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Risos e sorrisos

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Gosto das minhas rugas de sorrisos!

“Rir é o melhor remédio”, diz a sabedoria popular. Rir e sorrir com legítima vontade, e não somente como convenção social, está associado à alegria, contentamento, momentos felizes. E a construção da felicidade serena depende, fundamentalmente, de formar relacionamentos de boa qualidade com os outros e conosco mesmos.

Risos e sorrisos contribuem para fortalecer nosso sistema imunológico e reduzir tensões. Liberam hormônios como dopamina e serotonina, que transmitem sensação de bem-estar e felicidade.

Sorrir para realmente desejar “bom dia” para as pessoas da família e colegas de trabalho, sorrir ao fazer um ato de gentileza com desconhecidos, para genuinamente agradecer o que recebemos. Como o bocejo, risos e sorrisos são contagiantes e, com isso, podemos dar o ponto de partida para cria um clima amigável em nossas interações. E estimular, para quem oferecemos um sorriso, a ação dos “neurônios-espelho”, a base neurofisiológica da empatia.

Sorrir, olhar, abraçar as pessoas que amamos nutre a relação no dia a dia do convívio. Quando o bebê ri e sorri desperta alegria e ternura. Sorrir para o bebê transmite amor e acolhimento. É a riqueza da comunicação não-verbal. Rir juntos compartilhando lembranças passadas, uma piada recente, um vídeo engraçado dá leveza mesmo em dias com momentos difíceis.

Transformar drama em comédia: com amizades duradouras muitas vezes revisitamos episódios passados que nos trouxeram sofrimento e conseguimos até achar graça de tudo aquilo. “ Chorei tanto quando ele terminou o casamento, e agora vejo que minha vida está muito melhor sem ele. Como é que um dia eu fui me apaixonar por aquele cara?”

Rir de si mesmo é um ótimo recurso para desenvolver a percepção de nossa humanidade, acolher com carinho nossos erros, fracassos e escolhas ruins que pareciam boas. Isso é parte importante de aprender a viver, desenvolver novas habilidades e fazer escolhas melhores. Mas quantas pessoas se atacam com críticas impiedosas, depreciando a si mesmas?

Por outro lado, rir dos outros machuca, agride, humilha. As crianças costumam ser particularmente sensíveis a isso: “Você está rindo de mim!”-  lamentam, sentindo-se magoadas. É muito diferente de rir com os outros, até mesmo dos respectivos erros e mal-entendidos da comunicação.

Risos e sorrisos: podemos usar esse remédio à vontade. Não há contraindicações!

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Construindo a própria vida

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A conversa com Amarildo, que fotografei em Igatu (BA), revelou uma trajetória de vida muito peculiar.

Como psicoterapeuta, sempre me fascinei acompanhando trajetórias de vida. Como construímos nossas vidas a partir de nossas escolhas e de como reagimos ao inesperado, ao imprevisível? O que fazemos com o que fazem conosco? Abandonamos um sonho ou um projeto por conta do medo de não dar certo? Em que extensão lamentamos nossos erros em vez de aprender com eles?

Ao entrevistar pessoas de várias cidades brasileiras para minha pesquisa sobre construção da felicidade e do bem-estar, tenho encontrado trajetórias de vida muito peculiares. A conversa com Amarildo, 52 anos, foi marcante. Ele mora em Igatu (BA), que, no dia em que o entrevistei, tinha 381 habitantes, mas, naquela noite, provavelmente nasceria o próximo morador. Há 21 anos, ele escreve (à mão, não gosta de computador nem de celular) sobre os acontecimentos do dia a dia dessa comunidade e, dessa forma, registra a história da cidade e de sua gente. Sabe quem nasce, quem morre, quem chega, quem sai, quem se casa, quem se separa.

Filho de um garimpeiro e de uma dona de casa, tem dez irmãos. Lutou contra a timidez para conseguir ser professor. Mora com a esposa e uma filha, e montou uma pequena loja em sua própria casa, em cuja porta está escrito “Entre e compre alguma coisa”. Faz questão de andar sempre bem arrumado para inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo. Metódico e perfeccionista, confecciona à mão relatos sobre sua vida, inclusive como fã ardoroso de Xuxa e de Roberto Carlos, e os vende para os interessados. Diz que é feliz porque faz o que gosta.

Cada escolha que fazemos e cada maneira de reagir ao que a vida nos apresenta define uma parte de nossa trajetória e exclui muitas outras possibilidades. Acho útil, de tempos em tempos, fazer uma reflexão sobre a trajetória que estou construindo. Onde quero chegar? O que ainda faz sentido e do que preciso abrir mão? O que realmente importa nessa etapa de vida em que me encontro? De que outras formas posso olhar para o meu passado e descobrir novos significados? São perguntas que estimulam a reflexão e aprofundam o autoconhecimento.

