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Desalento e esperança

 

 

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Mesmo passando por dificuldades e com problemas para enfrentar, vale apreciar a beleza brotando. (Fotografei em Maringá, RJ).

Ai Weiwei filmou Human Flow mostrando o drama de milhões de refugiados

Diz que “não existe lar se não há para onde ir”.

Mas nesse filme há imagens de um grupo unido em prece, na fé que alimenta a esperança

Que nasce do desespero e leva a uma busca de acolhimento em algum lugar do mundo

Deportações e desamor, mas também solidariedade e compaixão dos que atuam nas agências humanitárias.

Ameaças de guerra nuclear pairando no ar.

Mudanças climáticas – ainda há tempo de reverter o prognóstico ruim?

Novas tecnologias surgindo – para o bem ou para o mal

Redes de ódio proliferando na internet, acentuando intolerância

Rompendo vínculos de família e de amizades com os que pensam diferente

Mas na rede também compartilhamos conhecimentos, boas ideias e boas práticas

Criamos redes de solidariedade que melhoram as condições de vida de muitos

Para que lado vamos dirigir nosso olhar e nossas ações?

Sem negar problemas e dificuldades mas valorizando também

Os grandes pequenos momentos em que há encontro amoroso de olhares

Gestos de delicadeza, abraços fraternos, amor dedicado, cooperação.

A harmonia do voo dos pássaros, a vida renovada nas folhas das árvores, a flor que se abre, a fruta madura

O que nos diz tudo isso, que também faz parte do mundo?

Que tipo de contribuição estamos oferecendo?

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Humanos: burros e sábios

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O que esperar do atual cenário global? (Fotografei no Japão).

“Nunca se deve subestimar a burrice humana para fazer escolhas erradas. Assim como a violência, a burrice é uma força poderosa na História. Por outro lado, a sabedoria humana também é uma força poderosa na História” – esse comentário do historiador israelense Yuval Harari, autor de “Sapiens” e de “Homo Deus” me chamaram a atenção nos diálogos TED. Eu já havia lido os dois livros, que me deixaram muito inquieta. Essa conversa entre Harari e Chris Anderson também foi perturbadora.

A pergunta inicial foi: O que está acontecendo no planeta? Para onde vamos?

Harari responde que os humanos sempre precisam ter uma história na qual acreditar coletivamente. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que poderíamos viver em um mundo melhor mas, devido à enorme aceleração das mudanças, muitos elementos foram desmontados e ainda não temos uma história consistente para contar. Com isso, torna-se muito difícil entender em que mundo estamos vivendo ou prever como estará o planeta daqui a vinte ou trinta anos.

Ele cita dados surpreendentes: atualmente, morrem mais pessoas em consequência da obesidade do que de fome; é mais comum morrer de velhice do que de doenças infeccionas; há mais mortes por suicídio do que por assassinato. A divisão política entre esquerda e direita tornou-se menos significativa do que a divisão entre nacionalismo e globalismo.

Os grandes problemas tornaram-se globais e não podem ser resolvidos por países isolados. É preciso pensar novos modelos políticos, baseados em cooperação para construir regulações e soluções globais, como no caso do rápido desenvolvimento da inteligência artificial que provocará desemprego em massa e dos experimentos em engenharia genética. E também na questão do aquecimento global, que já exibe seus efeitos, como aponta Al Gore em seu novo filme “Uma verdade mais inconveniente”.

Harari prossegue dizendo que o que se ensina nas escolas hoje será totalmente irrelevante para o mercado de trabalho daqui a vinte ou trinta anos. A autoridade está progressivamente passando dos humanos para os algoritmos. O acúmulo de dados (“big data”) é tão fenomenal que muitas decisões importantes já estão sendo tomadas por algoritmos, que se tornaram mais eficientes na tomada de decisões.

Ora predomina a burrice, ora a sabedoria em nossas escolhas individuais e coletivas. Que vida construiremos nesse cenário de mudanças vertiginosas?

Para quem quiser se inquietar com uma hora de conversa sobre a impossibilidade de saber para onde vamos, siga o link:

https://www.ted.com/talks/yuval_noah_harari_nationalism_vs_globalism_the_new_political_divide?utm_campaign=tedspread–a&utm_medium=referral&utm_source=tedcomshare

A arte de viver com arte

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Contemplar obras de arte e também a arte da natureza é um exercício do olhar (Fotografei em um museu em NY).

