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Paternidade participativa

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Um dos muitos bons momentos com meus pais.

Fui criada no modelo tradicional de pai provedor/mãe cuidadora. Meu pai era amoroso e sensível, ouvia mais do que falava e foi muito importante para minha formação.

Trabalhando com famílias há mais de quatro décadas, acompanho as transformações não só das formas de constituir uma família como também do entendimento crescente da importância de partilhar as funções de prover e de cuidar.

Por muitas décadas, a ênfase na relação mãe-filho colocou o pai em segundo plano ou, então, lhe atribuiu o papel de “agente da lei” na educação das crianças. Porém, os estudos mais recentes mostram a importância fundamental do homem que participa do dia a dia do bebê e da criança pequena com ternura e acolhimento nos momentos de trocar fraldas, dar banho, brincar, cantar. Esses pequenos grandes acontecimentos do cotidiano constroem os alicerces do vínculo seguro, que repercute positivamente no desenvolvimento no decorrer da infância e da adolescência. Não é mais o homem que “ajuda” a mulher (como se fosse um favor), mas o pai que participa ativamente da criação de filhos e filhas.

Profissionais de saúde e economistas estão mostrando com maiores detalhes a prioridade que precisa ser dada à primeira infância (da gestação aos seis anos de idade) para promover um desenvolvimento saudável. A inclusão do homem em consultas do pré-natal e nos grupos de “famílias grávidas”, a lei que garante o direito a um acompanhante no trabalho de parto (Lei do Acompanhante – 11.108/2005), a licença-paternidade estendida são exemplos de políticas públicas que priorizam o foco na família e não apenas na gestante.

O envolvimento paterno desde a gestação fortalece o vínculo e reduz a incidência de violência intrafamiliar, negligência e abandono. Isso vale também para o pai adolescente. Nem todas as gestações na adolescência resultam em experiências negativas mas, para favorecer uma experiência positiva de parentalidade, é preciso uma assistência de boa qualidade das equipes de saúde, família e comunidade. No acompanhamento ao parto humanizado, onde a mulher tem liberdade de se movimentar e escolher as posições mais confortáveis no trabalho de parto, a presença do homem bem orientado (que participa ativamente oferecendo massagens e acolhimento à parturiente) dá o suporte essencial e a oportunidade de mergulhar na emoção de presenciar o nascimento da criança.

Igualmente importante é o apoio do pai no período da amamentação, dividindo a responsabilidade dos cuidados e das tarefas domésticas para que a mulher tenha a necessária tranquilidade para amamentar o bebê.

O Relatório de 2017 sobre a Situação da Paternidade no Mundo revela que, em nenhum país, a participação dos homens nos cuidados com a prole é igual à das mulheres, porém é crescente o número de homens que se abrem para a experiência da paternidade participativa, que resulta em um novo modelo de masculinidade e uma experiência de desenvolvimento pessoal na tecelagem do vínculo com os filhos, em qualquer tipo de organização familiar.

Campanhas globais (como as do Instituto Promundo e MenCare ) que promovem o envolvimento de homens e meninos como cuidadores equitativos e não-violentos, assim como grupos em redes sociais que permitem a troca de ideias sobre a experiência da paternidade e suas emoções, são recursos que constroem o modelo necessário de masculinidade baseado no afeto e no cuidado.

Links sobre o tema:

https://docs.google.com/viewerng/viewer?url=http://promundo.org.br/wp-content/uploads/sites/2/2018/05/sumario_situacaodapaternidade2017_01d_baixa.pdf

 

http://desenvolvimento-infantil.blog.br/uma-nova-geracao-de-pais-revoluciona-a-paternidade-no-mundo/

https://sowf.men-care.org/wp-content/uploads/sites/4/2015/07/The-State-of-Fatherhood-and-Caregiving-in-Brazil_Portuguese_web-1.pdf

https://promundo.org.br/wp-content/uploads/sites/2/2014/08/promundo_manualp_07i_web.pdf

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A experiência positiva do parto

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É preciso respeitar e cuidar bem de todas as fases do ciclo vital, em especial da gestação e dos primeiros anos de vida. (Fotografei em Pacoti- CE)

Após a tecelagem do vínculo na gestação, chega a hora do parto. Como contribuir para que essa experiência seja a melhor possível para toda a família? Como assegurar a melhor recepção ao novo ser que acaba de chegar no mundo fora do útero materno?

