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Você vive na prisão das expectativas?

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“Percebi que vivi muito tempo da minha vida tentando preencher as expectativas dos outros. Consegui aprender a dizer Não e isso é libertador!”; “Como descobrir se uma expectativa é genuína ou imposta pela sociedade?”

Foram muitas perguntas e comentários sobre o que fazer com nossas expectativas, na Live que fiz com Josie Conti. O autoconhecimento, um processo que jamais termina porque somos todos uma “obra em progresso”, é a chave para conseguir diferenciar entre o que é nosso legítimo desejo (de ter ou não ter filhos, de escolher uma determinada profissão, de casar ou continuar na solteirice) e a “obrigação” de preencher expectativas dos outros (pais, amigos, a própria sociedade).

As expectativas impostas são um fardo pesado. Quando nos submetemos a elas tentando agradar os outros para sermos amados e reconhecidos não conseguimos nos sentir felizes, porque estamos traindo a nós mesmos. Por exemplo, quantas mulheres legitimamente não desejam ter filhos mas acabam engravidando porque são pressionadas pela crença de que a mulher só se realiza pela maternidade, pelo desejo do companheiro ou de sua própria mãe que quer ser avó?  Quantos jovens entram na universidade para preencher expectativas da família para que escolham uma determinada profissão que não corresponde ao seu legítimo desejo?

“Vivi 25 anos com o pai dos meus filhos, mas não me sentia feliz, estávamos juntos por causa das crianças, até que não aguentei mais e me separei”. Não é fácil romper essas amarras e gritar (sobretudo para si própria) “Não é isso o que eu quero”! A expectativa familiar/social de que o casamento deve durar “até que a morte vos separe”, a crença de que filhos de pais separados ficam traumatizados ou a ameaça de que é “ruim com ele, pior sem ele” dificultam um exame mais aprofundado da relação para chegar à conclusão de que está no fim do ciclo e que o melhor a fazer é se separar, para cada um seguir seu caminho, dissolvendo a relação conjugal e cuidando o melhor possível da relação parental.

É libertador desprender-se dessas expectativas para escolher o que realmente faz sentido para nós, mesmo que seja completamente fora do convencional.

“Estou há trinta anos em um relacionamento e é um ideal frustrado”; “Esperamos de uma pessoa algo que ela não pode nos dar”; “Paixão é tentar materializar em alguém nossas fantasias e depois descobrir que não era nada daquilo”; ”Esperamos o que jamais existiu”.  O que acontece é que às vezes nos aprisionamos tanto em nossas próprias expectativas que sobra pouco espaço para descobrir coisas boas e reais na outra pessoa. Para passar da paixão ou de um ideal fantasiado para o amor é preciso descobrir e gostar das semelhanças e das diferenças, da complementariedade que desenvolve o respeito e a aceitação das características de cada um.

“Sempre tendemos a colocar a felicidade em um ponto futuro”. Ao criar a expectativa intensa de alcançar o que ainda não temos,  não prestamos a devida atenção ao presente do presente, que é o que realmente temos. A felicidade está nos pequenos milagres do cotidiano, na capacidade de saborear os bons momentos e de cultivar a gratidão por tudo que chega até nós, inclusive os problemas, que nos permitem criar recursos para enfrentá-los.

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Escolhas ousadas

Escolhas ousadas podem trazer nova luz, como esse belo amanhecer que fotografei na floresta amazônica.

Escolhas ousadas podem trazer nova luz, como esse belo amanhecer que fotografei na floresta amazônica.

Quais as escolhas mais ousadas ou não convencionais que fizemos em nossa vida? Como avaliamos riscos e benefícios dessas escolhas? O que aconteceu em decorrência dessas decisões que tomamos? Compartilhar experiências pessoais com as polaridades ousadia-cautela, inovação-conservadorismo gerou uma conversa muito interessante com um grupo de amigos.

