Arquivo da tag: medo da perda

Reconstruções, redefinições e novos significados

201012-Jeri 074

No ciclo de cada dia, mudanças e redefinições acontecem. (Fotografei em Jericoacoara CE).

A conversa sobre esse tema com um grupo de amigos teve como ponto de partida comentários sobre o filme O quarto de Jack, que narra a história de uma mulher mantida em cativeiro, e que engravida de seu sequestrador. Precisa reconstruir e redefinir sua vida para cuidar do desenvolvimento do filho da melhor forma possível em circunstâncias tão terríveis. Quando, finalmente, consegue fugir com o menino, então com cinco anos, ambos precisam reconstruir, redefinir e dar novos significados à vida a partir do contato com o mundo fora do quarto. Tarefa que se revela mais difícil para a mãe do que para a criança, e que também envolve a reconstrução e a redefinição dos vínculos com a família extensa após sete anos de convívio interrompido.

Nos relacionamentos afetivos, perdas e separações também acarretam reconstruções e redefinições. Há casais que, diante do desemprego de um deles, redefine funções no cuidado da casa e dos filhos, além de reconfigurar o orçamento doméstico. Nos casos de divórcio e viuvez, a família passa pelo processo de reconstrução e redefinição da composição familiar. É preciso investir esforços para construir bons caminhos a partir dessas mudanças, em vez de gastar energia vital em queixas e lamentos que prolongam o sofrimento e nos afundam na imobilidade.

A vida nos apresenta uma diversidade de problemas e desafios a serem enfrentados. Casos de superação para encontrar novos rumos a partir de um acidente, como o que aconteceu com um jovem que sofreu amputação de suas pernas e conseguiu ser atleta. Um número crescente de refugiados de países em guerra, barrados nas fronteiras, deportados, buscando rotas alternativas que demandam semanas de caminhadas em regiões inóspitas, movidos pela esperança de redefinir suas vidas. Cidades e países devastados que precisam se reconstruir após guerras ou desastres climáticos.

É preciso cultivar a flexibilidade para fazer os ajustes necessários, para não enrijecer no lugar do qual acredita não poder sair, como aconteceu com um livreiro que, ao acumular prejuízos, teve de fechar sua livraria e, deprimido, afirmava não saber fazer outra coisa na vida, nem mesmo vender livros em praças. Milhares de pessoas que subitamente perdem seus empregos e não conseguem se recolocar na mesma área precisam redefinir caminhos de trabalho, como acontece com muitos taxistas e outros prestadores de serviços.

Fechar um ciclo, abrir outro: no decorrer da vida, muitos escolhem voluntariamente mudar de rumo, redefinir metas, encontrar novos significados. Uma amiga querida encerrou seu ciclo como psicoterapeuta e passou a criar orquídeas. Em viagens a santuários ecológicos, como a Chapada Diamantina e a Chapada dos Guimarães, conheci alguns donos de pousadas e restaurantes que eram executivos do mercado financeiro: escolheram viver fora do estresse dos grandes centros urbanos e da enorme pressão que seus cargos lhes impunham para viver em contextos que lhes propiciam maior tranquilidade e a possibilidade de viver melhor com menos dinheiro.

Anúncios

A criança e a morte

Com a morte de um ente querido, toda a família precisa fazer o trabalho de luto. (Detalhe da fachada da Igreja da Sagrada Família, que fotografei em Barcelona)

Com a morte de um ente querido, toda a família precisa fazer o trabalho de luto. (Detalhe da fachada da Igreja da Sagrada Família, que fotografei em Barcelona)

– Vovô virou estrelinha – disse Carolina ao comunicar a morte de seu pai para Bruno, seu filho de cinco anos.

– Estrelinha, mamãe?! Vovô morreu, foi para o cemitério e virou zumbi! – retrucou o menino, surpreendendo a mãe.

