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Humanos: burros e sábios

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O que esperar do atual cenário global? (Fotografei no Japão).

“Nunca se deve subestimar a burrice humana para fazer escolhas erradas. Assim como a violência, a burrice é uma força poderosa na História. Por outro lado, a sabedoria humana também é uma força poderosa na História” – esse comentário do historiador israelense Yuval Harari, autor de “Sapiens” e de “Homo Deus” me chamaram a atenção nos diálogos TED. Eu já havia lido os dois livros, que me deixaram muito inquieta. Essa conversa entre Harari e Chris Anderson também foi perturbadora.

A pergunta inicial foi: O que está acontecendo no planeta? Para onde vamos?

Harari responde que os humanos sempre precisam ter uma história na qual acreditar coletivamente. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que poderíamos viver em um mundo melhor mas, devido à enorme aceleração das mudanças, muitos elementos foram desmontados e ainda não temos uma história consistente para contar. Com isso, torna-se muito difícil entender em que mundo estamos vivendo ou prever como estará o planeta daqui a vinte ou trinta anos.

Ele cita dados surpreendentes: atualmente, morrem mais pessoas em consequência da obesidade do que de fome; é mais comum morrer de velhice do que de doenças infeccionas; há mais mortes por suicídio do que por assassinato. A divisão política entre esquerda e direita tornou-se menos significativa do que a divisão entre nacionalismo e globalismo.

Os grandes problemas tornaram-se globais e não podem ser resolvidos por países isolados. É preciso pensar novos modelos políticos, baseados em cooperação para construir regulações e soluções globais, como no caso do rápido desenvolvimento da inteligência artificial que provocará desemprego em massa e dos experimentos em engenharia genética. E também na questão do aquecimento global, que já exibe seus efeitos, como aponta Al Gore em seu novo filme “Uma verdade mais inconveniente”.

Harari prossegue dizendo que o que se ensina nas escolas hoje será totalmente irrelevante para o mercado de trabalho daqui a vinte ou trinta anos. A autoridade está progressivamente passando dos humanos para os algoritmos. O acúmulo de dados (“big data”) é tão fenomenal que muitas decisões importantes já estão sendo tomadas por algoritmos, que se tornaram mais eficientes na tomada de decisões.

Ora predomina a burrice, ora a sabedoria em nossas escolhas individuais e coletivas. Que vida construiremos nesse cenário de mudanças vertiginosas?

Para quem quiser se inquietar com uma hora de conversa sobre a impossibilidade de saber para onde vamos, siga o link:

https://www.ted.com/talks/yuval_noah_harari_nationalism_vs_globalism_the_new_political_divide?utm_campaign=tedspread–a&utm_medium=referral&utm_source=tedcomshare

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Criando um emaranhado de problemas

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Às vezes, nos enredamos em problemas criados por nossa imaginação. Foi o que pensei ao ver essa “cama de cipós” que fotografei em Gonçalves (MG)

Alguns problemas são inevitáveis, muitos outros são criados ou agravados por nossos filtros seletivos de escuta e de memória ou de interpretação das ações de outras pessoas. Na psicoterapia, trabalhamos para desfazer emaranhados de mal-entendidos na comunicação e clarear os temas predominantes que colorem os filtros seletores da percepção.

Quando rejeição e abandono é um tema predominante em nós, interpretamos inúmeras ações em diversos contextos usando esse filtro seletivo: percebemos como rejeição quando amigos não retornam as mensagens de imediato, quando o grupo conversa sobre assuntos diferentes do que gostaríamos de propor, quando o parceiro não faz exatamente o que queremos do jeito que achamos melhor, quando a ideia que propusemos na reunião de trabalho não é aceita, quando só lembramos do que os outros deixaram de fazer por nós e esquecemos o que recebemos de bom.

Circunstâncias como essas confirmam dolorosamente a sensação de sermos rejeitados, embora haja outras interpretações possíveis para as mesmas ações (os amigos estavam ocupados com outros afazeres, a conversa do grupo evoluiu por outros caminhos, o parceiro fez o que foi possível dentro da perspectiva dele, havia ideias melhores no grupo de trabalho, não dá para ninguém atender 100% de nossas expectativas).

Usando esse filtro seletor, não conseguimos ver o que fazemos para que os outros se afastem, como nos excluímos das conversas, como recusamos as ideias dos outros, como praticamos tão pouco o reconhecimento e a gratidão, ao fazermos tantas queixas, cobranças e reclamações. O resultado é um emaranhado de problemas de relacionamento, insatisfação, frustração, infelicidade: “Minha vida é um horror, ninguém gosta de mim, nada acontece como eu gostaria”.

