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Mulher: Tempo de criar, espaço de viver, liberdade de amar

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Que as etapas do ciclo da vida nos façam florescer. Quando chegar o momento final, voltaremos a fertilizar o solo. (Fotografei em Sydney, Austrália)

Mulher,

nas profundezas do seu ser

estão a transcendência,

o milagre,

a grande alquimia,

a própria noção do infinito.

 

É preciso que você

honre seu corpo,

com seus ritmos, ciclos e passagens

que vão deixando os registros

dos tempos vividos.

 

Que você, mulher, deixe crescer

asas e raízes,

para ter firmeza e consistência

e, ao mesmo tempo, a leveza

para fluir pela vida,

ligada com a terra e com o céu.

 

Mulher, acredite

que quase nada está sob controle;

o tempo flui, passa e faz passar.

Nas emoções, nos sentimentos,

nos fluidos humores

estão incrustados perpétuos movimentos,

as fases da lua,

o vaivém das marés,

a grandiosidade dos mares.

 

Que você, mulher,

possa amar e se deixar amar,

respeitar e se fazer respeitar,

apreciando e sendo apreciada,

deixando expandir,

dentro e ao redor de si,

a chama amorosa.

 

Gestar-se,

nascer de si mesma,

infinitas vezes,

em múltiplos seres

dentro do mesmo ser.

 

Que você encontre, mulher,

no mergulho interior,

a sabedoria que sugere caminhos

mesmo em tempos de dúvidas,

incertezas e encruzilhadas,

em que você se vê partida

entre escolhas e dores,

entre o impulso do desejo

e a consciência da ponderação.

 

Cataclismo, reviravolta, reversão.

Mergulho em águas densas, turvas,

no desmoronamento do mundo

até então construído.

Desilusões, traições, decepções,

gerando mudanças e revisões.

 

Deixar morrer para renascer,

encontrar sentido

em sofrimentos sem sentido.

Que você possa, mulher,

também pela dor

criar algo novo,

a partir das rupturas,

das perdas,

de passagens e travessias.

 

Quando parece que nada sobrou,

alguma coisa renasce;

quando parece que a força acabou,

uma nova força aparece.

No mergulho fundo na dor,

algo se cria.

Não precisa ser amargura,

nem rancor,

nem mágoas eternas.

 

 

É bom deixar passar,

atravessar dores e lutas,

demolir e reconstruir.

Sofrimento eterno

não é destino de ninguém.

 

Saber esperar, aguardar,

domar a pressa e os impulsos,

suportar privações e provações.

E ter fé.

Mesmo de cabeça para baixo,

na beira do abismo,

há saídas.

 

Mulher, cada qualidade

pode expandir-se

na harmonia e na distorção.

O poder

Não precisa se vestir de tirania;

a raiva

não precisa se pintar de violência.

Não maltrate,

não se deixe maltratar.

Nem por você mesma.

 

Mulher, que você se complemente,

com seus pares e parceiros,

que encontre as trocas

fora do domínio

da dominação e da submissão,

neutralizando e transcendendo

a inveja, a rixa,

a competição crua e cruel.

Companheira e cúmplice,

solidária, sem ser servil.

 

E, então, surge o equilíbrio

fluido, delicado e sutil,

porém forte e resistente.

É a maturidade, a sabedoria,

é a força da delicadeza

a firmeza da serenidade.

Na experiência acumulada,

a capacidade de ver mais longe,

mesmo quando os olhos já precisam de auxílio.

 

Mulher, o mundo é seu,

você é do mundo.

A vida é sua,

você é da Vida.

Celebrar a criação,

a eterna busca

de evolução,

com as mulheres irmanadas,

pelo mundo afora.

 

Que cada mulher encontre

dentro de si

A Mulher e O Homem

Para lutar por direitos iguais

respeitando as diferenças,

descobrindo o poder de combinar

suavidade e força,

levando paz, harmonia e beleza

na grande viagem da vida.

 

É preciso ser amiga do tempo,

para conquistar o espaço.

