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O poder do pensamento positivo

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Que tipo de pensamentos e sentimentos armazenamos dentro de nós? (Fotografei em Inhotim, MG).

A neurociência oferece uma nova perspectiva para o que antes era visto como autoajuda. Treine sua mente, mude seu cérebro. As conexões neuronais são feitas e refeitas “do berço ao túmulo”, como disse o neurocientista Dan Siegel ao escrever sobre “neuroplasticidade autodirigida”: o tipo de pensamentos que nutrimos e a qualidade de nossos relacionamentos modelam nosso cérebro.

Desde os primórdios da humanidade, por uma questão de sobrevivência, nosso cérebro está programado para registrar, primordialmente, as experiências negativas. É o que possibilita uma reação rápida de lutar ou fugir diante dos perigos. O neurocientista Rick Hanson usa uma imagem interessante para desenvolver esse conceito: as experiências negativas grudam na memória como velcro, as positivas escorregam como teflon. Porém, para construir um acervo de boas lembranças, é preciso saborear os bons momentos com muita intensidade. Isso nos prepara para manter serenidade e bem-estar mesmo em épocas difíceis da vida.

Na conversa com um grupo de amigos sobre esse tema, algumas reflexões se destacaram:

Cultivar pensamento positivo não é otimismo ingênuo, achar que sempre está tudo ótimo, que vai dar tudo certo e, então, deixar de se preparar para diversos cenários. Da mesma forma que resiliência não é se conformar com os problemas, é força para enfrentar as adversidades. É vislumbrar possibilidades e ser proativo na busca de recursos.

Pensar positivo é ter desejos, metas, pegar leve, cultivar alegria e bom humor, fazer acontecer, estar sempre disposto a aprender e a reformular o que for necessário.

Nesse grupo, alguns participantes estão com mais de oitenta anos e, portanto, enfrentaram períodos difíceis em suas vidas. Alguns comentários: não há dia sem noite, a vida se apresenta com desafios, dificuldades. É preciso ter força de superação, não se deixar abater por pensamentos negativos do tipo não vai dar certo mesmo, não tem jeito.

Pensamento positivo também vale para a coletividade. Diante da situação atual, não só no Brasil como no mundo, é grande o número de pessoas pensando que tudo está perdido, e que ficará cada vez pior. Esse modo de pensar paralisa, desanima, bloqueia ações construtivas. Que tal agir, em vez de se queixar e reclamar? Juntar- se com pessoas (na família, no trabalho, na comunidade) para gerar ideias para atacar os problemas.

Uma das participantes sugeriu criar um canal de notícias boas nas redes sociais. A repetição exaustiva de notícias “ruins” estimula um clima coletivo de desalento e desesperança. Como disse outra participante: “Não adianta brigar com a realidade, ela sempre vence”. O importante é agir, dentro do alcance de cada um, para modificar o que é possível.

Como usamos nossa energia vital? Para reclamar, se queixar, explodir de raiva e nutrir o ódio em mensagens intermináveis pelas redes sociais? Em vez de se exaurir desperdiçando essa energia preciosa, que tal planejar ações que possam contribuir positivamente para melhorar a própria vida e a de outras pessoas? Nas palavras do médico Jon Kabat-Zinn: Não é possível parar as ondas, mas podemos aprender a surfar.

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Treine sua mente, mude seu cérebro!

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Esse objeto me fez pensar como é importante cuidar bem da delicada rede neuronal do nosso cérebro.

“O cérebro está sempre em mutação, a maior parte do tempo sem nossa participação consciente”. “O bem-estar é uma habilidade que pode ser cultivada” – Essas frases me chamaram a atenção quando assisti palestras de Richard Davidson, psicólogo e neurocientista, que comanda um laboratório de pesquisas na Universidade de Wisconsin.

A construção do bem-estar se fundamenta em alguns pilares:

  • Neuroplasticidade – Podemos modelar nosso cérebro para cultivar o bem-estar, podemos meditar para, voluntariamente desenvolver a compaixão. Nossos pensamentos, experiências e relacionamentos fazem e refazem os circuitos neuronais.
  • Epigenética – Como os genes se expressam, ligam ou desligam sob a influência das experiências de vida e dos relacionamentos. Cada gene tem uma espécie de controle de volume que pode ser mudado e regulado por nossas experiências. Temos predisposições genéticas, mas a meditação, por exemplo, pode modular a expressão dos genes.
  • Há uma via de mão dupla entre cérebro e corpo – mudanças em um causam impacto no outro. É possível cultivar o bem-estar praticando atividades físicas e focalizando as emoções positivas.
  • Expandir a generosidade, fortalecer a resiliência (a rapidez com que nos recuperamos das adversidades, cultivando emoções positivas), aprimorar o foco da atenção para estar integralmente no momento presente são outros elementos fundamentais para a construção do bem-estar.

