que me deixou no fundo do poço por um tempo, vi que preciso de pouco para viver bem” – ouvi de um ex-publicitário que atualmente trabalha como artista plástico em uma cidade do interior. Essa foi uma das dezenas de histórias de “crescimento pessoal pós-traumático”, que coletei no decorrer de dois anos, ao entrevistar 190 pessoas em mais de 20 cidades brasileiras para escrever meu livro “Construindo a felicidade”. O que há de comum nessas histórias? A capacidade de superação, o fortalecimento da resiliência para enfrentar as adversidades com disposição para buscar novos caminhos, utilizar habilidades para gerar trabalho quando se perde o emprego. Em síntese: fazer do limão uma saborosa limonada.

E mais: a atitude de fazer o melhor possível nas circunstâncias adversas melhora não apenas a vida da própria pessoa, mas de todos os que fazem parte do seu círculo de relações. Voltando ao “Pai de rodinhas”: sua filha, aos oito anos, cria mil jeitos de brincar com ele, de partilhar com alegria as atividades possíveis, e mostra a outras crianças como é se relacionar com um pai sem mobilidade física mas com plena capacidade de dar e receber amor.

Recomendo a leitura do livro! Pai de Rodinhas, de Sérgio Nardini, ed. Mogiana, 2019.

A relação com os filhos na linha do tempo

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É interessante acompanhar o processo que se inicia com cuidar do bebê, evolui para a reciprocidade de cuidados entre pais e filhos adultos até, eventualmente, entrar na fase de os pais precisarem receber  cuidados dos filhos, quando adoecem já em idade avançada.

Como esse processo nem sempre evolui tão favoravelmente, é importante ver quais aspectos dos relacionamentos, além do amor, precisam ser nutridos na linha do tempo para que isso aconteça.

A relação com cada filho é única, não só pelas diferenças entre eles como também porque chegam em momentos distintos da vida dos pais, modificados inclusive pelas experiências com os filhos anteriores. Mas, em geral, o que os pais mais desejam é que seus filhos cresçam sendo capazes de tomar conta de si mesmos e de fazer boas escolhas. O que nem sempre acontece…

Na grandeza dos pequenos momentos do cotidiano é feita a tecelagem dos vínculos na família, em suas diversas composições (pais casados ou não, separados, em novas uniões, etc) a estimular o respeito pelos outros, o autoconhecimento, a empatia, a cooperação. Todos aprendem uns com os outros, quando se aprimora a qualidade de escuta que incentiva o hábito de “decidir em conjunto” sempre que surgem divergências de desejos, necessidades e pontos de vista.

Os limites necessários podem convidar a criar alternativas possíveis (“Isso que você quer não dá, mas vamos descobrir o que você pode fazer”), os “combinados” promovem o respeito pelos acordos (“Lembre que você me disse que faria os deveres assim que acabasse esse vídeo! Então…”).

Na conversa com adolescentes em uma escola, conversávamos sobre respeito, e uma aluna me perguntou: “E quando os pais não respeitam os filhos?” De fato, respeito precisa ser uma via de mão dupla! Como psicoterapeuta de famílias, vejo famílias em que há excesso de crítica, depreciação, agressões verbais e físicas chegando ao ponto de inviabilizar um bom convívio. Muitas questões emocionais estão envolvidas nesses relacionamentos tão conflituados. Por exemplo: insegurança da mãe ao se ver envelhecer, ao passo que a filha desabrocha em beleza. A mistura de ciúme e inveja resulta em ataques maciços à autoestima da filha, em um contexto social que glorifica a beleza jovem. O pai que ataca impiedosamente o filho adolescente que se aliou à mãe após a separação do casal.

Canais de conversa preciosos se fecham quando predomina a dificuldade de “abrir o coração” para, desde que os filhos são pequenos, falar sobre o que percebemos que eles sentem e dizer o que sentimos com clareza, evitando as “palavras que batem” quando nos irritamos ou discordamos de alguns comportamentos. Na linha do tempo do relacionamento familiar, conhecer os outros e se conhecer é um processo interminável. Colocar limites, fazer “combinados”, decidir em conjunto são ações que nos levam a fazer revisões de nós mesmos e a nos modificarmos, na medida em que os filhos crescem e nos ensinam a lidar com eles.