 

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Reconstruções, redefinições e novos significados

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No ciclo de cada dia, mudanças e redefinições acontecem. (Fotografei em Jericoacoara CE).

A conversa sobre esse tema com um grupo de amigos teve como ponto de partida comentários sobre o filme O quarto de Jack, que narra a história de uma mulher mantida em cativeiro, e que engravida de seu sequestrador. Precisa reconstruir e redefinir sua vida para cuidar do desenvolvimento do filho da melhor forma possível em circunstâncias tão terríveis. Quando, finalmente, consegue fugir com o menino, então com cinco anos, ambos precisam reconstruir, redefinir e dar novos significados à vida a partir do contato com o mundo fora do quarto. Tarefa que se revela mais difícil para a mãe do que para a criança, e que também envolve a reconstrução e a redefinição dos vínculos com a família extensa após sete anos de convívio interrompido.

Nos relacionamentos afetivos, perdas e separações também acarretam reconstruções e redefinições. Há casais que, diante do desemprego de um deles, redefine funções no cuidado da casa e dos filhos, além de reconfigurar o orçamento doméstico. Nos casos de divórcio e viuvez, a família passa pelo processo de reconstrução e redefinição da composição familiar. É preciso investir esforços para construir bons caminhos a partir dessas mudanças, em vez de gastar energia vital em queixas e lamentos que prolongam o sofrimento e nos afundam na imobilidade.

A vida nos apresenta uma diversidade de problemas e desafios a serem enfrentados. Casos de superação para encontrar novos rumos a partir de um acidente, como o que aconteceu com um jovem que sofreu amputação de suas pernas e conseguiu ser atleta. Um número crescente de refugiados de países em guerra, barrados nas fronteiras, deportados, buscando rotas alternativas que demandam semanas de caminhadas em regiões inóspitas, movidos pela esperança de redefinir suas vidas. Cidades e países devastados que precisam se reconstruir após guerras ou desastres climáticos.

É preciso cultivar a flexibilidade para fazer os ajustes necessários, para não enrijecer no lugar do qual acredita não poder sair, como aconteceu com um livreiro que, ao acumular prejuízos, teve de fechar sua livraria e, deprimido, afirmava não saber fazer outra coisa na vida, nem mesmo vender livros em praças. Milhares de pessoas que subitamente perdem seus empregos e não conseguem se recolocar na mesma área precisam redefinir caminhos de trabalho, como acontece com muitos taxistas e outros prestadores de serviços.

Fechar um ciclo, abrir outro: no decorrer da vida, muitos escolhem voluntariamente mudar de rumo, redefinir metas, encontrar novos significados. Uma amiga querida encerrou seu ciclo como psicoterapeuta e passou a criar orquídeas. Em viagens a santuários ecológicos, como a Chapada Diamantina e a Chapada dos Guimarães, conheci alguns donos de pousadas e restaurantes que eram executivos do mercado financeiro: escolheram viver fora do estresse dos grandes centros urbanos e da enorme pressão que seus cargos lhes impunham para viver em contextos que lhes propiciam maior tranquilidade e a possibilidade de viver melhor com menos dinheiro.

A criança e a morte

Com a morte de um ente querido, toda a família precisa fazer o trabalho de luto. (Detalhe da fachada da Igreja da Sagrada Família, que fotografei em Barcelona)

Com a morte de um ente querido, toda a família precisa fazer o trabalho de luto. (Detalhe da fachada da Igreja da Sagrada Família, que fotografei em Barcelona)

– Vovô virou estrelinha – disse Carolina ao comunicar a morte de seu pai para Bruno, seu filho de cinco anos.

– Estrelinha, mamãe?! Vovô morreu, foi para o cemitério e virou zumbi! – retrucou o menino, surpreendendo a mãe.