No laboratório, cuja equipe é liderada por Davidson, o estudo da atividade cerebral de monges tibetanos com mais de dez mil horas de prática de meditação revelou circuitos cerebrais ativados pela compaixão, especialmente a ínsula e a amígdala. Descobriu-se também uma forte conexão entre o cérebro e o coração, quando a compaixão é desenvolvida. E tudo isso está ligado à construção do bem-estar.

Em outro experimento, sujeitos não praticantes tiveram duas semanas de treinamento em meditação, durante meia hora por dia, e viram que, mesmo com tão pouco tempo de prática, ocorriam mudanças no cérebro. Esses e outros estudos mostram a importância de trabalhar nossa mente positivamente para promover a saúde física e mental.

Micro autocuidado

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Mesmo com pouco tempo disponível, é possível cultivar o bem-estar. (Fotografei na Finlândia).

Respirar fundo três vezes algumas vezes por dia; prestar atenção no prazer de ensaboar e enxaguar as mãos; dois minutos de pausa para contemplar as nuvens; um minuto com os olhos fechados, prestando atenção na respiração; alongar braços e pernas após um tempo mergulhado em e-mails; fazer movimentos para relaxar pescoço e ombros, regiões do corpo que mais acumulam tensões. Pequenas ações, feitas com frequência no decorrer do dia, para se consolidarem em hábitos. Esse é o conceito de micro autocuidado, para quem diz que não dispõe de tempo para cuidar de si mesmo.

Profissionais de saúde podem fazer isso entre um cliente e outro, assim como mães de crianças pequenas que demandam muita dedicação, professores com grande carga horária de aulas, advogados estressados com prazos de processos. Enfim, todos nós. Para cuidar bem dos outros é preciso cuidar bem de si mesmo! Principalmente quando somos nosso próprio instrumento de trabalho.

Em neurociência, o conceito de neuroplasticidade autodirigida sugere que é possível criar novos caminhos neuronais em nosso cérebro fazendo repetidamente essas pequenas ações. A qualidade dos vínculos que temos com os outros e conosco mesmos modelam e remodelam as redes neuronais. Em termos de micro autocuidado, menos é mais.

Mesmo quando conseguimos criar tempo para saborear com calma o que comemos, tirar uma soneca depois do almoço, conversar descontraidamente com pessoas da família e amigos, dar uma longa caminhada ou fazer uma aula de dança, aproveitar as pequenas janelas de tempo para cultivar o hábito do micro autocuidado traz enormes benefícios para descarregar o estresse, renovar a energia e a disposição e estimular a sensação de bem-estar.

E você? O que pode fazer para ampliar seu repertório de micro autocuidado? Se ainda nem pensou nisso, que tal começar?

Sugestões de artigos sobre o tema:

http://www.courtneypinkerton.com/2012/09/27/micro-self-care/

http://www.goodtherapy.org/blog/no-time-for-self-care-simple-micro-practices-to-the-rescue-0601154

http://www.mindfulreturn.com/micro-self-care-a-necessity-for-new-mamas/

https://psychotherapynetworker.org/blog/details/993/who-says-self-care-has-to-be-monumental?utm_source=Silverpop&utm_medium=email&utm_campaign=111216_pn_i_rt_WIR_8amSTO

“Trabalhar é a maior felicidade”!

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A conversa com a artesã Edite, que fotografei na Chapada Diamantina (BA) foi uma lição de vida.

Foi assim que Edite, 74 anos, respondeu à primeira pergunta da pesquisa que estou fazendo sobre a construção da felicidade. Ela é artesã e mora em Lençóis, na Chapada Diamantina (BA). Trança palha, faz crochê, costura, faz bordado, fuxico, cerâmica. Trabalha na roça, também. “Só paro de trabalhar quando estou dormindo, comendo e no banheiro, cantando. Gosto de trabalhar desde que tinha uns três anos. A gente morava em fazenda, e eu ia com meu pai para o curral ajudar a tirar leite das vacas e também para a roça, para ajudar a plantar e a colher. Ele dizia para minha mãe deixar eu ajudar porque eu gostava de fazer isso. Com minha mãe, eu ia para a lagoa lavar roupa. Eles não trabalhavam sábado e domingo, então eu brincava com bonecas, arrumava a casa delas, convidava outras crianças para brincar comigo. E foi aí que aprendi a cozinhar, costurar, bordar”.

Aprendeu com o pai que o melhor é dormir e acordar cedo, além de descansar depois do almoço para “respeitar o corpo”. Diz que trabalho é remédio: quando sente qualquer mal-estar começa a trabalhar e tudo passa. “Tive 17 filhos mas só criei nove, os outros morreram pequenos. Naquela época, o que a gente mais via era caixão de anjo, muitos morriam novinhos, não tinha remédios nem médicos, como tem agora. Meus nove filhos dizem que se sentem felizes porque nunca me viram em uma cama de hospital”.