“Combinados” entre pais e avós

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Pergunta de uma participante da Live sobre Limites na educação: “Como colocar limites com os avós? Quando digo que não vou dar açúcar para meu filho até os dois anos minha mãe ri e me diz que eu comia açúcar de colher com nove meses e não morri por causa disso!”.

“Os pais educam, os avós deseducam”; “Em minha casa, meus netos fazem o que querem”; “Minha filha coloca regras muito rígidas, sinto pena da minha neta!” – ouço com frequência esses comentários por parte dos avós.

Por parte dos pais, escuto coisas do tipo: “Quando ele volta do final de semana com os avós, fica revoltado por ter que cumprir o que combinamos”; “Como minha sogra deixa minha filha ficar no Ipad o tempo todo, a menina diz que só a avó a ama de verdade”; “Moro com minha mãe e meu filho de três anos: ela diz que criou muito bem os cinco filhos e eu não posso dizer como eu gostaria que ela me ajudasse a educá-lo”.

Inevitavelmente, haverá discordâncias entre os próprios pais, assim como entre pais e avós, sobre como lidar com crianças e adolescentes em situações do dia a dia.  Embora todos desejem que filhos e netos cresçam bem, o modo de lidar com eles difere. A questão é: Como se concentrar nas semelhanças das abordagens e como aparar as arestas das diferenças?

Os conflitos surgem justamente a partir das diferentes opiniões, visões sobre educação, crenças e valores. Construir acordos demanda a habilidade de escutar respeitosamente os diversos pontos de vista, conseguir expressar com clareza os próprios pensamentos para, então, tecer em conjunto uma terceira via, que não será exatamente o que cada um propõe mas que poderá ser pelo menos razoável para ambas as partes.

A fronteira entre ajuda e interferência nem sempre é fácil de delimitar. Se é certo que os jovens pais são inexperientes para cuidar de seu primeiro filho, é certo também que só aprenderão com a prática. Há avós que desautorizam e/ou desqualificam os pais em função de terem mais experiência. Mas eles também foram inexperientes, e precisaram aprender!

É muito importante que as pessoas da família consigam construir uma boa qualidade de relação afetiva com crianças e adolescentes para que estes se sintam amados, acolhidos e bem cuidados. Diferenças e divergências são inevitáveis, mas a busca de consenso e a construção de “combinados” básicos é essencial. Isso não significa que os adultos responsáveis precisem atuar como “frente unida” o tempo todo. As crianças entendem que o que é permitido/proibido na casa da vovó, do papai, da titia e dos amigos tem variações e, desde cedo, desenvolvem estratégias para conseguir fazer o que querem nos diversos contextos. Mas é perfeitamente possível esclarecer, por exemplo, que “a vovó permite que você faça isso quando está com ela, mas aqui em casa a história é outra, acabou seu “tempo de tela” hoje. Escolha outra coisa para fazer”.

Mulher, mãe e profissional – O equilíbrio difícil, porém possível

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“Não tenho tempo para mim!” Muitas mulheres que não conseguem cuidar de si mesmas se queixam da sobrecarga de tarefas: ainda é forte a carga social que exige ótimo desempenho em suas múltiplas funções. Há quem acredite que “é da natureza da mulher servir os outros”.

Tradicionalmente, a mulher tinha essa “missão” de cuidar da casa, do marido e dos filhos. No livro “Correio para mulheres”, que reúne textos que Clarice Lispector escrevia para jornais da década de 1960, encontramos conselhos do tipo: “ Cuidado na maneira como trata seu marido! Pense no que será perdê-lo…e faça-lhe as vontades”( p.98). “Uma mulher que recebe o chefe do seu lar com um ar cansado, e desfiando a ele um rosário de lamúrias sobre seus problemas caseiros, brigas com as empregadas e as malcriações dos filhos está entediando o marido e só conseguirá que ele se aborreça” (p.111).