No trabalho com famílias, é frequente a questão de como abordar o tema da morte com crianças. Uma das perguntas habituais é se devemos “poupar” a criança de ir a velórios e enterros. Lembro-me da minha infância, em que os mortos eram velados nas casas, e as crianças se aproximavam do caixão, tocavam o cadáver com curiosidade e comentavam o que percebiam. E o que é “poupar” as crianças, que presenciam cenas horripilantes de mortes violentas nos noticiários, sem falar nas que vivem em comunidades onde predomina a linguagem da violência, que precisam aprender a se proteger dos tiroteios e se deparam com cadáveres ensanguentados nas ruas?

A morte faz parte da vida, mas falar sobre isso virou tabu. Conheço alguns pais que, preocupados com a morte de um bichinho de estimação, compraram outro “igualzinho” para colocar em casa, antes que o filho retornasse da escola, na esperança de que este não percebesse o que acontecera. Crianças não são bobas, e lidam com a realidade muito melhor do que alguns adultos, como mostrou Bruno para sua mãe.

Com crianças pequenas, podemos falar sobre o ciclo da vida mostrando as flores que desabrocham e depois completam seu tempo. E dizer que o mesmo acontece com os demais seres. Em algum momento, morrerá alguém da família, do círculo de amigos, ou até mesmo colegas de escola. As crianças maiores fazem perguntas difíceis de responder: “Se Deus é tão bom, por que levou minha mãe”? “Meu colega morreu no acidente. Eu também posso morrer”? “Mamãe, se você morrer, quem vai cuidar de mim”? “Eu também quero morrer para encontrar o papai no céu”!

Se a família segue uma religião, poderá rezar pela pessoa que morreu e explicar que nosso corpo é apenas uma embalagem temporária para um espírito que continua a existir. Se não há um referencial de espiritualidade, explicar que a pessoa continua viva em nosso amor e em nossas lembranças. É claro que isso não extingue a tristeza e a saudade pela falta da proximidade física. E vale lembrar que o mais importante é oferecer a escuta acolhedora dos sentimentos e das questões que surgem no decorrer do trabalho de luto que precisará ser feito por toda a família.

Os filhos crescem, os pais envelhecem!

Penso no ciclo vital quando observo o ciclo das estações. Fotografei esse anoitecer de inverno em Annecy, nos Alpes franceses,

Penso no ciclo vital quando observo o ciclo das estações. Fotografei esse anoitecer de inverno em Annecy, nos Alpes franceses.

No trabalho com um grupo de jovens adultos tratamos da importância da reciprocidade do cuidar, nessa fase do ciclo vital da família.

– Minha mãe está com 63 anos, e eu insisto para que ela faça exercícios físicos e se alimente bem.

– Eu moro com meu pai, que trabalha embarcado durante duas semanas e folga três. Quando ele chega, eu o deixo descansar e faço o que ele mais gosta de comer.

– Eu sinto que ele se preocupa por me deixar em casa sozinha, mas ao mesmo tempo, ele me vê como adulta, e conversamos de igual para igual.

Há pais que “congelam” seu olhar para os filhos, como se eles permanecessem crianças e há filhos que não se dão ao trabalho de batalhar por sua autonomia (inclusive financeira), criando a ilusão de que os pais são eternos. Porém, quando todos conseguem caminhar com serenidade pelo ciclo vital, conseguem aprofundar a relação de confiança, e sentir o acolhimento e a segurança de que podem contar uns com os outros, oferecendo apoio e cuidados recíprocos. O amor e o carinho se expressam por pequenos gestos e ações.

Por diversos motivos (inclusive econômicos), é comum que pais e filhos adultos morem juntos. Então, se a casa é de todos, todos precisam colaborar na partilha de tarefas e responsabilidades, para ninguém fique sobrecarregado. Desse modo, torna-se mais fácil cuidar bem de si mesmo e dos outros, percebendo as respectivas necessidades, para melhor enfrentar os desafios e as dificuldades que encontramos pelas trilhas da vida.

Quando pais e filhos adultos se norteiam pela pergunta “O que cada um de nós pode fazer de melhor para vivermos bem?” todos ganham em qualidade de vida e de relacionamento familiar.