Escolhas pouco convencionais

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Escolhas ousadas me revelaram novos horizontes. (Fotografei em Cayman).

Em 2016, completo 45 anos de trabalho como psicóloga. Meu caminho tem sido marcado por escolhas pouco convencionais, desde o momento em que decidi estudar Psicologia.

Fiz essa escolha quando, com 14 anos, li um livro sobre psicologia da adolescência. A profissão acabava de ser regulamentada no Brasil. Meus pais acharam essa escolha bem estranha, gostariam que eu estudasse Medicina.

Assim que terminei a graduação na PUC-RIO, comecei a dar aulas, atender em consultório e cursar o Mestrado em Psicologia, também na PUC-RIO. A grande maioria dos projetos de tese era sobre psicanálise. Escolhi pesquisar sobre psicologia da gravidez e abordar a importância da prevenção. Não havia bibliografia disponível no Brasil e nem professores para me orientar nesse tema. Como surgiu a oportunidade de passar alguns meses nos Estados Unidos, passei dias inteiros na biblioteca da Universidade de Harvard. Voltei para o Brasil com uma mala cheia de livros e de fotocópias de artigos em revistas especializadas. Ainda não havia internet…

Comecei a trabalhar com grupos de gestantes em consultório e em hospitais públicos, e a fazer grupos de reflexão sobre a tarefa assistencial com profissionais de saúde, com uma abordagem pioneira.

Psicologia da gravidez foi meu primeiro livro, voltado para estudantes e profissionais da área da saúde, bem acolhido até hoje, em suas várias atualizações. Fico feliz por saber que esse trabalho inspirou muita gente a atuar com as “famílias grávidas”!

Como gosto de abrir caminhos e de aprender coisas novas, continuei ousando no trabalho com casais e famílias, e publiquei muitos livros sobre relacionamento familiar e desenvolvimento pessoal. E, então, por volta dos 40 anos, veio o desejo de escrever ficção para adolescentes, criando histórias que abordavam diferentes vertentes da construção da paz.

A transição da escrita de não ficção para a ficção não foi fácil, mas se revelou muito prazerosa. Os sambas dos corações partidos é o sexto livro dessa série, e, com isso atingi a marca de 40 livros publicados. Pretendo escrever muitos outros!

A transição para a ficção (que não me impediu de continuar escrevendo livros de não-ficção) ocorreu no mesmo período em que ampliei meu trabalho como palestrante e, para isso, me aprofundei no campo das artes, com cursos de teatro e continuidade do estudo de música. Essa liberdade criativa inspirou outras escolhas pouco convencionais: compor músicas para minhas palestras e lançar o primeiro livro-show do mercado editorial brasileiro (Nas trilhas da vida, em parceria com o músico Itiberê Zwarg).

Escolhas ousadas e pouco convencionais em outras áreas da vida também envolveram riscos, mas sempre me inspiraram muito entusiasmo e força para enfrentar os desafios de sair das “zonas de conforto” e descortinar novos horizontes!

 

 

Prisão de segurança máxima

O medo da liberdade limita nosso espaço vital e nos impede de trilhar muitos caminhos. (Fotografei em Inhotim, MG)

O medo da liberdade limita nosso espaço vital e nos impede de trilhar muitos caminhos. (Fotografei em Inhotim, MG)

A personagem Pari, do livro O silêncio das montanhas” de Khaled Hosseini, cuidou da mãe doente e, tempos depois, passou a cuidar do pai que também adoeceu gravemente. Para isso, renunciou a entrar na universidade e recusou um pedido de casamento. A perspectiva da morte iminente do pai a deixa desnorteada. Como será sua vida, cuidando somente de si mesma? Diz: “Tenho medo de ser livre, apesar do meu grande desejo”. Com relação ao homem pelo qual se sentia atraída, confessa: “Entrei em pânico, enfim, e corri de volta para os recantos, as fendas e as reentrâncias da vida em minha casa”.

A liberdade para escolher como viver assusta muitas pessoas, que acabam cortando as próprias asas, o que impede voos mais ousados. Diante das escolhas possíveis, aciona o comando interno (“Não posso fazer isso”; “O que os outros vão pensar”?) que produz inúmeros argumentos para justificar infindáveis limitações.