No trabalho com famílias, é frequente a questão de como abordar o tema da morte com crianças. Uma das perguntas habituais é se devemos “poupar” a criança de ir a velórios e enterros. Lembro-me da minha infância, em que os mortos eram velados nas casas, e as crianças se aproximavam do caixão, tocavam o cadáver com curiosidade e comentavam o que percebiam. E o que é “poupar” as crianças, que presenciam cenas horripilantes de mortes violentas nos noticiários, sem falar nas que vivem em comunidades onde predomina a linguagem da violência, que precisam aprender a se proteger dos tiroteios e se deparam com cadáveres ensanguentados nas ruas?

A morte faz parte da vida, mas falar sobre isso virou tabu. Conheço alguns pais que, preocupados com a morte de um bichinho de estimação, compraram outro “igualzinho” para colocar em casa, antes que o filho retornasse da escola, na esperança de que este não percebesse o que acontecera. Crianças não são bobas, e lidam com a realidade muito melhor do que alguns adultos, como mostrou Bruno para sua mãe.

Com crianças pequenas, podemos falar sobre o ciclo da vida mostrando as flores que desabrocham e depois completam seu tempo. E dizer que o mesmo acontece com os demais seres. Em algum momento, morrerá alguém da família, do círculo de amigos, ou até mesmo colegas de escola. As crianças maiores fazem perguntas difíceis de responder: “Se Deus é tão bom, por que levou minha mãe”? “Meu colega morreu no acidente. Eu também posso morrer”? “Mamãe, se você morrer, quem vai cuidar de mim”? “Eu também quero morrer para encontrar o papai no céu”!

Se a família segue uma religião, poderá rezar pela pessoa que morreu e explicar que nosso corpo é apenas uma embalagem temporária para um espírito que continua a existir. Se não há um referencial de espiritualidade, explicar que a pessoa continua viva em nosso amor e em nossas lembranças. É claro que isso não extingue a tristeza e a saudade pela falta da proximidade física. E vale lembrar que o mais importante é oferecer a escuta acolhedora dos sentimentos e das questões que surgem no decorrer do trabalho de luto que precisará ser feito por toda a família.

Afrodisíaco

Superando o medo de sofrer, floresce a capacidade de amar. (Fotografei no orquidário do Jardim Botânico, RJ).

Superando o medo de sofrer, floresce a capacidade de amar. (Fotografei no orquidário do Jardim Botânico, RJ).

O melhor afrodisíaco é abrir o coração

Enfrentar o medo de “não dar certo”, os fantasmas do abandono, o terror da rejeição

Aprender com as dores das perdas de amores passados

Mergulhar na singularidade da nova relação

Superando a visão estreita de que “todo mundo é igual, só muda de endereço”

Saindo da couraça da mágoa e do ressentimento que nos endurece e intoxica

Criando coragem para ver como contribuímos para os problemas passados

Acreditando que a capacidade de amar pertence a nós

Quando o ciclo de um amor se fecha, podemos nos abrir para outra construção

Sem nos perdermos em encontros desencontrados

De sexo vazio de afeto, que empobrece o prazer

Descobrindo novos recursos para nutrir o amor com carinho e bons cuidados

Mesclando tesão com ternura

Explorando requintes de sensualidade e erotismo

Aprofundando a confiança que permite a entrega

Libertando a criatividade em pequenos grandes momentos

Que torna cada dia de amor único e especial.

No emaranhado da indecisão

Senti um profundo bem-estar seguindo o fluxo do rio em Bonito (MS), contemplando os peixes e a vegetação aquática.

Senti um profundo bem-estar seguindo o fluxo do rio em Bonito (MS), contemplando os peixes e a vegetação aquática.

No decorrer da vida, encaramos algumas encruzilhadas, em que nossas escolhas definirão o rumo que nossa vida tomará. Dar prosseguimento a um curso universitário que não está preenchendo as expectativas ou “seguir o coração” e trabalhar em outra área, que oferece menor rendimento financeiro porém maior realização pessoal? Permanecer agarrado a um casamento deteriorado para não sair da casa que construiu com tanto esforço?

A vida flui, como a água de um rio. Mas, muitas pessoas se paralisam na indecisão: vivem infelizes em casamentos destroçados, em um emprego que as adoecem, morando em uma cidade que detestam. A insatisfação e a angústia se expressam em incessantes lamentos e reclamações. Talvez passem o resto da vida aprisionadas na indecisão, dominadas pelo medo de que tudo ficará pior se ousarem escolher um novo rumo.