Ao trabalhar fora de casa, encara a “dupla jornada”. Dados coletados em lares brasileiros em 2019 pelo IBGE mostram que as mulheres gastam, em média, 21,3 horas semanais cuidando dos afazeres domésticos e de pessoas, ao passo que os homens gastam, em média, 10,9 por semana. A saída? Romper com os padrões tradicionais, repartir tarefas, delegar responsabilidades, inclusive com os filhos, para que homens e mulheres sejam cuidadores e provedores. Em outras palavras: é preciso incomodar os acomodados. Que, certamente, irão reclamar e acusá-la de egoísta. Para se manter firme na nova postura, é preciso resistir ao apelo do sentimento de culpa e da exigência cruel consigo mesma. O quanto desses deveres são realmente necessários? O que pode deixar de ser feito?

Nos circuitos da interação, o que um faz influencia o que o outro faz e vice-versa: a mudança firme de postura acaba resultando em mudança de comportamento dos outros. Como relatou uma mulher: “Foi preciso meu filho adolescente ficar indignado ao ver a gaveta de meias e cuecas completamente vazia para perceber que eu realmente não voltaria a cuidar de suas roupas sujas”.

Cada um de nós passa por diversas etapas do ciclo vital: infância, adolescência, idade adulta. A família também tem um ciclo vital: com filhos pequenos e maiores. No entanto, em muitas situações, o padrão de cuidados maternos fica “congelado”:  Solicitações do tipo “Mamãe, esquente a comida pra mim!”, “Cuide da minha roupa” continuam vigorando, mesmo quando adolescentes e jovens adultos já podem fazer tudo isso por conta própria. Os “acordos de convívio” precisam mudar, acompanhando o crescimento dos filhos, para estabelecer um padrão de parceria e compartilhamento justo dos afazeres domésticos. Se a casa é de todos, todos colaboram!

“Ninguém cuida da casa tão bem quanto eu”; “Gosto de me sentir necessária” – são algumas das raízes da manutenção desse padrão. “Ninguém se oferece para fazer coisa alguma” – mas ela tampouco solicita. Ou pede ajuda apenas para as filhas, mas não para os filhos e nem para o companheiro. A necessidade de agradar e de ser reconhecida conduz à frustração: quanto mais faz, quanto mais oferece, mais é exigida e menos recebe reconhecimento e gratidão. Como funciona a via de mão dupla nos relacionamentos? O que oferecemos? O que recebemos? O quanto há de reciprocidade em termos de cuidados e atenção?

É necessário examinar o quanto, sem perceber, contribuímos para reforçar, nos outros, padrões de comportamento dos quais nos queixamos. E em que proporção construímos a sobrecarga a partir de nossas múltiplas funções.

Você acredita em “palmadas educativas”?

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Se professores, babás e outras pessoas que cuidam de crianças desenvolvem recursos para discipliná-las e estimulá-las a fazer o que precisa ser feito sem bater ou gritar descontroladamente, por que os pais não poderiam fazer o mesmo?

Na transmissão ao vivo que dei sobre o tema “Bater para educar?!” encontrei comentários do tipo: “Eu acredito na palmada”; “Minha mãe foi muito carrasca comigo, apanhei bastante e hoje não repito tais métodos extremos com meus filhos”; “Apanhei, porque era a ferramenta que os pais tinham na época”; “Meu pai me espancava e isso me fez muito mal”; “eu apanhei muito, mas me sinto feliz como eu sou”.

Excetuando casos extremos de violência intrafamiliar, vejo pessoas que se desenvolveram bem, apesar de terem apanhado até com “varadas de goiabeira”. Isso porque, certamente, havia também momentos de carinho, alegria, compreensão e amor nessas relações familiares. O que não quer dizer que foram esses métodos que garantiram a “boa criação”.

No outro extremo, há pais com muitas dificuldades de colocar os limites devidos, como nesse comentário: “Hoje o que vejo são pais com medo dos filhos e crianças sem limites”

Em contraposição, outros comentários do tipo: “Eu acredito no diálogo”; “Tenho tentado usar a disciplina positiva na escola”; “Nunca bati e meu filho nunca me deu trabalho”;

Com a disseminação de informações vindas da psicologia, aumentaram os recursos disponíveis para colocar limites de forma eficiente sem recorrer a castigos físicos. Por conta disso, considera-se que bater, gritar e se descontrolar transmitem às crianças que os adultos estão inseguros, sem recursos eficientes para lidar com eles.