Podemos fazer da nossa vida uma obra de arte – assim definiu uma participante do grupo de conversa sobre esse tema. Como “esculpimos”, “pintamos” ou “compomos” cada dia?

Como despertamos a cada manhã? Com um mau-humor tenebroso, reclamando por ter de enfrentar mais um dia do trabalho ou da escola que odiamos? Como mais uma sequência de rotinas entediantes? Como mais um dia igual aos outros, depois que nos aposentamos, sem construir novos projetos ou interesses?

Consideramos cada dia como mais uma oportunidade? Para isso, é preciso nutrir a curiosidade, que nos permite explorar novas possibilidades, criar coisas novas, desenvolver talentos até então inexplorados.

Podemos desenvolver a atenção plena, segundo os princípios de “Mindfulness “: exercitar o foco de atenção no aqui e agora, evitando estragar o dia com ansiedades em relação ao futuro ou lamentações e frustração com o que passou. O que, na verdade, temos para viver é o momento presente. Podemos exercitar nosso olhar para captar a beleza das pequenas coisas do cotidiano, da natureza ao nosso redor, e não apenas para contemplar obras de arte nos museus.

Com o que estamos contribuindo para a coletividade? Há muitos jovens que, desde o início de sua vida profissional, buscam uma vida com propósito, para sentir que podem colaborar para que tudo funcione melhor. No mundo complexo, instável e imprevisível no qual estamos vivendo, é importante que famílias e escolas consigam educar as crianças desde cedo para a cooperação, promovendo a ética e os valores que sedimentam a boa convivência.

Viver com arte é tecer conexões, incentivar a colaboração para o bem-estar coletivo, “bordar” cada dia com esmero, valorizando os detalhes, saboreando os bons momentos. É deixar florescer a sensibilidade, o afeto, a intuição, abrir outros canais da mente e dos sentimentos, perceber sutilezas e matizes, encontrar a poesia no cotidiano, “enfeitar” a rotina para que ela não se transforme em tédio e em “mais do mesmo”.

Riscos globais 2017 e a educação

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O fluxo da água das cachoeiras me faz lembrar da mutação incessante do mundo (Fotografei na Chapada das Mesas, MA).

A cada mês de janeiro, gosto de ler o relatório do Fórum Econômico Mundial sobre os riscos globais e pensar como famílias e escolas podem preparar crianças e adolescentes para viver nesse mundo. Em anos recentes, a ênfase tem sido na necessidade de fortalecer a resiliência para enfrentar as múltiplas transições que chegam com inúmeras incertezas. Este ano, a ênfase é na necessidade de fortalecer a cooperação.

Sobre as múltiplas e complexas transições o relatório destaca: a migração para uma economia de baixo carbono; a mudança tecnológica cada vez mais acelerada; o equilíbrio geopolítico, com a questão da desigualdade e da polarização da sociedade em termos étnicos, religiosos e culturais.

Para lidar com essas transições, é preciso pensar em investimentos a longo prazo e fortalecer a cooperação internacional. Até mesmo porque há áreas globais em comum (oceanos, qualidade do ar, mudanças climáticas) que causam impacto em todo o planeta. Por exemplo, a escassez de água ou eventos climáticos extremos ocasionam a migração involuntária de milhões de pessoas que vivem em áreas mais vulneráveis.

Embora as mudanças climáticas extremas estejam crescendo mais rapidamente do que as ações destinadas a mitiga-las, o relatório destaca o aumento significativo do uso de energias renováveis (cujo custo está se reduzindo) e do manejo sustentável de florestas.

A chamada Quarta Revolução Industrial está delineando enormes mudanças na maneira de trabalhar e de viver. Com o avanço acelerado da automação, da robótica e da inteligência artificial, muitos postos de trabalho estão desaparecendo, os estilos de trabalho estão mudando, assim como a proteção ao emprego, e a tendência crescente é o aumento do trabalho autônomo, temporário ou em tempo parcial.

Nesse cenário, nas famílias e nas escolas, é essencial estimular a cooperação e o trabalho em conjunto, propostas para pensar coletivamente soluções inovadoras para problemas em comum, o consumo consciente, a flexibilidade para se ajustar a grandes variações do orçamento doméstico e o desenvolvimento de múltiplos talentos e habilidades para poder atuar em diferentes áreas, que nem sempre estarão diretamente relacionadas com a formação acadêmica escolhida.

Para ler o resumo do relatório:

https://www.weforum.org/agenda/2017/01/global-risks-in-2017

Para ler o relatório completo:

http://www3.weforum.org/docs/GRR17_Report_web.pdf

Entendimento global

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Seres diferentes convivendo no mesmo espaço. (Fotografei na Barreira de Coral, Austrália).