Relações extraconjugais podem oferecer uma ilusão de mobilidade, para atenuar a angústia da indecisão. “Minha amante está me pressionando para eu deixar minha mulher. Meu casamento realmente está péssimo, mas eu não consigo sair. Enquanto isso, tento administrar as duas”.

A indecisão é alimentada pelo medo da perda e pela insegurança. Cada escolha envolve renúncias. Viver “em cima do muro” cria a ilusão de que é possível usufruir de ambas as situações. Mesmo sem conseguir estar por inteiro em nenhuma.

Por outro lado, há pessoas que tomam decisões impulsivas e se jogam em situações novas sem ponderar cuidadosamente os prós e os contras dessa escolha. “Meu filho está começando o terceiro curso universitário. Ainda não conseguiu concluir nenhum: quando está perto do meio do caminho, diz que não é isso o que ele quer e passa para outro”. E o mesmo pode acontecer com o trabalho ou com as relações amorosas.

E há os que preferem criar todas as condições para que o outro decida romper o vínculo. Se o outro passa a ser o responsável pela decisão, fico protegido contra a dor do arrependimento: “Eu não me separaria nunca, mas ela resolveu me abandonar”. “Não sei por que fui novamente demitido”. Sem coragem de sair, acaba sendo mandado embora.

É complexo o equilíbrio entre a coragem e a cautela, entre a necessidade de correr riscos e a busca de estabilidade, entre a ousadia de inovar e a necessidade de consolidar o que já foi conquistado.

Cultivando o “minhocário”

Pedras, aridez e grandiosidade que fotografei no Grand Canyon.

Pedras, aridez e grandiosidade que fotografei no Grand Canyon.

– Ela está chateada comigo. Disse que, em cinco anos de casados, eu nunca dei um presente caro. E o carinho, os passeios, e tantas outras coisas não contam? O que importa é mostrar para as amigas o que ganhou do maridão? – Pedro está perplexo com a insatisfação da esposa.

– E se meu filho resolver se separar, o que será das crianças? Aí não vou poder vê-las com tanta frequência. Isso será terrível!” – desabafa Sílvia, com lágrimas nos olhos.

É inevitável entrar no “minhocário” em alguns momentos da vida. Mas podemos nos esforçar para não permanecer nele por muito tempo, evitando cultivar “minhocas” de preocupação, frustração ou até mesmo de desalento e desespero, que conduzem à sensação de aridez e de vazio.

Para sair do “minhocário”, precisamos mergulhar em nosso interior com perguntas que nos ajudam a entender melhor o que está acontecendo conosco. Reconhecer nossa fragilidade, mas redirecionar o olhar para nossa força e competência para lidar com situações difíceis. Isso será útil para perceber com mais clareza os padrões de pensamento ou de crenças nos quais estamos nos aprisionando e que  ações nos conduzirão para a porta de saída.

Os padrões criados pela sociedade de consumo vinculam demonstrações de afeto ao preço dos presentes. Quando não conseguimos nos desvencilhar dessa crença, corremos o risco de não enxergar a qualidade do afeto pautado por outros parâmetros, criando insatisfação e amargura em relacionamentos que poderiam ser muito bem vividos.

O medo da perda e da solidão nos assombra em alguns momentos, quando constatamos que não podemos controlar a vida dos filhos adultos, livres para fazer as próprias escolhas. O sofrimento se intensifica com o “E se…”, que conduz às piores hipóteses que ocupam nossa mente e nos impedem de perceber que também nós somos livres para escolher novos caminhos, nas diferentes etapas da vida. Ficamos perdidos na sensação de total impotência, sem conseguir aproveitar o que está ao nosso alcance.

Quando o medo de sofrer perdas se intensifica é sinal de que nos perdemos de nós mesmos e precisamos nos achar. Podemos utilizar uma pergunta-bússola: O que de melhor podemos fazer por nós mesmos nas circunstâncias atuais?