A OMS (Organização Mundial de Saúde) acabou de publicar um documento contendo recomendações para que as equipes assistenciais favoreçam uma experiência positiva de parto para todas as mulheres. Destaco o que, para mim, foram aspectos importantes:

  • A maioria de cerca de 140 milhões de partos por ano em todo o mundo apresenta baixo risco de complicações tanto para as mulheres quanto para seus bebês. No entanto, há algumas décadas, aumentam as práticas de utilizar recursos para induzir, acelerar e controlar o processo fisiológico do trabalho de parto e fazer cesarianas desnecessárias. A medicalização excessiva subestima a capacidade da mulher de dar à luz e traz um impacto negativo para a experiência do parto, relegando a segundo plano a realidade de que o parto é um processo fisiológico que ocorre sem complicações para a imensa maioria das mulheres e dos bebês.
  • Por isso, o objetivo das recomendações propostas pela OMS é melhorar a qualidade da assistência ao parto para resultar em experiências positivas dentro de um contexto seguro.
  • A presença de uma pessoa escolhida pela parturiente no decorrer do trabalho de parto/nascimento/pós-parto é uma recomendação fundamental. Essa pessoa (companheiro/a, mãe, amiga, doula) pode oferecer o necessário suporte emocional.
  • Não é recomendado fazer rotineiramente a raspagem dos pelos pubianos e nem lavagem intestinal.
  • Técnicas de respiração e relaxamento, música, massagens, compressas quentes são úteis para reduzir a ansiedade e aliviar a dor, de acordo com as preferências da parturiente, assim como algumas opções de analgesia.
  • Liberdade para se movimentar, caminhar e adotar posições verticais no parto também é recomendável, de acordo com as preferências da parturiente.
  • A episiotomia de rotina não é recomendada no parto vaginal espontâneo, e pode ser substituída por massagem perineal e compressas quentes para relaxar e ampliar o canal de parto.
  • Cortar o cordão umbilical somente, no mínimo, um minuto após o nascimento.
  • O recém-nascido saudável deve ser mantido em contato pele a pele com a mãe na primeira hora após o nascimento, para prevenir hipotermia e favorecer o aleitamento.
  • Mãe e bebê devem permanecer em alojamento conjunto 24 horas por dia.

Ter um filho é uma experiência transformadora. Os primeiros mil dias (desde a concepção até o segundo ano de vida) formam o alicerce do novo ser, com repercussões importantes no longo prazo. Cuidar da “família grávida” e da tecelagem do vínculo amoroso é prioritário para a construção de uma sociedade mais harmoniosa.

Para quem quiser ler o documento completo:

WHO recommendations- Intrapartum care for a positive childbirth experience

http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/260178/9789241550215-eng.pdf;jsessionid=FE4EF8B80CC169381F8DC0089297856D?sequence=1

Gestando pessoas para uma sociedade melhor

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Na gestação, uma vida começa a desabrochar (Fotografei em Santana dos Montes, MG)

Desde que comecei a escrever meu primeiro livro – Psicologia da Gravidez -, na década de 1970, tenho acompanhado a enorme evolução das pesquisas sobre a vida emocional do feto e da construção do vínculo com a família desde a gestação. A riqueza desses estudos é tão grande e a evolução do conhecimento dessa etapa da vida é tão rápida que já atualizei o livro quatro vezes!

Alguns aspectos que considero mais importantes para o bom desenvolvimento do ser que está sendo gestado e que repercute por toda a sua vida:

  • A gravidez acontece de várias formas: planejada, inesperada, após a perda de outras gestações, em momentos difíceis da vida. O novo ser se desenvolve no corpo da mulher, e isso mexe com as emoções e com a vida de quem está em volta. Por isso, costumo falar em “família grávida”. No decorrer da gestação, o preparo do espaço físico da casa para receber o novo habitante representa o processo de fazer um “espaço amoroso” no coração de mãe, pai, avós, irmãos, tios para acolher e cuidar do ser que vai nascer.
  • Diante de tantas mudanças, é natural sentir medo, ansiedade, insegurança. “Será que vou conseguir ser uma boa mãe (ou um bom pai)?” Fazer uma boa preparação para o parto e para a amamentação, buscar informações sobre como cuidar do recém-nascido e contar com pessoas que possam oferecer apoio pode dar tranquilidade para gestar com alegria, confiança e entusiasmo.
  • Muito do que acontece durante a gestação influencia o desenvolvimento futuro – as pesquisas mostram a importância de “tecer o amor” pelo filho desde o início da gestação. Isso inclui o cuidado que a mulher grávida precisa ter com sua própria alimentação (não fumar, não ingerir álcool ou outras drogas), “conversar” e cantar para o feto que, ainda no útero, consegue ouvir a voz da mãe.
  • Nosso cérebro é um “órgão social”, ou seja, nascemos programados para nos relacionarmos com outras pessoas. E isso pode ser estimulado a partir da gestação e no primeiro ano de vida. Todos os órgãos dos sentidos são importantes para perceber o amor. O recém-nascido precisa de ser olhado nos olhos, tocado com carinho, ouvir a voz das pessoas da família que falam diretamente com ele. Ainda não entende as palavras, mas é sensível ao tom de voz e à atenção que recebe. Consegue reconhecer o cheiro da mãe com poucos dias de vida, gosta do sabor de seu leite. Cada mamada é uma oportunidade de aprofundar o contato com o bebê. Cada troca de fralda, cada banho também. São os pequenos cuidados do dia a dia que vão tecendo o amor.