Arquivo da tag: autodisciplina

Maratonas da vida

IMG_20180603_101107

É necessário um bom preparo e muita persistência para enfrentar as maratonas da vida (Fotografei em Copacabana).

Observei maratonistas encarando 42 km e tenho uma amiga maratonista. Nunca pensei em fazer isso, gosto de caminhar e nadar no mar, sem entrar em competições. Mas pensei sobre as maratonas que enfrentamos no decorrer da vida e sobre a preparação necessária.

Desde criança eu gostava de escrever. Na adolescência, decidi ser psicóloga e entrei na maratona do vestibular com muita dedicação. Mas foi a partir publicação do meu primeiro livro (Psicologia da gravidez, que foi minha tese de Mestrado) que desejei escrever outros. Gostei da experiência e, pouco a pouco, aumentei o tempo dedicado à escrita. Já publiquei mais de quarenta livros, e isso envolve, até hoje, enfrentar as maratonas do mercado editorial.

Minha amiga maratonista conta que, para alcançar o objetivo maior de correr 42 km é preciso fracionar o preparo em etapas e 5, 10, 15 km para, gradualmente aumentar a resistência física e emocional. A meta que parecia quase impossível de alcançar torna-se possível com planejamento e persistência para enfrentar obstáculos. Inclui renúncias a prazeres imediatos e capacidade de lidar com frustrações e decepções.

Quando converso com estudantes que leram meus livros paradidáticos, muitos me perguntam quanto tempo, em média, foi preciso para eu escrever aquele livro que leram em poucas horas. Eles se surpreendem quando respondo que, em média, preciso de um a dois anos para pesquisar sobre o tema, fazer um planejamento detalhado, reescrever o que não achei bom, fazer inúmeras revisões até entregar os originais. Em síntese, disciplina, persistência e paixão pela escrita.

Quando quem sonha em ser escritor me pergunta o que é preciso fazer para publicar um livro, respondo que é preciso gostar muito de ler para poder escrever e não desistir dos inúmeros obstáculos que surgem: editoras que demoram até dois anos para dizerem se querem publicar o livro (quando dão resposta), distribuição e divulgação insuficientes que resultam em decepção com a venda, originais recusados por diversas editoras.

Paralelamente à carreira de escritora, enfrento a maratona de trabalhar como palestrante. Para melhor me preparar, fiz alguns anos de cursos de teatro e de trabalho com a voz, além de aprender a construir apresentações visualmente atraentes e com conteúdo interessante  para vários públicos. Minha amiga maratonista me diz que para alcançar metas é preciso se esforçar, superar a preguiça e a acomodação, treinar constantemente, cuidar bem da alimentação e do sono. Mas o prazer de se sentir competente e superar limites anteriores compensa sacrifícios e frustrações.

Digo o mesmo sobre os trabalhos que faço nas maratonas da vida. E acrescento: é muito bom compartilhar o que aprendo!

Anúncios

Transformando famílias

2016-Itamonte

Aproveitar as oportunidades que surgem abrem trilhas interessantes no caminho da vida. (Fotografei em Itamonte, MG)

“Eu estava muito preocupada com meu filho. Ele não tinha sonhos, não sabia o que queria da vida. Depois que entrou para a aula de vôlei na Cruzada conseguiu ser federado e leva a sério sua preparação. Diz que atleta não tem férias, que precisa cuidar da alimentação. Agora eu o vejo feliz, com objetivos, dedicado ao esporte. O desempenho na escola melhorou muito. O pai, que era muito ausente, agora participa mais da vida da família”. O jovem, de 13 anos, acrescenta: “Agora eu tenho um foco. Mesmo nas fraquezas, levanto a cabeça e sigo em frente, mesmo perdendo, mantenho o sorriso”.

“Minha filha, com 12 anos, passou a ter mais responsabilidade com os horários, tem disciplina. Estava muito ociosa, agora faz aulas de vôlei, judô, capoeira, hip-hop e cuida da roupa do esporte. Aliás, eu também entrei nessa dança e já perdi cinco quilos, estou mais animada. Além disso, com a ajuda da equipe, voltei ao mercado de trabalho. Fiz um curso de culinária e passei a fazer bolos, doces e salgados para vender. Consegui conciliar o tempo de cuidar da família e produzir”.

“Os professores da creche educam os pais na relação com os filhos” – disse a mãe de um menino de dois anos. “Confesso que eu sofria agressões do meu marido, e isso acabou depois que passamos a frequentar as reuniões de família. Fiz amizade com muitas mães, trocamos ideias, comemoramos aniversários juntas. A gente que mora em comunidades vê muitos pais que não cuidam dos filhos, vale a pena se acostumar com coisas boas”.

Da mãe de uma menina de quatro anos, que nasceu com síndrome de Down: “Parei de trabalhar para cuidar da minha filha, mas vi que ela precisava de outros cuidados. A creche acolheu nossa família com carinho e minha filha está se desenvolvendo muito bem, está mais sociável, desenvolveu a fala e a motricidade. Comecei a desenvolver grupos de apoio a famílias que passam por essa situação e transmitir informações para quem tem preconceitos de se aproximar de crianças como ela”.

