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Ganhadores, perdedores e os benefícios do fracasso

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Fracassos fazem parte da caminhada pelas trilhas da vida (Fotografei em Ilha Grande-RJ)

Conversei sobre esse tema com um grupo de amigos, após assistir ao emocionante vídeo do discurso de J.K.Rowling, a autora de Harry Potter, para formandos de Harvard abordando os benefícios do fracasso em sua vida e refletindo sobre o poder da imaginação para o cultivo da empatia.

O que é sucesso, o que é fracasso? Há ocasiões em que ganhamos algo sem perceber o que perdemos com esse ganho. Há momentos em que parece que perdemos algo que muito desejamos e não percebemos o ganho que essa perda permitirá em futuro próximo. Muitas pessoas que são um sucesso comercial são medíocres, ao passo que muitos são talentosos nas sombras, jamais chegam a ser reconhecidos. Muitos pintores hoje famosos eram considerados fracassados quando ainda vivos.

A sociedade nos impõe critérios de sucesso que nem sempre se encaixam em nossa essência – diz Rowling, que passou por muitos fracassos em sua trajetória: foi demitida de vários empregos, passou por um casamento traumático, viveu um período dependente da assistência social, sozinha com a filha pequena, teve o original de Harry Potter recusado por várias editoras. Para ela, os benefícios do fracasso foram: despojar-se do que não é essencial, desenvolver a determinação de concretizar o sonho de ser escritora; ver o fundo do poço como alicerce para reconstruir a vida; autoconhecimento, que permitiu desenvolver força de vontade e confiança na própria capacidade de sobreviver às adversidades.

É impossível viver sem passar por fracassos. Com 40 livros publicados, também já tive originais recusados por algumas editoras, e alguns que não passaram da primeira edição. Na vida pessoal, alguns relacionamentos afetivos que desandaram. Persistência, esperança de melhores oportunidades e flexibilidade para encontrar novos caminhos sempre me ajudaram a conviver com as frustrações.

O que representa “chegar ao topo”? Há artistas ou esportistas que se deprimem após receber o “prêmio máximo”. O que vem depois de toda essa glória? Muitos se paralisam pelo medo de não conseguir superar a própria marca, como acontece com escritores que se bloqueiam após escrever um livro de grande sucesso.

Não é fácil confrontar-se com a própria sombra, para olhar de perto aspectos menos apreciáveis em nós mesmos, especialmente quando nos regulamos por padrões sociais que definem sucesso como acúmulo de bens materiais que simbolizam status ou reconhecimento maciço da mídia, incluindo milhares (ou, de preferência, milhões) de seguidores nas redes sociais.

Por outro lado, há pessoas que não conseguem suportar o sucesso. Sentem-se oprimidas, sobrecarregadas com as próprias exigências e pela obrigação de corresponder às altas expectativas da família ou da sociedade. E há os que caem frequentemente na teia da autossabotagem, e fazem de tudo para que nada dê certo. Até por conta de aceitar inconscientemente o “carimbo” que a família lhe reservou (“você não vai dar para nada”). O olhar da família e da sociedade tem o poder de validar ou de invalidar, influenciando a autoimagem.

A questão é como podemos evoluir para ser o melhor de nós mesmos, sem necessariamente se medir com os outros ou internalizar sem análise crítica as definições de sucesso e de fracasso impostas pela sociedade.

O vídeo mencionado pode ser acessado pelo link:

https://www.google.com.br/search?q=rowling+harvard+speech&oq=rowling+harvar&gs_l=psy-ab.1.0.0j0i22i30k1l3.2671.13005.0.15086.24.23.1.0.0.0.125.2148.20j3.23.0….0…1.1.64.psy-ab..0.24.2148…0i10k1j0i131k1j0i67k1.HUCq_xSou7Y

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“Não quero passar insegurança para minha filha”!

Em caminhos escorregadios, como esse que fotografei em Ibitipoca (MG), a “insegurança benéfica” me estimula a ser mais cautelosa com meus passos.

Em caminhos escorregadios, como esse que fotografei em Ibitipoca (MG), a “insegurança benéfica” me estimula a ser mais cautelosa com meus passos.

Um pai veio conversar comigo após uma palestra. Disse: “Sou muito inseguro, tenho medo de desagradar os outros, sinto dificuldades em tomar decisões. Não gostaria de passar isso para minha filha, que está com sete anos”.

A primeira coisa que eu disse a esse pai é que ninguém é 100% seguro nem 100% inseguro. A insegurança aumenta quando criamos expectativas impossíveis de serem realizadas: ninguém consegue agradar a todo mundo sempre. Outra coisa: não “passamos” insegurança para os filhos. Cada um deles desenvolve um modo de ser e de perceber os acontecimentos. Podem crescer se sentindo predominantemente seguros, embora percebam nossas inseguranças.

Além disso, há a “insegurança benéfica”, que nos motiva a avaliar com o devido cuidado os prós e os contras de decisões importantes, em vez de rapidamente escolhermos uma alternativa que nem sempre será a melhor. A “insegurança benéfica” também estimula nossa dedicação para, por exemplo, estudar mais para fazer uma prova importante, em vez de acreditar, sem base na realidade, que vamos conseguir ótimos resultados.

A falsa segurança, que costuma vir junto com a arrogância, é má conselheira. Quem pensa que já sabe tudo não percebe o quanto precisa aprender. E, por isso, se prepara de modo insuficiente para as provas da vida.

Quando adotamos a postura de aprendizes permanentes, conseguimos encarar a insegurança como parte do processo de transição entre as diversas etapas da vida. O primeiro namoro, o início da vida profissional, a chegada do primeiro filho são alguns dos muitos exemplos de transição existencial, em que novos caminhos de desconhecimento se abrem e a insegurança se apresenta. Em vez de lutar contra ela, podemos considerá-la como aliada, que nos estimulará a aprender os primeiros passos nas novas trilhas.

A vivência fundamental da insegurança é o próprio ato de nascer. Em que mundo estamos desembarcando? O que nos aguarda nessa jornada? Por isso é tão importante gestar com a consciência de que estamos “tecendo” uma pessoa e receber o recém-nascido com amor, acolhimento, aconchego e bons cuidados. Acompanhar o desenvolvimento da criança ajudando-a a construir uma boa auto-estima, apreciando suas conquistas e mostrando que o erro é importante para a aprendizagem. Isso contribuirá para que ela cresça se sentindo segura para encarar os desafios da vida, fazendo aliança com a “insegurança benéfica” para procurar se aprimorar cada vez mais.