Duas mulheres, na faixa dos 60 anos, conversavam sobre uma amiga em comum: “Tem tempo disponível e dinheiro suficiente para viajar pelo mundo, fazer o que quiser, e praticamente não sai de casa. Ah, se eu tivesse a metade do que ela tem”…

Há quem crie uma ilusão de segurança confinando-se em relacionamentos insatisfatórios, em empregos  frustrantes e em rotinas extenuantes. Alguns até acreditam que não há outras escolhas possíveis, a não ser permanecer nessa prisão que tolhe até a percepção de maiores perspectivas. “Essa é a minha vida, tenho que me conformar com isso”; “Agora é tarde demais para fazer grandes mudanças”; ” A gente vai levando, né”? – são frases que revelam o espaço apertado dessa prisão de segurança máxima construída no decorrer do tempo.

Para essas pessoas, a liberdade de optar por alternativas possíveis e correr o risco de mudar de rota traz uma angústia tão avassaladora que é preferível o desconforto resignado de acreditar que não há saída.

Mas, ocasionalmente, o desejo e a tentação de mudar rompe a barreira do medo ou, então, a própria vida nos dá uma chacoalhada e nos tira da zona de (des)conforto. E, aí, descobrimos que sair da prisão de segurança máxima nos dá mais oportunidades de desfrutar a alegria de viver, apesar dos riscos e das incertezas desse mundo.

Conquistando a liberdade

O medo da mudança e os preconceitos internalizados atrapalham a conquista da liberdade.

O medo da mudança e os preconceitos internalizados atrapalham a conquista da liberdade.

Liberdade não é fazer tudo o que a gente quer e bem entende. Isso é ser prisioneiro dos próprios desejos.

Conquistar a liberdade é saber que caminhamos entre escolhas e renúncias. Avaliar riscos e consequências das nossas escolhas. Pensar alternativas quando não acontece o que gostaríamos. Cultivar a paciência e a persistência para não esmorecer diante dos obstáculos que se apresentam para concretizar nossos sonhos e alcançar nossas metas.

Quando a criancinha supera a dificuldade de dar os primeiros passos sem apoio, vive a alegria de ser livre para se locomover por conta própria. Mas também encontra limites e barreiras que a impedem de explorar todo o território.

O adolescente que, revoltado, diz “Não tenho que dar satisfações a ninguém” não entende a diferença entre “dar satisfações” e “dar notícias” para os que ainda precisam cuidar dele, na medida em que está em curso o processo de aprender a cuidar bem de si mesmo para exercer liberdade com responsabilidade.

Uma jovem de 18 anos me confidenciou que se sentia constrangida por ainda ser virgem. Todas as amigas já transavam, e ela sentia que ainda não havia chegado o momento. A liberdade de escolha, inclusive para esperar construir um relacionamento amoroso significativo, entra em conflito com um padrão de “liberdade sexual” que nem sempre é tão livre assim, principalmente quando vem acompanhada pela repressão do afeto ou pela pressão de “seguir o grupo”.

Uma mulher de 67 anos revela que passou décadas muito ocupada com o trabalho e a família, sonhando em ter tempo livre para se dedicar aos seus interesses particulares. Aposentada, viúva e com filhos adultos, sente-se perdida sem saber o que fazer com tanta liberdade.

Muitas vezes, colocamos barreiras internas que limitam nossa liberdade: o medo da crítica e da rejeição, preconceitos que internalizamos sem perceber (“ele é um cara legal, mas não consigo namorar um homem mais baixo do que eu”…), medo de sair da “zona de conforto” para ousar escolher outros rumos.

É muito bom conquistar a liberdade para viver de acordo com nossa verdadeira essência. Algumas dessas escolhas nos afastarão dos caminhos convencionais. Talvez falte coragem para tanta ousadia. E nem sempre percebemos claramente que estamos cortando nossas próprias asas, limitando a liberdade de voar.

No emaranhado da indecisão

Senti um profundo bem-estar seguindo o fluxo do rio em Bonito (MS), contemplando os peixes e a vegetação aquática.

Senti um profundo bem-estar seguindo o fluxo do rio em Bonito (MS), contemplando os peixes e a vegetação aquática.

No decorrer da vida, encaramos algumas encruzilhadas, em que nossas escolhas definirão o rumo que nossa vida tomará. Dar prosseguimento a um curso universitário que não está preenchendo as expectativas ou “seguir o coração” e trabalhar em outra área, que oferece menor rendimento financeiro porém maior realização pessoal? Permanecer agarrado a um casamento deteriorado para não sair da casa que construiu com tanto esforço?