Ao final da reunião do Conselho Consultivo da ONG Cruzada, da qual faço parte, algumas mães e alunos que frequentam a creche e os projetos do Plantando o Amanhã falaram sobre o impacto desse trabalho em suas famílias. Com o propósito de educar para transformar, a Cruzada estimula a participação das famílias e o desenvolvimento das competências de todos.

“Eu tenho vontade própria”!

A “vontade própria” de fazer uma obra de arte como essa que fotografei em Inhotim (MG) exige renunciar  à “vontade própria” de fazer muitas outras coisas.

A “vontade própria” de fazer uma obra de arte como essa que fotografei em Inhotim (MG) exige renunciar à “vontade própria” de fazer muitas outras coisas.

Por que tenho que respeitar pai e mãe? Sou igual a vocês! Por que tenho que obedecer? Vocês também não me respeitam! Eu tenho vontade própria! – Eduardo, oito anos, encara a mãe que, pela terceira vez, diz que ele tem de interromper o jogo para estudar Matemática.

Com firmeza e serenidade, os pais precisam transmitir a noção de hierarquia: os direitos entre pais e filhos não são iguais porque os pais assumem uma carga maior de deveres e compromissos, inclusive o de cuidar, orientar e proteger os filhos.

Entender que a raiva surge da inevitável frustração de alguns desejos e esclarecer conceitos é um processo trabalhoso. Respeitar os filhos não significa deixá-los fazer o que querem na hora em que bem entendem. Nossa “vontade própria” não pode ser seguida o tempo todo nem na infância nem na idade adulta…

Renunciamos à “vontade própria” quando temos de continuar assistindo a uma aula desinteressante em vez de sair correndo para o pátio do recreio, quando precisamos cumprir o horário de trabalho em vez de ir para casa descansar, quando vemos que precisamos fazer compras no mercado em vez de ir ao cinema. Em milhares de outros momentos no decorrer da vida, não conseguimos fazer o que nossa “vontade própria” determina! Gerenciar o tempo, colocar prioridades, adiar a gratificação, escolher o que realmente importa, aprender a diferença entre desejo e necessidade: essa habilidade pode ser desenvolvida desde cedo.

“Eu sempre digo para meu neto: em vez de ficar enrolando com a hora do estudo, e brigando com sua mãe, faça isso logo por conta própria! Vai sobrar mais tempo para brincar”! – a perspectiva de Eunice, como avó, ajuda a contemporizar o conflito entre mãe e filho em torno da dificuldade de organizar o tempo para dar mais espaço para a “vontade própria” se manifestar.

“Você não manda em mim”!

Quando contemplei essa escultura natural em uma gruta da Sardenha, pensei na paciência e persistência necessárias para educar filhos.

Quando contemplei essa escultura natural em uma gruta da Sardenha, pensei na paciência e persistência necessárias para educar filhos.

“Mando, sim, porque sou sua mãe”! E a dupla empaca no circuito resistência da criança/insistência da mãe em se fazer obedecer.

Em famílias com casais em novas uniões, “você não manda em mim” é uma frase dita com frequência quando o companheiro/a do genitor/a tenta colaborar para melhorar a qualidade dos relacionamentos no dia a dia. Mesmo sem serem pais e mães, essas pessoas acabam exercendo a função parental.

“Adoraria não precisar mandar você fazer o que precisa ser feito, mas você me convida a ser chata”! – retruca Marisa, tentando estimular o filho a sair fora desse circuito e aprender a mandar em si mesmo.

Na aprendizagem da autorregulação, crianças e adolescentes aprendem, gradualmente, a buscar o equilíbrio entre deveres e prazeres e a tomar a iniciativa de cumprir suas obrigações sem precisar de um comando externo. Mas nem sempre isso acontece…

– “E o que eu faço com meu filho de 22 anos que acabou sendo reprovado em duas matérias por faltas, porque tem preguiça de acordar cedo para ir à faculdade”? “Não sei mais o que dizer para minha filha que, em vez de estudar, fica o dia inteiro nas redes sociais! E já está com 19 anos”!

Ouço esse tipo de comentários com frequência. Quando examino mais a fundo os circuitos interativos, comumente vejo que esses jovens adultos recebem benefícios sem contrapartidas. Se ficam reprovados, os pais tornam a pagar a mensalidade no ano seguinte. O dinheiro para o lazer continua garantido. Ou seja, não sofrem consequências para seus atos. Não precisam se esforçar…

Há alguns anos, trabalhei como voluntária em um curso de capacitação para o primeiro emprego para adolescentes que viviam em comunidades de baixa renda. Recebiam ofertas de estágio das empresas parceiras do projeto. Muitos deles não conseguiam completar o tempo previsto nas empresas porque se recusavam a fazer as tarefas propostas ou as realizavam de modo insatisfatório, apenas quando estavam sendo vigiados e cobrados.

