Arquivo da tag: castigos

Disciplinar crianças à luz da neurociência

042

O cérebro integrado nos permite navegar pelo meio do “rio do bem-estar”, longe das margens do caos e da rigidez (Fotografei em Peruíbe, SP).

Os recursos de manejo em situações do dia a dia com crianças e adolescentes em abordagens como a de Thomas Gordon (“Parent Effectiveness Training”) e de outros especialistas me inspiraram a escrever Comunicação entre pais e filhos, a partir de minha experiência com grupos de pais. É muito bom constatar a validação da eficácia desses recursos à luz dos estudos sobre a formação do cérebro na infância em livros como Disciplina sem drama, de Dan Siegel e Tina Bryson. Destaco os seguintes aspectos deste livro:

  • O cérebro está sempre se reprogramando a partir das experiências vividas. As ações de pais e educadores influenciam essa modelagem do cérebro.
  • Se considerarmos a construção do cérebro como uma casa, o “andar de baixo” é constituído pelo tronco cerebral e pelo sistema límbico e o “andar de cima” pelo córtex cerebral, que demora muito tempo para se consolidar.
  • Na criança pequena, predomina o “andar de baixo” (ataques de birra, explosões de raiva, recusa em fazer o que é preciso) que ela ainda não consegue controlar sozinha. Por isso, são momentos importantes para disciplinar no sentido de ensinar, e não de punir. Os limites precisam vir de fora até que, pouco a pouco, se fortaleçam os circuitos neuronais do “andar de cima”, que possibilita o autocontrole.
  • Nos episódios de mau comportamento, é essencial conectar-se com o que a criança sente (raiva, tristeza, frustração), reconhecer e validar seus sentimentos, mesmo quando não concordamos com o que ela fez. Só assim, ela poderá passar da reatividade para a receptividade e prestar atenção ao que dizemos. Em primeiro lugar, conectar-se com a criança para, depois, redirecionar seu comportamento.
  • Refletir os sentimentos faz com que a criança se sinta amada e compreendida. Então, poderá aceitar a ideia de uma “segunda oportunidade” para pensar o que poderia ter feito ao invés do que fez e, se possível, reparar o dano.
  • Para isso, é importante estimular o desenvolvimento da empatia para que ela perceba o impacto de suas ações sobre os outros. Todas essas ações constroem o “andar de cima” do cérebro: visão da própria mente e da dos outros, empatia, reparação.
  • Ao fortalecer as conexões entre o “andar de cima” e o “andar de baixo” ocorrerá a integração das diferentes regiões responsáveis por diversas funções no cérebro: “neurônios que disparam juntos se ligam juntos”. O cérebro integrado nos permite navegar pelo meio do “rio do bem-estar”, longe das margens do caos e da rigidez.
  • Ao disciplinar com firmeza, serenidade e muito amor, conectando-se com os sentimentos subjacentes ao comportamento para depois redirecionar, não é preciso utilizar com frequência o “cantinho do pensamento”, castigos e consequências.
Anúncios

Castigos ou consequências?

201

Educar exige atenção amorosa aos pequenos momentos do cotidiano (Fotografei na exposição de Hiroshige, em Paris).

“Qual a diferença entre aplicar castigos e consequências na educação dos filhos”? – foi a primeira pergunta da jornalista que me entrevistou para uma revista portuguesa.

O objetivo das consequências é educar crianças e adolescentes (e até mesmo alguns adultos) para se responsabilizarem pelos próprios atos e fazer reparação de danos. É um modo de reconhecer as repercussões de nossas ações em outras pessoas. Há adultos que não conseguem perceber isso e culpam os outros por tudo que acontece. Não admitem que são, pelo menos em parte, responsáveis pelo ocorrido.

As consequências referem-se diretamente ao que deixou de ser feito ou ao comportamento inadequado: “ Primeiro acabe de fazer os deveres escolares, depois poderá brincar”; “Você rasgou a página do livro de propósito: agora vai ter que consertar o que fez”. Lembro-me de uma conversa com a diretora de uma escola em que vários alunos danificavam mesas e cadeiras das salas de aula. Os castigos tradicionais (advertência, suspensão) não funcionavam. Um dia, contratou um marceneiro para ensinar os “infratores” a consertar o que quebravam. No semestre seguinte, o índice de material danificado foi muito menor. O comentário predominante: “Quebrar é rapidinho, consertar dá um trabalho danado”!

Quando as consequências são aplicadas, a criança e o adolescente entendem melhor a ligação entre seu comportamento e a ação que precisará ser feita para reparar o erro. É também possível combinar antecipadamente com o filho quais as consequências que serão aplicadas: “Percebo que está difícil para você sair das redes sociais para estudar e dormir no horário certo. Nos dias em que você não conseguir fazer isso por conta própria, eu vou guardar seu celular até o momento adequado”. O apelo do prazer e do entretenimento é tão forte que, muitas vezes, é difícil tomar conta de si mesmo sem ajuda externa.

O comportamento inadequado dos filhos muitas vezes deixa os pais enraivecidos e, nessas ocasiões, o castigo costuma ser desproporcional: “Não fez os deveres escolares hoje, então vai ficar um mês sem jogos eletrônicos”. Quando a raiva acaba, o castigo costuma ser esquecido e, no dia seguinte, a criança está com seus jogos eletrônicos novamente. Mas o que ela percebe é que a palavra dos pais não tem credibilidade. Pior é quando o castigo envolve ameaças de perda de afeto: “Se você continuar se comportando mal, eu vou sumir de casa e nunca mais vou ver você”. Isso cria insegurança e medo de abandono.

Educar para a responsabilidade, a cooperação e a percepção de que precisamos contribuir para a coletividade, seja na família, na escola, no trabalho, na comunidade em que vivemos é cada vez mais importante para viver nesse mundo em rápida transição. Isso se solidifica por meio de pequenas ações no dia a dia. É preciso colocar em foco a ação desejada, e dizer isso com firmeza. Por exemplo, se a casa é de todos, todos precisam cooperar para a organização: “Você deixou sua toalha de banho no chão do banheiro. Coloque-a no lugar certo, agora!”; “Hoje é seu dia de lavar a louça do jantar. Faça isso antes de sair para se encontrar com os amigos”.

Aplicar consequências proporcionais ao que foi feito é uma questão de hábito, de criar uma disciplina, educar. Os castigos físicos ou desproporcionais podem estimular o medo, e não o respeito. Educar exige paciência, dá trabalho. Mas, se escolhemos ter filhos, é preciso criar tempo e disponibilidade para isso.