Arquivo da tag: expectativas

Você vive na prisão das expectativas?

sky-1875450__340

“Percebi que vivi muito tempo da minha vida tentando preencher as expectativas dos outros. Consegui aprender a dizer Não e isso é libertador!”; “Como descobrir se uma expectativa é genuína ou imposta pela sociedade?”

Foram muitas perguntas e comentários sobre o que fazer com nossas expectativas, na Live que fiz com Josie Conti. O autoconhecimento, um processo que jamais termina porque somos todos uma “obra em progresso”, é a chave para conseguir diferenciar entre o que é nosso legítimo desejo (de ter ou não ter filhos, de escolher uma determinada profissão, de casar ou continuar na solteirice) e a “obrigação” de preencher expectativas dos outros (pais, amigos, a própria sociedade).

As expectativas impostas são um fardo pesado. Quando nos submetemos a elas tentando agradar os outros para sermos amados e reconhecidos não conseguimos nos sentir felizes, porque estamos traindo a nós mesmos. Por exemplo, quantas mulheres legitimamente não desejam ter filhos mas acabam engravidando porque são pressionadas pela crença de que a mulher só se realiza pela maternidade, pelo desejo do companheiro ou de sua própria mãe que quer ser avó?  Quantos jovens entram na universidade para preencher expectativas da família para que escolham uma determinada profissão que não corresponde ao seu legítimo desejo?

“Vivi 25 anos com o pai dos meus filhos, mas não me sentia feliz, estávamos juntos por causa das crianças, até que não aguentei mais e me separei”. Não é fácil romper essas amarras e gritar (sobretudo para si própria) “Não é isso o que eu quero”! A expectativa familiar/social de que o casamento deve durar “até que a morte vos separe”, a crença de que filhos de pais separados ficam traumatizados ou a ameaça de que é “ruim com ele, pior sem ele” dificultam um exame mais aprofundado da relação para chegar à conclusão de que está no fim do ciclo e que o melhor a fazer é se separar, para cada um seguir seu caminho, dissolvendo a relação conjugal e cuidando o melhor possível da relação parental.

É libertador desprender-se dessas expectativas para escolher o que realmente faz sentido para nós, mesmo que seja completamente fora do convencional.

“Estou há trinta anos em um relacionamento e é um ideal frustrado”; “Esperamos de uma pessoa algo que ela não pode nos dar”; “Paixão é tentar materializar em alguém nossas fantasias e depois descobrir que não era nada daquilo”; ”Esperamos o que jamais existiu”.  O que acontece é que às vezes nos aprisionamos tanto em nossas próprias expectativas que sobra pouco espaço para descobrir coisas boas e reais na outra pessoa. Para passar da paixão ou de um ideal fantasiado para o amor é preciso descobrir e gostar das semelhanças e das diferenças, da complementariedade que desenvolve o respeito e a aceitação das características de cada um.

“Sempre tendemos a colocar a felicidade em um ponto futuro”. Ao criar a expectativa intensa de alcançar o que ainda não temos,  não prestamos a devida atenção ao presente do presente, que é o que realmente temos. A felicidade está nos pequenos milagres do cotidiano, na capacidade de saborear os bons momentos e de cultivar a gratidão por tudo que chega até nós, inclusive os problemas, que nos permitem criar recursos para enfrentá-los.

Anúncios

“Minha amiga me decepcionou”!

Nos relacionamentos, nem tudo são flores. A decepção e a frustração surgem quando criamos expectativas altas demais (Fotografei em Araxá, MG).

Nos relacionamentos, nem tudo são flores. A decepção e a frustração surgem quando criamos expectativas altas demais (Fotografei em Araxá, MG).

Todos nós temos aspectos luminosos e sombrios, possibilidades e limites em cada relacionamento. A decepção pode surgir a partir de uma traição (“Minha melhor amiga seduziu meu namorado”!), da quebra de confiança (“Contei um segredo muito íntimo e ela espalhou para toda a turma, morri de vergonha e de raiva daquela fofoqueira”!), da mudança de papéis (“Meu amigo passou a ser meu chefe e se mostrou grosseiro como eu nunca o tinha visto”) ou da quebra de expectativa (“Quando eu fiquei na pior e precisava de apoio, ela simplesmente desapareceu”).