A vida flui, como a água de um rio. Mas, muitas pessoas se paralisam na indecisão: vivem infelizes em casamentos destroçados, em um emprego que as adoecem, morando em uma cidade que detestam. A insatisfação e a angústia se expressam em incessantes lamentos e reclamações. Talvez passem o resto da vida aprisionadas na indecisão, dominadas pelo medo de que tudo ficará pior se ousarem escolher um novo rumo.

Relações extraconjugais podem oferecer uma ilusão de mobilidade, para atenuar a angústia da indecisão. “Minha amante está me pressionando para eu deixar minha mulher. Meu casamento realmente está péssimo, mas eu não consigo sair. Enquanto isso, tento administrar as duas”.

A indecisão é alimentada pelo medo da perda e pela insegurança. Cada escolha envolve renúncias. Viver “em cima do muro” cria a ilusão de que é possível usufruir de ambas as situações. Mesmo sem conseguir estar por inteiro em nenhuma.

Por outro lado, há pessoas que tomam decisões impulsivas e se jogam em situações novas sem ponderar cuidadosamente os prós e os contras dessa escolha. “Meu filho está começando o terceiro curso universitário. Ainda não conseguiu concluir nenhum: quando está perto do meio do caminho, diz que não é isso o que ele quer e passa para outro”. E o mesmo pode acontecer com o trabalho ou com as relações amorosas.

E há os que preferem criar todas as condições para que o outro decida romper o vínculo. Se o outro passa a ser o responsável pela decisão, fico protegido contra a dor do arrependimento: “Eu não me separaria nunca, mas ela resolveu me abandonar”. “Não sei por que fui novamente demitido”. Sem coragem de sair, acaba sendo mandado embora.

É complexo o equilíbrio entre a coragem e a cautela, entre a necessidade de correr riscos e a busca de estabilidade, entre a ousadia de inovar e a necessidade de consolidar o que já foi conquistado.

A prisão da mágoa

Uma obra de arte que fotografei em Inhotim(MG), que me fez pensar nos emaranhados de alguns relacionamentos...

Uma obra de arte que fotografei em Inhotim(MG), que me fez pensar nos emaranhados de alguns relacionamentos…

O que fazemos com o que fazem conosco?

Temos múltiplas escolhas de caminhos a seguir.

Em muitas ocasiões, nos sentimos decepcionados e magoados por amigos, filhos, parceiros amorosos, colegas de trabalho. E também decepcionamos e magoamos muitas pessoas no decorrer da vida. Até mesmo sem perceber ou sem ter intenções explícitas de ofender quem quer que seja.

Fred e Marisa frequentavam o mesmo grupo de amigos. Há quatro anos, ela foi demitida. Sem reserva financeira e com a família morando em outra cidade, Marisa pediu a Fred que a acolhesse em seu apartamento até que conseguisse um novo emprego. Apesar de gostar da liberdade de morar sozinho, ele aceitou o pedido da amiga, e se sentiu constrangido para combinar com ela algumas regras básicas de convivência.

Agradecida, Marisa colaborou com as tarefas da casa nas primeiras semanas. Depois, passou a se queixar de cansaço e desgaste pelas tentativas frustradas de se recolocar no mercado de trabalho, deixando a organização da casa por conta de Fred. Dez meses depois: nenhuma oferta de emprego a agradou, e Fred não aguentava mais aquela situação. No limite, disse que não poderia mais mantê-la como hóspede.

Furiosa, Marisa disse que ele era egoísta e mesquinho. Enraivecido, Fred rebateu dizendo que ela era ingrata e insensível. A amizade foi rompida, e ambos guardam mágoas desde então.

Como contribuímos para criar em conjunto uma situação potencialmente difícil? Pedimos aos amigos algo além do que eles podem oferecer? Temos dificuldade de dizer “não” a alguns pedidos, por medo de perder o relacionamento? Criamos altas expectativas e nos decepcionamos quando as pessoas não fazem o que esperávamos? Apresentamos uma imagem ideal de nós mesmos, escondendo a humanidade de nossos limites e imperfeições?

Há ocasiões em que nos aprisionamos na mágoa crônica e cultivamos amargura, ressentimento, desejo de vingança ou tristeza infinita. Isso nos intoxica e nos adoece. Se não foi possível evitar que o outro nos magoasse, convém lembrar que temos a liberdade de não deixar que essa dor ocupe tanto espaço em nosso coração. Podemos decidir não generalizar a decepção (“ ninguém merece minha confiança!”) e, com isso, evitar o risco de fechar muitos caminhos de vida. Os sentimentos se transformam e se encadeiam uns nos outros. Se o que alguém fez (ou deixou de fazer) nos trouxe sofrimento, cabe a nós não permitir que essa dor se eternize e nos condene à prisão perpétua da mágoa.