Os limites precisam ser colocados com serenidade, firmeza, persistência e coerência. E os “combinados” são estratégias que estimulam responsabilidade e autocontrole.

Claro que haverão muitos momentos difíceis: “O pior é quando a criança faz birra, dá chiliques. Dá vontade de sair correndo!”. O problema é quando os adultos se descontrolam e dão chiliques também. É essencial fazer um esforço para se acalmar para, em seguida, tentar acalmar a criança, por exemplo, transmitindo que compreende o que ela está sentindo: “Eu sei que você está muito zangada porque não está podendo fazer o que quer. Mas vamos descobrir o que você vai poder fazer”.

Convém esclarecer que a criança pequena vive na “lei do desejo”, que surge com muita força. Quando frustrada, fica enraivecida. Precisa aprender a esperar ou a escolher o que é possível. Mas, antes de construir esse “freio interno” é preciso contar com o “freio externo” dos limites colocados com firmeza, carinho e compreensão.

Há muitos recursos que podem ser desenvolvidos para colocar limites com firmeza, consistência e serenidade, sem recorrer a palmadas ou a surras com “vara de goiabeira” como ainda ouço pessoas falarem! O relacionamento familiar construído com respeito, e não com medo, é o melhor caminho para educar os filhos.

Desavenças nas festas de fim de ano

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Pontes bem construídas permanecem intactas por muito tempo e resistem às intempéries (Fotografei no Japão).

 

“Não consigo perdoar minha mãe por ter votado naquele candidato! Tentei de tudo para ela mudar de ideia! Argumentei tanto, tentando mostrar por A+B que ela estava errada, mas não adiantou! Resultado: estou sem falar com ela e com outras pessoas da família que também votaram no mesmo cara! E agora vem a festa de Natal”…

Conheço pessoas que se aprisionaram nessa dificuldade de reconhecer e valorizar tudo o que foi construído em muitos anos de convívio com pessoas da família e com amigos, por conta de discordâncias e desavenças. A polarização que presenciamos nas redes sociais nas últimas eleições despertou camadas profundas de ódio, decepção e revolta. “É melhor eu me fechar entre os meus”: deletar quem pensa diferente não só das redes sociais como do convívio presencial.

Com os ânimos acirrados, muitos extrapolam em xingamentos pesados e comentários grosseiros que atacam pessoas e não apenas ideias e opiniões. Com isso, dinamitam pontes, fecham caminhos com barricadas e abrem-se abismos de intolerância e intransigência. Fixados nas respectivas posições, não há mais escuta possível. É declaração de guerra. Nesse destempero, surge o pior de nós mesmos. Mas ninguém é totalmente nem o melhor nem o pior de si mesmo. Somos luz e sombra.

Conviver com a diversidade de opiniões amplia nossa percepção dos vários modos de ver a mesma situação. Exercitar a curiosidade para entender o que leva outras pessoas a pensar tão diferente de nós contribui para encontrar pontos em comum nas divergências. Ou, pelo menos, possibilita um convívio respeitoso com as respectivas diferenças. Isolar-se nas próprias crenças, criando a ilusão de que estamos absolutamente certos limita nossa percepção de que a verdade tem várias faces.

Ao cortar vínculos afetivos com pessoas da família, amigos e amores por conta de divergências político-partidárias reduzimos a complexidade e a riqueza de milhares de interações e momentos compartilhados a um rótulo carregado de menosprezo: “nazista”, “comunista” e que tais. Quando aprisionamos as pessoas a um rótulo empobrecemos nossa percepção. Somos multifacetados.

Os conflitos surgem das divergências de opiniões, valores, visões de mundo. Porém, diferença não significa incompatibilidade. Podemos transformar conflitos que ameaçam tornar-se intratáveis quando mostramos disposição para ouvir o que os outros pensam e sentem e quando conseguimos expressar o que pensamos e sentimos sem ferir, humilhar ou menosprezar os outros.

Diferenças não nos impedem de circular pelas pontes e restaurá-las quando é preciso, em vez de continuar cavando trincheiras que aumentam a distância entre nós.