Cultivar pensamentos catastróficos é outro modo de fabricar um emaranhado de problemas e acabar com a nossa paz interior. Quando a filha se atrasa e o celular não responde, isso é sinal de que aconteceu uma tragédia. O sistema de alarme é ativado, o corpo da mãe se inunda de hormônios do estresse, ela entra em pânico, não consegue se concentrar em coisa alguma, só imagina o pior. Não pensa que a bateria do celular descarregou ou que a filha estava se divertindo com amigos em um lugar barulhento, não ouviu o telefone e nem checou as mensagens. Quando ela finalmente chega, encontra a mãe estressada, desesperada e, em seguida, enraivecida por ter se assustado à toa.

Se pode complicar, por que facilitar? Parece que isso norteia a vida de alguns de nós. Cultivar a gratidão, apreciar o que a vida e as pessoas nos oferecem, pensar em hipóteses menos trágicas é um trabalho a ser feito para seguir as trilhas do bem-estar. Podemos estabelecer diálogos internos produtivos para questionar “certezas” criadas por nossas carências e temores, reorganizar nossas emoções, escolher que tipos de pensamentos vamos nutrir e encarar destemidamente nossas sombras.

“Sou um deficiente eficiente”!

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Há circunstâncias que nos impelem a atravessar caminhos difíceis. (Fotografei no Grand Canyon, Califórnia).

Foi assim que M. (58) se definiu, ao dizer que teve que abrir mão de muitas coisas por ser deficiente físico. De família de baixa renda, passou por múltiplas cirurgias na infância, e é cadeirante. Para ele, felicidade não é ficar rico, é se dar bem com as pessoas e acordar sempre sorrindo, mesmo quando sente dores físicas. Nesses momentos, o melhor a fazer é pegar seu violão e compor ou, então, escrever alguma coisa.

Eu o entrevistei para minha pesquisa sobre construção da felicidade. Em vários momentos, M. revelou ter muita autonomia em seu cotidiano, uma enorme alegria de viver e de transmitir sua arte.

O cineasta e fotógrafo Yann Arthus-Bertrand entrevistou duas mil pessoas em sessenta países para compor o maravilhoso documentário Humano, em que apresenta um painel sobre a diversidade e as semelhanças entre o que as pessoas sentem sobre temas tais como amor, felicidade, guerra, trabalho, pobreza, relações familiares, deficiências. Um depoimento impressionante foi o de um homem que perdeu as pernas. Ele diz: “Com isso, acabei aprendendo a ver melhor, a ouvir melhor e a perceber o mundo de outra forma a partir da perspectiva da minha cadeira de rodas. Se Deus aparecesse e me dissesse que me daria duas pernas novas de presente, eu agradeceria e diria que me sinto muito bem como estou agora”.

Como lidamos com nossas dificuldades, deficiências (todos nós temos algumas), desafios, problemas? O que é possível desenvolver a partir de uma grave limitação?

Os dois casos que mencionei são de limitações físicas. No entanto, o mesmo se aplica a outros contextos. Nessa época de recessão da economia, muitos estão se defrontando com graves limitações de orçamento, desemprego ou cortes/atrasos de salários. Desenvolver a flexibilidade mental para se ajustar às circunstâncias difíceis, reprogramar a vida, buscar alternativas possíveis para enfrentar a deficiência de recursos, aprender a viver melhor com menos. Estes são caminhos necessários para navegar pela crise sem se afundar no desânimo ou na amargura.

O depoimento que vi no documentário Humano está em: https://www.youtube.com/watch?v=w0653vsLSqE

Gratidão

A beleza impactante das pedras coloridas à beira-mar, que fotografei em Jericoacoara (CE).

A beleza impactante das pedras coloridas à beira-mar, que fotografei em Jericoacoara (CE).

Na correria dos dias cheios de compromissos e tarefas

É bom encontrar o tempo para parar e agradecer

Tudo que a Vida nos oferece!

Inclusive os problemas, que se transformam em oportunidades

Quando desistimos dos lamentos

E tentamos desenvolver recursos para superá-los

Buscando forças que estão dentro e acima de nós

E também ao nosso lado, os amigos com quem contamos

As pessoas da família, os companheiros de trabalho.

Que os momentos de virada, do ano ou de nós mesmos

Nos estimulem a ampliar nosso olhar de gratidão

Por nossos ancestrais, que nos colocaram nas trilhas da vida

Por experiências com as quais tanto aprendemos

Por nossos companheiros de viagem.

Que, apesar das dificuldades que encontramos pelo caminho,

Seja sempre possível contemplar a beleza do mundo e das pessoas,

Nutrir o amor e a sensibilidade

Para perceber a grandeza das pequenas coisas

E aproveitar o presente de cada momento.