A UNESCO e sua rede de escolas associadas (PEA-UNESCO) elegeram 2016 o Ano Internacional do Entendimento Global. É um convite para “refletir a partir de uma perspectiva mundial e intervir no plano local”, com foco na sustentabilidade do planeta. Isso inclui, entre outras coisas, a revisão e a mudança de hábitos nocivos para o meio ambiente, a responsabilidade individual e coletiva das ações cotidianas, assim como a colaboração de profissionais de várias áreas para criar melhores práticas para garantir o desenvolvimento sustentável, para que todos possam viver melhor em um mundo cada vez mais globalizado.

No final de 2015, a Conferência do Clima, em Paris (COP 21), chegou a um acordo entre 195 países para assumir compromissos de redução expressiva de emissões de gases do efeito estufa para que o aumento da temperatura média do planeta não ultrapasse 1,5°C. Embora seja a primeira vez que se alcança um entendimento global sobre a necessidade de mitigar os efeitos das mudanças climáticas, muitos criticaram a indefinição de metas mais concretas para que a necessária redução seja alcançada.

O Papa Francisco, na Encíclica Laudato Sí (2015) nos exorta a falar a língua da fraternidade e a desenvolver a percepção de nossa conexão com tudo o que existe para unir a família humana na busca do desenvolvimento sustentável e integral, colaborando na construção da nossa casa comum e evitando o perigo da globalização da indiferença. Há uma profunda crise socioambiental, a exigir uma abordagem integrada que, simultaneamente, combata a pobreza e cuide da natureza.

O que predominará? A visão de curto prazo devido à ganância para manter os lucros garantidos pelo petróleo e outras fontes poluentes? A forte resistência para mudar os fundamentos econômicos e ousar fazer mudanças radicais no conceito de “desenvolvimento e progresso” para mudar substancialmente o estilo de vida? A imensa sede de poder e dominação que obstrui a visão de que é necessário cuidar melhor da família humana e da casa planetária? Ou a gradual compreensão de que precisamos mudar a maneira de lidar com o dinheiro? A consciência de que estamos todos no mesmo barco e precisamos cuidar melhor de tudo e todos? A percepção mais aguçada da delicada e complexa teia da vida, que inclui todos os ecossistemas e a biodiversidade?

A esperança maior está na expansão do protagonismo juvenil. Jovens líderes globais, ousados e empreendedores, apresentam propostas para governos, empresas e outras organizações para que busquem soluções inovadoras para problemas globais, no sentido de construir sociedades onde seja possível viver com paz e prosperidade. Em nosso mundo interdependente, é missão de todos nós colaborar para educar as novas gerações que estão chegando ao planeta para desenvolver as competências necessárias para alcançar a meta do entendimento global.

http://www.global-understanding.info/pt/

https://laudatosi.com/watch

http://www.engajamundo.org/o-engajamundo/

http://www.weforum.org/community/forum-young-global-leaders

Vovó, posso ajudar?

É preciso a colaboração de muita gente para uma obra de arte como essa ser apreciada por milhões de pessoas. ( Fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY).

É preciso a colaboração de muita gente para uma obra de arte como essa ser apreciada por milhões de pessoas. ( Fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY).

Maurício, 4 anos, fez essa pergunta ao ver a avó começar a recolher os pratos da mesa, após o almoço de domingo.

Se a casa é de todos, todos colaboram. Essa participação pode começar quando a criança é pequena, para construir desde cedo a noção do valor da cooperação na “equipe de família”. O desenvolvimento da solidariedade segue pelo mesmo caminho, inclusive na relação entre irmãos.

Assim que saiu da maternidade com o recém-nascido, Ana Lúcia começou a pedir a Pedro, de 3 anos, para ajudá-la a cuidar do irmãozinho, estimulando-o a fazer pequenas tarefas que estavam ao seu alcance. Isso ajuda a “digerir” o ciúme, integrando todos no circuito familiar, para atenuar o sentimento de ser excluído ou preterido.

Criar tempo de convívio em família propondo atividades que envolvem a participação de todos é um convite para desenvolver a colaboração e boas conversas, por exemplo, na cozinha em que todos preparam uma refeição no final da semana.