Em conversas com gerentes de diferentes empresas, ouço muitas queixas da má qualidade dos serviços oferecidos. Funcionários adultos que precisam ser comandados continuamente, com a tendência a manter o desempenho no mínimo indispensável. “Parece até que não precisam de ganhar dinheiro para pagar as contas”! – comentou um gerente. Poucos se esforçam para mostrar o melhor desempenho possível.

Vivemos mergulhados em um mundo de ofertas de entretenimento. Não é fácil a tarefa de educar os filhos para o autogerenciamento!

Minha filha pega dinheiro da minha bolsa!

Uma loja de guloseimas, difíceis de resistir, que fotografei na Bélgica.

Uma loja de guloseimas, difíceis de resistir, que fotografei na Bélgica.

Uma leitora do blog me sugeriu o tema, preocupada com a filha de sete anos, que pega dinheiro sem pedir nem dizer o que quer comprar.

A transição da lei do desejo (“eu quero agora!”) para a lei da realidade (“não posso ter tudo que quero”) é um processo que acontece aos poucos no decorrer da infância. Os limites claros e consistentes formam gradualmente a percepção do que nos pertence e do que pertence aos outros, ajudando a construir o freio interno que nos impede de avançar sobre os pertences alheios, mesmo quando nosso desejo é imperioso. Crianças pequenas querem levar para casa os brinquedos dos amigos ou da sala de aula. Choram contrariadas quando o desejo é frustrado e algumas tentam burlar a proibição pegando escondido.

Crianças maiores às vezes fazem o mesmo com o dinheiro, quando percebem que este é um meio para satisfazer seus desejos de comprar o que querem, mesmo que a consciência moral já esteja a caminho do desenvolvimento, indicando que esse comportamento é inaceitável. Como estão ligadas no que é veiculado pelos noticiários, chegam até mesmo a argumentar que isso não é grave, diante de tantos casos de corrupção e desvio do dinheiro público. Diante disso, muitos pais sentem dificuldades em transmitir a noção de certo e errado, colocando as consequências cabíveis quando essa conduta se repete.

Crianças maiores podem começar a estruturar disciplina financeira quando recebem uma pequena quantia semanal para suas compras. Mas, para isso, é importante que o dinheiro da “semanada” e, posteriormente, da “mesada” seja oferecido dentro dos critérios combinados. Se acabar antes do prazo, a criança ou o adolescente ficará sem ter o que comprar. Só encarando a frustração da “lei da realidade” será possível construir disciplina financeira, aprendendo a regular o próprio desejo. Muitos adultos não conseguem completar esse processo e vivem se endividando…

No entanto, quando pegar dinheiro escondido é uma conduta repetitiva, pode ser um sintoma que expressa outros tipos de sentimentos e desejos. Querer ser o centro das atenções, mostrar desse modo o ciúme do irmão que nasceu, a revolta pela separação dos pais, a inveja por não ter os mesmos pertences que os amigos. Conversar sobre esses sentimentos subjacentes pode ajudar a entender as reais necessidades que estão sendo reveladas pelo sintoma, abrindo caminho para construir “combinados” mais satisfatórios.

Limites são necessários em todas as idades!

Fotografei no voo pelos Lençóis Maranhenses.

Fotografei no voo pelos Lençóis Maranhenses.

Há pais que confessam que não conseguem colocar limites. Dizem que os filhos simplesmente os ignoram e continuam fazendo o que querem. Por medo de serem autoritários, sentem dificuldade de exercer autoridade. No entanto, na aprendizagem do respeito pelos outros, é essencial que os limites sejam colocados com clareza, paciência e persistência, juntamente com as respectivas consequências. Estas serão aplicadas sempre que os “combinados” não forem cumpridos.

Limites claros, consistentes e colocados no momento certo ajudam crianças e adolescentes a lidar com as frustrações, a ter consideração e respeito pelos outros, a pensar alternativas possíveis, desenvolvendo a criatividade e a inteligência social.

Nos primeiros anos de vida, vivemos na lei do desejo: “Eu quero agora!”. Pouco a pouco, aprendemos a viver na lei da realidade: “Nem sempre tenho tudo que quero, na hora ou do jeito que eu desejaria”. Passamos a perceber a existência e o direito dos outros, aprendemos a fazer acordos.

No decorrer de toda nossa vida, precisamos fazer escolhas e renúncias, desenvolvendo a autodisciplina, buscando o equilíbrio entre deveres e prazeres. Para construir o freio interno, é preciso contar inicialmente com o freio externo representado pelos limites colocados no âmbito da família e da escola, junto com suas respectivas consequências, até que sejamos capazes de, autonomamente, colocar os limites necessários para nós mesmos. Essa competência nos permite, por exemplo, desenvolver disciplina financeira para não nos endividarmos, evitar a ingestão excessiva de comida ou de bebidas alcóolicas e muitas outras ações que revelam a capacidade de cuidar bem de nós mesmos.

Quando aprendemos a tomar conta de nós mesmos

Ninguém precisa ficar mandando na gente!

Não adianta ficar reclamando da cobrança

Se não faz a sua obrigação

E nem quer ter responsabilidade

Para ser livre é preciso saber se organizar

Quando não deixa tudo pra depois

Sobra muito mais tempo pra brincar!