Porém, a decepção também surge a partir de expectativas irreais que criamos e que a pessoa não tem condições de preencher. Nem sempre seremos acolhidos, ouvidos e compreendidos como gostaríamos. Nem sempre os outros (amigos, companheiros, pessoas da família) estão disponíveis quando precisamos expor problemas e desabafar mágoas. E, então, quando nossas expectativas não são preenchidas, nos decepcionamos. Principalmente quando só prestamos atenção ao que não recebemos e nem percebemos o que está sendo oferecido dentro dos limites e possibilidades de cada um.

Outra fonte de decepção é esperar que os outros façam por nós o que fazemos por eles. Pessoas muito solícitas, sempre prontas para alterar suas prioridades e atender às demandas de quem precisa de carinho e atenção nem sempre receberão o mesmo quando estiverem em situações difíceis.

No terreno amoroso, a paixão altera nossa percepção. As qualidades da pessoa amada são realçadas (ou só existem em nossa imaginação) e as dificuldades são minimizadas ou nem sequer percebidas. É terreno fértil para criar expectativas que não poderão ser preenchidas e resultarão em decepção e frustração, quando a realidade do convívio superar a ilusão (“Meus amigos tentaram me alertar, mas eu estava cego de paixão”). Carências derivadas de relacionamentos anteriores também contribuem para criar altas expectativas (“Eu esperava que ele fosse marido, pai, irmão, amigo, enfim, tudo para mim”) que nenhum ser humano poderá satisfazer.

Nada dá certo em minha vida!

É preciso paciência, persistência e preparo para realizar uma obra como essa, que fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY.

É preciso paciência, persistência e preparo para realizar uma obra como essa, que fotografei no Rubin Museum of Arts, em NY.

– Infelizmente, meu casamento não deu certo… Acabamos de nos separar, depois de sete anos juntos – lamenta Adriana, com a voz embargada.

O que deu certo, no decorrer desses sete anos? Passaram um tempo apaixonados, decidiram viver juntos, compartilharam planos, realizaram alguns sonhos? E então foram se distanciando, seja no calor das brigas ou no frio da indiferença e o desamor foi se instalando?

O que dói muito na separação são as lembranças do que houve de bom no relacionamento. Isso intensifica a sensação da perda. Admitir que esse casamento deu certo por algum tempo é acolher a dor dessas lembranças e perceber que um ciclo se fechou. E prosseguir na caminhada, se possível agradecendo a oportunidade de ter passado por essa experiência, incluindo o sofrimento que tem tanto a nos ensinar.

“Nada dá certo em minha vida” muitas vezes reflete expectativas tão grandiosas que a realidade fica sempre aquém do esperado. Quais são as falhas mais frequentes? Planejamento “pé no chão”, boas práticas de gestão, um plano de negócios bem arquitetado, quando se trata de abrir uma empresa ou de apresentar uma oferta de serviços. O alto índice de microempresas que abrem e fecham em torno de um ano de vida não expressa apenas dificuldades do cenário econômico, da burocracia infernal e da excessiva carga de impostos. Não adianta culpar a vida ou os outros. A melhor fonte de aprendizagem é a pergunta: “O que fiz, ou deixei de fazer, para que isso acontecesse”?

“Não dou certo para”… jogar futebol, aprender matemática, cozinhar, e outras tantas habilidades e competências não significa apenas admitir que não temos talento para tudo. Pode revelar nossa dificuldade de ter paciência com os inevitáveis erros e acertos do caminho da aprendizagem, de cultivar a persistência para vencer os obstáculos. Os projetos que “dão certo” incluem ideias ineficientes, tentativas frustradas, reformulações de propostas iniciais e muita determinação para não desistir de alcançar a meta.

Em muitos casos, o “nada dá certo” revela a autossabotagem, a incrível capacidade de “dar uma rasteira em nós mesmos”, muitas vezes sem sequer percebermos conscientemente o que estamos fazendo para minar o que dizemos que desejamos.

Ao olhar para trás e avaliar a própria trajetória, muitas pessoas sentem que o saldo é negativo. Até que ponto isso reflete uma avaliação pertinente, de ter deixado de aproveitar inúmeras oportunidades? Ou até onde isso revela a tendência de ver com lente de aumento o que não deu certo, desvalorizando as próprias competências e realizações?