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Desenvolvendo a competência socioemocional

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É preciso cultivar as competências socioemocionais com carinho, paciência e persistência, como para fazer um belo jardim como esse que fotografei na Holanda.

Querem que seus filhos e alunos façam boas escolhas, tomem decisões com responsabilidade, saibam resolver problemas e conflitos que surgem, consigam cultivar bons relacionamentos, lidem bem com suas emoções, tenham persistência para vencer obstáculos, se comuniquem com clareza e respeitem as pessoas?

Essas são as principais competências socioemocionais. E por que desenvolver tudo isso é indispensável para viver bem no século XXI?

Estamos na era da grande transição, delineando um futuro ainda imprevisível, com rápida evolução da tecnologia e da inteligência artificial. Muitas das profissões que hoje existem deixarão de existir ainda não sabemos que profissões existirão em duas décadas. Por isso, é preciso preparar as crianças desde cedo para a capacidade de ajustar-se às mudanças, construir a resiliência para lidar com frustrações e cenários adversos e ter flexibilidade mental para criar alternativas viáveis.

A neurociência nos mostra que a arquitetura cerebral é fortemente influenciada pela qualidade dos vínculos com pessoas significativas. Desde o início da vida, esses vínculos formam uma base sólida ou frágil que terá repercussões no desenvolvimento futuro, refletindo em aprendizagem, comportamento e saúde.

As inúmeras situações do dia a dia na família e na escola são oportunidades de desenvolver as competências socioemocionais, consideradas como recursos essenciais para enfrentar os desafios deste século.

Alguns exemplos práticos:

  • Empatia – reforçar a percepção do impacto de ações da criança sobre os outros: “Quando você arranca o brinquedo da mão do seu amigo, ele fica chateado e zangado com você”.
  • Criar soluções – estimular a criança e o adolescente a assumir responsabilidade e criar automotivação, em vez de logo aplicar castigos (“Vou tirar do futebol e confiscar o celular”) que intensificam a raiva e podem fortalecer a resistência: “Você não está indo bem na escola, tem estudado pouco. O que fazer para melhorar seu rendimento? Vamos pensar e fazer um plano de estudos mais eficiente”?
  • Gerenciamento de conflitos – nas brigas entre irmãos, em vez de se colocar no papel de juiz que aplicará as “sentenças”, convidar a criar alternativas para encontrar soluções satisfatórias para ambas as partes: “Se um começou, o outro continuou. Então a briga é dos dois. Vamos criar boas ideias para resolver o problema”!
  • Segunda oportunidade – diante de respostas grosseiras, estimular a conduta de reparação e a reflexão sobre a forma equivocada de se comunicar: “Aposto que você consegue dizer a mesma coisa de modo mais respeitoso”.
  • Revisão de comportamento inadequado – passada a “tempestade emocional”, reconstruir o ocorrido para imaginar desfechos mais adequados: “Ontem de manhã, você perdeu o controle, me xingou e me tratou de um modo inaceitável. E eu também perdi a paciência e me irritei muito com você. Vamos pensar como poderíamos ter conduzido melhor o que aconteceu”.

As competências socioemocionais podem ser desenvolvidas por toda a vida. Sempre há a possibilidade de aprimorar o autoconhecimento, perceber nossos pontos fracos e fortes, reconhecer o que sentimos e como reagimos. Desse modo, aprendemos com os erros e selecionamos a expressão adequada do que sentimos, possibilitando a construção de bons relacionamentos.

O convívio cotidiano com filhos e alunos nos oferecem oportunidades valiosas de desenvolvimento pessoal.

 

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“Espero que a escola dê um jeito no meu filho!”

Califórnia 055

A diretora de uma escola na qual dei palestra me contou que muitos pais comentam que seu nome é frequentemente mencionado para mediar “à distância” os conflitos com os filhos: “Se não comer direito, vou contar para a diretora!”; “Se insistir em ir de chinelo para a escola, a diretora não vai deixar você entrar!”. Ao receber os alunos na porta da escola, tenta mostrar aos pais que não é possível para ela exercer essa função.

Há uma frase que muitas mães repetem há décadas: “Você vai ver o que vai acontecer quando seu pai chegar do trabalho!”. Reflete o desgaste de ordens ignoradas e de ameaças ineficazes. Outra frase comum: “Esse menino me leva à loucura!”. Revela o desespero e o sentimento de total impotência quando se esgotam todos os recursos para lidar com a teimosia, a resistência e o enfrentamento. As crianças conseguem ler rapidamente as entrelinhas dessas mensagens: “Mamãe não consegue me controlar, está desesperada. Posso continuar a fazer o que eu quero!”. Na disputa pelo poder, muitas crianças saem vencedoras (porém assustadas, sem contar com a contenção protetora). Os adultos ficam acuados, inseguros, perdidos. Principalmente quando não conseguem compartilhar de modo satisfatório a função parental para fazer face à enorme responsabilidade de educar um filho.

Não é fácil lidar com as crianças “conectadas”, com amplo acesso à informação: o vocabulário se expande rapidamente, os argumentos são elaborados desde cedo, o questionamento desarma, a insistência cansa. Para se sentirem bons pais, muitos deixam de colocar os limites necessários para ajudar a criança a construir o freio interno da autodisciplina e do respeito às normas e regulamentos da vida social e escolar.

“Já tentei de tudo, nada dá certo, ele só faz o que quer!”. Com esses pais, procuro examinar o circuito interativo para entender melhor o que acontece. O que está alimentando a insegurança dos pais? Estão falando uma coisa e fazendo outra? Os diferentes componentes da comunicação estão desencontrados, fazendo com que a palavra se enfraqueça? Há consequências que são aplicadas quando os “combinados” não são cumpridos? Ou também dentro de casa “tudo acaba em pizza”, como vemos acontecer com uma frequência assustadora no cenário nacional? A partir desse entendimento, surgem caminhos para ampliar recursos de manejo. Inclusive para construir uma parceria mais eficiente entre a família e a escola, que exercem funções complementares, para que crianças e adolescentes desabrochem plenamente.

Comunicação é palavra, expressão corporal e ação

Quando essas três coisas se integram

Mandamos mensagens coerentes

Mas quando se desencontram

É a palavra que perde o poder.