Conhecer e, se possível, colaborar com algumas tarefas no ambiente de trabalho dos pais pode ser uma boa experiência no fortalecimento da colaboração. Eu tenho boas lembranças de atender pessoas no balcão da padaria que meu pai gerenciava quando eu era criança (nada a ver com exploração de trabalho infantil)! Luiz, pai de meninos de 10 e 12 anos, começou a levá-los uma vez por semana para o restaurante em que trabalha, com o propósito de fazê-los observar a importância de uma equipe que atua em colaboração para que os clientes sejam bem atendidos.

A colaboração é essencial para o bom convívio na família, na escola e no trabalho. E também para a vida em comunidade. No entanto, muitos adultos não percebem a importância da colaboração individual para o bem-estar coletivo. Presenciei uma cena em que uma senhora, elegantemente vestida, jogou lixo na calçada. Uma moça que passava a seu lado, apontou para uma lixeira próxima. Indignada, a senhora contestou:

– Os garis são pagos para limpar as ruas!

Conheço muitos adolescentes e jovens adultos extremamente conscientes de seus direitos e muito tranquilos com sua total falta de colaboração. “Meu pai paga a empregada, então é ela quem tem de recolher a roupa que eu deixo espalhada pela casa e esquentar a comida quando eu chego da faculdade” – afirma Mateus, achando muito natural que todas essas mordomias lhe sejam oferecidas. Na época em que eu trabalhava como voluntária coordenando grupos de mulheres em comunidades, muitas diziam que nem os filhos nem os companheiros participavam das tarefas domésticas. Uma delas desabafou:

– Chego do trabalho exausta, e ainda tenho que fazer comida e cuidar da roupa de todos eles. Minha filha, de vinte anos, não lava nem as próprias calcinhas!

O cérebro (e a vida) dos adolescentes

 

Coral cérebro, que fotografei ao mergulhar em Abrolhos

Coral cérebro, que fotografei ao mergulhar em Abrolhos

Dizer que os adolescentes são “aborrescentes” é limitar nossa visão a respeito dessa fase do desenvolvimento que abre novos horizontes de descobertas, experimentação, criatividade, ousadia. Essa visão preconceituosa dos adolescentes como pessoas complicadas, incomodamente questionadoras que adoram tumultuar a ordem estabelecida nos impede de estabelecer com eles uma relação de entendimento e aprendizagem recíproca, aprofundando o abismo do “conflito de gerações”.

Dan Siegel, um psiquiatra americano que trabalha com a neurobiologia dos relacionamentos, diz que nosso cérebro é um órgão social. Nascemos para nos vincularmos com os outros, e a qualidade dos vínculos que construímos no decorrer da vida influencia nossa arquitetura cerebral. Em seu livro sobre as mudanças do cérebro na adolescência, mostra que o desenvolvimento do córtex pré-frontal conecta o córtex com o sistema límbico e com o tronco cerebral. Tem função integradora, que promove a saúde emocional.

No adolescente, essa função da integração é o principal marco do desenvolvimento cerebral. Com a integração, atingimos um novo patamar de desenvolvimento. Por isso, o córtex pré-frontal (que alguns autores definem como “gerente geral do cérebro”) é tão importante. Remodela o cérebro para continuar o desenvolvimento até a juventude. Quanto mais integrado o cérebro, maior a harmonia e a resiliência da pessoa.

No entanto, na adolescência, é frequente a exposição a riscos, que aumenta a propensão a acidentes. As taxas de homicídio e suicídio também são significativas nessa faixa etária. Apesar do desenvolvimento gradual do córtex pré-frontal, o sistema límbico é mais influente: torna-se difícil controlar as emoções. Boa parte dos adolescentes reage a comentários neutros como se fossem hostis, agem de modo impulsivo e explosivo. Por outro lado, os adolescentes se apaixonam por pessoas e ideias, intensificam o engajamento social. É grande a influência do grupo de amigos para desafiar os riscos e também para colaborar.

Nessa fase da vida, o cérebro é motivado por novidades, devido às mudanças no sistema da dopamina. Os adolescentes facilmente se entediam, anseiam por novas experiências, testam os próprios limites e, por isso, correm riscos, apesar de serem bem informados. Acham que vai dar tudo certo: o perigo é para os outros, não para eles próprios.

Quando famílias e educadores conseguem ver a adolescência como uma época fantástica de desenvolvimento, descobrem caminhos de conversa reflexiva e transformam situações de conflito em possibilidades de aprofundar a conexão, o entendimento recíproco e a colaboração.

Referência: Dan Siegel, The power and purpose of the teenage brain, ed. Tarcher,NY, 2013.