No campo profissional, ousei estudar psicologia quando a profissão estava recém-regulamentada, para espanto de meus pais que queriam que eu fosse médica. Escolhi pesquisar a psicologia da gravidez como tema da tese de Mestrado quando ainda não se falava sobre isso no Brasil. E acabei de publicar Nas trilhas da vida, em parceria com Itiberê Zwarg, o primeiro livro-show do mercado editorial, que a maioria das pessoas está com dificuldade de entender o que é. Abrir novos caminhos inclui enfrentar obstáculos significativos, mas esses desafios me motivam a prosseguir, principalmente quando sinto a alegria de inspirar pessoas a caminhar por novas trilhas.

Um dos participantes falou da sua escolha ousada de morar em outro país por não suportar viver no clima de opressão da ditadura militar. “Sei que corri riscos, fui sem perspectivas concretas de conseguir trabalho, mas com a sensação de conquistar a liberdade ao atravessar esse portal da angústia e da insegurança” – comentou. Pensando no crescente fluxo migratório em função de guerras, perseguições e condições precárias de vida, muitas dessas escolhas ousadas são feitas no limite entre a esperança de sobreviver e a quase certeza da aniquilação.

Abordamos ainda a questão das escolhas ousadas no campo amoroso. Paixões avassaladoras que motivam a saída de relacionamentos que nos oferecem conforto material ou emocional mas deixaram de nos empolgar. Escolher viver com uma pessoa que nos encanta, apesar da reprovação da família e de amigos.

“De gravata e unha vermelha”, um documentário de Miriam Schnaiderman (Brasil, 2015), apresenta depoimentos de pessoas que ousaram mudar de corpo e de padrões de masculino/feminino para viverem de acordo com sua verdadeira essência, enfrentando preconceitos, ameaças e intimidações por se situarem fora dos padrões convencionais.

Escolhas ousadas são motivadas por diversos fatores: por rebeldia, para chocar pessoas da família ou grupos conservadores, por uma ideologia ou pela crença de que pode contribuir para mudar o mundo, pelo desejo de sair do “mais do mesmo” entediante e buscar novos rumos, pela esperança de que os riscos assumidos serão compensados por ganhos significativos.

Liberdade de expressar o ódio?

Detalhe de cactos, que fotografei no Jardim Botânico (RJ)

Detalhe de cactos, que fotografei no Jardim Botânico (RJ)

A liberdade de expressar o que pensamos e sentimos é um direito assegurado, mas não é absoluto. No calor da emoção, muitos sentem dificuldade em enxergar a fronteira entre o que é liberdade de expressão e o respeito pela dignidade de quem é, pensa ou age diferente de nós. “O direito de um termina quando começa o direito do outro” é uma expressão popular que define a fronteira entre o discurso de ódio e a liberdade de expressão.

O discurso de ódio, com relação a adversários políticos, grupos de outras etnias e religiões ou com os desafetos de modo geral incita a violência, a hostilidade e a discriminação, com mensagens ofensivas que, com frequência, envolvem calúnia, injúria, difamação. Em meio ao clima de ataques pesados, acusações e “desconstrução” de candidatos adversários nas eleições de 2014 (que prejudicou a reflexão sobre os problemas do país e a apresentação de projetos para resolvê-los), o Ministério da Justiça lançou uma campanha pelas redes sociais: “Não confunda discurso de ódio com liberdade de expressão”.

Lembro-me do caso de uma diretora de escola que se surpreendeu com a confusão do conceito de liberdade de expressão por parte dos pais dos alunos que criaram uma comunidade “Eu odeio” (ainda na época do Orkut…) para atacá-la com mensagens desrespeitosas. “Se nossos filhos não gostam da senhora, eles podem se manifestar como quiserem”: como foi difícil convencê-los do contrário, foram processados por calúnia, injúria e difamação e tiveram de indenizá-la por danos morais.

Os ataques de cyberbullying revelam essa dificuldade de entender até onde pode ir a liberdade de expressão. Por isso, a conversa na família e na escola sobre esse tema é tão importante. Faz parte do processo de construir a inteligência emocional, que pressupõe a capacidade de expressar o que pensamos e sentimos sem ofender nem humilhar quem quer que seja. Liberdade de expressão não é incompatível com o respeito pelo outro.