Diz que já explicou a mais de mil pessoas que lhe perguntam o que ela faz para viver sorrindo que o importante é trabalhar, que é isso que faz bem para a saúde. “Quem se concentra no trabalho não pensa nos problemas. Quem se preocupa muito adoece e isso não adianta nada, porque o que tem que ser já nasce assim e o que não tem que ser não é”. Às vezes fica preocupada com os três filhos que trabalham como caminhoneiros, mas pensa que Deus não vai deixar que nada de ruim aconteça e, então, a preocupação acaba. Não fica triste porque tem muito a agradecer à vida.

Faz projetos de vida a longo prazo: comprou uma terra e está organizando um sítio, plantando frutas e legumes para se alimentar bem. “Não é porque eu estou com 74 anos que vou deixar de fazer planos para o futuro”.

Edite é uma pessoa resiliente. Intuitivamente, pratica o que a neurociência ensina a respeito da neuroplasticidade autodirigida e a ciência da felicidade aponta sobre a importância da gratidão e da renovação de projetos de vida.

Envelhecer é privilégio!

A solidez e a beleza de construções antigas, como essas que fotografei em Bruges (Bélgica).

A solidez e a beleza de construções antigas, como essas que fotografei em Bruges (Bélgica).

“Envelhecer é um horror!” é um comentário que ouço não só de pessoas com problemas de saúde, mas também de idosas que estão muito bem, mas não gostam de olhar no espelho o rosto enrugado ou o corpo que não se enquadra nos padrões estéticos convencionais, reflexo de uma sociedade que enaltece o corpo e o estilo de vida dos jovens e considera os idosos como feios e descartáveis.

A população de idosos está em crescimento acelerado. E, com os cuidados apropriados, um número crescente de pessoas está envelhecendo com saúde, disposição e desejo de produtividade. É o momento de superar preconceitos sociais e mudar o olhar coletivo sobre os idosos. Em vez de considerá-los como um fardo pesado, passar a vê-los como pessoas que acumularam experiências que podem ser muitos úteis para a troca de conhecimentos entre as gerações, abrindo novas frentes no mercado de trabalho e de empreendedorismo para os que querem se reinventar após a aposentadoria.

Descobertas recentes da neurociência mostram que envelhecer nem sempre é sinônimo de deterioração, como, infelizmente, acontece em quadros de demência e outras patologias cerebrais. Na etapa do envelhecimento, o cérebro mantém um certo grau de plasticidade para se organizar e mudar, não necessariamente para pior.

Exercícios físicos regulares, alimentação adequada, interesse em aprender coisas novas e o cuidado de manter relacionamentos afetivos de boa qualidade revitalizam os circuitos neurais em nosso cérebro e permitem que a “segunda idade adulta” (a vida depois dos 50 anos) seja muito bem aproveitada. Nesse sentido, envelhecer é um privilégio, que abre novos caminhos de vida.

Bem antes de chegar aos 50, é bom começar a se perguntar: “Quem eu quero ser quando envelhecer?”  Quando tratamos de buscar o melhor em nós mesmos, encontramos boas oportunidades em cada etapa da vida!

Sou uma “obra em progresso”!

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No decorrer de toda nossa vida, somos uma “obra em progresso”. Pela neurociência, já sabemos que nossas conexões neurais são feitas e refeitas “do berço ao túmulo”, em função das experiências pelas quais passamos e da qualidade dos vínculos que construímos.

Quando estabelecemos metas de mudança, é importante valorizar os pequenos passos, ousar vencer o medo de explorar territórios desconhecidos, e encarar o desafio de realizar ações concretas no rumo da meta desejada: “Quero vencer a timidez e aumentar meu círculo de amigos”; “Meu objetivo é falar fluentemente três idiomas”; “Quero planejar melhor minhas finanças para não ficar endividado”.

Mesmo quando a meta é expressiva, como a que foi estabelecida pelo povo que construiu Petra escavada na rocha há mais de dois mil anos (fiquei impressionada quando fotografei essa cidade!), é importante valorizar e celebrar a conquista de cada pequeno passo na direção do objetivo. “É difícil, mas não é impossível!”: isso nos encoraja a persistir, e nos anima a vencer os obstáculos.

O processo de desenvolvimento pessoal é estimulado pelo desejo de mudança. “Sempre fui assim, não vou mudar, e quem quiser que me ature do jeito que eu sou!”: quem diz isso está limitando opções de vida e fechando caminhos de relacionamento. Não podemos mudar quem não quer se modificar. No entanto, quando mudamos nossa própria postura em um relacionamento difícil, o circuito interativo será alterado: o que fazemos influencia o que o outro faz, e vice-versa. Olhar para nós mesmos e para nossos relacionamentos como uma “obra em progresso” é um convite à mobilidade, a ações criativas e ao exercício do nosso poder de tomar iniciativas para efetuar as mudanças desejadas, saindo da postura paralisante de repetir incessantemente as mesmas queixas e reclamações.